Artigo: O torcedor número um, por Ademar Bispo

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Foto: Fotos Históricas de MirandópolisNas décadas de 50, 60 e 70 a maioria das cidades do interior, quase sempre, se sobressaia nos esportes porque tinha algumas pessoas abnegadas, amantes do esporte, que dedicavam horas do seu dia a dia e também recursos econômicos para manterem as equipes ativas.Na nossa região tivemos esportistas famosos por se dedicarem de corpo e alma aos esportes de sua cidade: em Valparaiso o senhor Agostinho Barbosa e o Armen; em Guaraçaí o senhor Juventino; em Lavínia o Sanfonaro; em Murutinga do Sul o doutor Celso e outros.Mirandópolis não fugiu à regra, várias pessoas se movimentavam, organizando, arrecadando valores, doando dinheiro para que pudéssemos participar de campeonatos ou até, simplesmente, competir amistosamente. Podemos citar o Rossi, jogador profissional, com passagem por equipes do exterior, que, já afastado dos campos, trabalhando no Hospital das Clínicas transmitiu aos jovens e garotos mirandopolenses o “ABC” do futebol.  O Bananeira, também se dedicou à equipe do Mirandópolis Esporte Clube, como técnico, sem receber nada, muitas vezes colocando dinheiro do próprio bolso para a gasolina gasta nas viagens. Recebia sim, muitas críticas e as vezes até ofensas.Incluímos neste rol de pessoas dedicadas ao esporte os senhores José de Souza e João Milian, primeiros dirigentes do MEC, quando este participou pela primeira vez do Campeonato Paulista da 3ª divisão de futebol, juntamente com outros presidentes que vieram depois, entre eles Nicanor Junqueira, o Norinho que pegou o time devendo para todos os jogadores e com recursos próprios fez os acertos, torcedor fanático do time. Ainda passaram pelo MEC e por outras equipes que vieram: João Mendes, Álvaro Leite, Takaomi Ijichi, José Grota, José Zanon (pai), entre outros. Não podemos nos esquecer do Jorge Sekino, que mantinha equipes de basquete feminino, futebol de salão e natação. Nem podemos deixar de citar aqueles que se propunham a apitar os jogos de futebol de salão, também sem receber nada e sendo as vezes quase agredidos, como o Fernando Miron, o Bananeira, o Milton Crevelaro, o Aziz. No futebol de campo tivemos o Macaco, o Fenelon, o Ferrinho, o Valdomiro, Zé Calada.Hoje vou falar de uma destas pessoas que amava o Mecão. Se o time ia jogar em outra cidade era o primeiro a chegar, o primeiro a entrar no ônibus e a sentar-se no primeiro banco. No hotel, eram reservadas onze camas para um descanso rápido dos jogadores, na época não existia substituição de jogadores, mas sempre alguém estava sem cama. Ele se apropriava de uma. Se íamos de perua Kombi fazia questão de sentar-se na frente, ao lado do motorista.Quando voltávamos dos jogos e resolvíamos dar uma passadinha em algum bairro periférico das cidades, na casa das “primas”, não descia da perua, ficava ali, sentado o tempo todo, não falava nada…esperando o nosso retorno. Quando o jogo era em Mirandópolis, era visto descendo a rua das Nações Unidas, em direção ao Estádio Alcino Nogueira de Sylos. Morava na rua 9 de Julho, em frente à Praça, não tinha carro, descia a pé, de chapéu panamá, camisa abotoada até no gogó e a calça erguida acima do umbigo, carregando sua valise preta.Já no estádio sentava meio isolado, nos bancos dos reservas. Não lhe davam muita atenção, as vezes era tratado até com uma certa grosseria, pelos dirigentes. Gostava de pegar os desprevenidos pelo cotovelo, para dar choque. Sua fala era meio enrolada, acho que alguma sequela dos ataques epiléticos que sofria, quase não o entendíamos. Atento ao jogo, quando algum jogador se levantava e segurando o chapéu com uma das mãos e a valise com a outra, corria com passos curtinhos. Os torcedores gritavam: olha o doutor Hermes, olha o doutor Hermes, olha o doutor Hermes. O jogador já recuperado levantava-se e ele voltava para o banco. E a torcida ria, caia na gargalhada. Ele parecia estar num mundo só seu, nunca o vi nervoso com alguém, nunca foi grosseiro. As injustiças, as ofensas, as incompreensões de que era vítima não conseguiam penetrar neste seu mundo.Doutor Hermes Bruzadin, para mim o senhor foi o torcedor número um do Mecão. Que Deus o tenha. Um detalhe, os medicamentos existentes na valise eram adquiridos por ele, com seu dinheiro.*Ademar Bispo da Silva, nasceu em 1945, em Mirandópolis. Suas lembranças da infância são das brincadeiras na rua São João, já na juventude as recordações são voltadas ao futebol. Em Mirandópolis trabalhou como professor e depois bancário, profissão em que se aposentou em Araçatuba.O post Artigo: O torcedor número um, por Ademar Bispo apareceu primeiro em AGORA NA REGIÃO.