Importadores do Oriente Médio já estudam rotas alternativas para garantir o recebimento de carnes brasileira diante da escalada das tensões no Oriente Médio e do fechamento do Estreito de Ormuz. O frete marítimo encareceu diante da alta nos prêmios de seguro cobrados de navios que precisam atravessar áreas classificadas como de risco, além de já haver relatos de atrasos nas entregas. Segundo avaliação da (CCAB) Câmara de Comércio Árabe Brasileira, as cargas que transportam carnes que estavam em trânsito podem sofrer redirecionamentos ou até adiamentos, a depender da evolução do cenário geopolítico.O setor já planeja que as mercadorias podem ser redirecionadas para portos fora da área mais crítica do Golfo, incluindo terminais localizados no Golfo de Omã, ou seguir por rotas que utilizem o Canal de Suez. Em alguns casos, a alternativa é desembarcar a carga em países vizinhos e completar o trajeto por via terrestre até o destino final. Leia Mais Rio Grande do Sul confirma gripe aviária no Taim sem impacto comercial Abitrigo: Fechamento do Estreito de Ormuz já impacta trigo brasileiro Preço do açúcar sobe em Nova York impulsionado por alta do petróleo Em entrevista ao CNN Agro News, a CEO da Agrifatto, Lygia Pimentel, destacou que o aumento dos custos logísticos é hoje um dos principais entraves para o setor de carnes. Segundo ela, os fretes marítimos ficaram mais caros com a elevação dos seguros das embarcações, movimento que impacta diretamente as margens das exportadoras brasileiras. O secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Mohamad Orra Mourad, ainda esclarece que demanda por proteínas deve permanecer firme e que os países vão seguir importando proteína do Brasil. Além disso, o setor registrava uma intensificação de embarques no fim de 2025 em esforço de formação de estoques para a data festiva do Ramadã, mas também um reflexo da normalização do comércio neste momento pós tarifaço. “As proteínas são consideradas itens essenciais e, neste período do ano, os países islâmicos ampliam as compras em função do Ramadã, quando há maior consumo de alimentos após o pôr do sol”, informou à CNN Brasil.Em entrevista ao CNN Money, o especialista em agronegócio e professor do Insper Agro Marcos Jank, os efeitos da escalada dos conflitos não se restringem ao Irã, mas atingem também países que mantêm forte relação comercial com o Brasil, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Segundo ele, os impactos ainda não são imediatos, mas podem se tornar mais relevantes caso a instabilidade se prolongue, especialmente para o setor de carnes, que depende diretamente da fluidez logística e da estabilidade dos mercados da região.Os países árabes vêm ampliando os investimentos na produção própria de proteína animal, movimento que tem impulsionado as exportações brasileiras de insumos estratégicos para essa cadeia. O secretário ainda destaca que muitos países do Golfo operam com estoques reguladores para garantir o abastecimento interno e manter sua atividade de reexportação, o que ajuda a evitar uma interrupção abrupta no comércio.FrangoDados do MIDC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) indicam que o Oriente Médio importou cerca de US$ 3 bilhões em carne de frango brasileira no ano passado, volume que representou 34,8% de todas as exportações nacionais do produto no período, consolidando a região como um dos principais mercados da proteína avícola do Brasil.Segundo Ricardo Santin, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), o Brasil embarca mensalmente entre 80 mil e 100 mil toneladas de frango halal ao Oriente Médio. Entre os principais destinos estão os Emirados Árabes Unidos, Omã e Iêmen.A liderança reportou que o setor acompanha a situação com apreensão. De acordo com ele, portos da região foram fechados preventivamente por companhias de navegação, o que dificulta novas operações.“Embora existam alternativas logísticas, como rotas pelo Canal de Suez ou pelo Cabo da Boa Esperança, as empresas marítimas estariam evitando aceitar novas reservas diante do cenário de incerteza”, informou.Ele destaca ainda que há um grande volume de cargas já em trânsito, considerando que o tempo médio de viagem até o Oriente Médio pode chegar a 40 dias. O setor avalia caminhos alternativos, como desembarques em portos do Mediterrâneo, na Europa ou na Turquia, mas essas opções dependem de autorizações e licenças específicas dos países que receberiam temporariamente as mercadorias.Apesar das dificuldades logísticas recentes, a demanda vinha em trajetória de crescimento. A Arábia Saudita, por exemplo, ampliou em mais de 15% as compras de frango brasileiro.Para 2026, a expectativa do setor é de recuperação mais consistente e comércio aquecido, movimento já sinalizado no último trimestre de 2025, quando as vendas avançaram 8,2% na comparação anual.Carne bovinaAs exportações brasileiras de carne bovina podem registrar queda entre 30% e 40% caso os gargalos logísticos provocados pela guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos se prolonguem. Em entrevista à CNN Brasil, o presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne Bovina), Roberto Perosa, afirmou que o setor acompanha com apreensão a escalada do conflito e seus possíveis reflexos sobre toda a cadeia da pecuária nacional.Segundo ele, o impacto financeiro pode chegar a US$ 6 bilhões, considerando o volume de negócios que depende das rotas afetadas. “Somente para aquela região exportamos cerca de US$ 2 bilhões no ano passado, mas por aquela região transitam de US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões, com grande dificuldade de realocação”, destacou Perosa.Entre os principais destinos da carne bovina brasileira, dois mercados árabes concentraram as maiores compras. O Egito importou US$ 375,35 milhões, alta de 24,53% na comparação anual. Já a Arábia Saudita adquiriu US$ 333,10 milhões, avanço de 29,90%.Outro mercado que ganhou relevância foi a Argélia. Desde 2024, o país intensificou as relações comerciais com o Brasil e, no último ano, elevou em 40,56% as compras de carne bovina, movimentando US$ 286,58 milhões e consolidando-se como destino estratégico para os exportadores brasileiros.https://stories.cnnbrasil.com.br/agro/ataques-no-oriente-medio-reacendem-alerta-sobre-comercio-entre-brasil-e-ira/