Faltam 80 mil trabalhadores na construção em Portugal

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De acordo com o mais recente estudo da ManpowerGroup, o Global Talent Shortage Survey 2026, 83% dos empregadores do setor em Portugal admitem dificuldades em encontrar os profissionais de que necessitam. O número não só impressiona como ultrapassa em 12 pontos percentuais a média global, fixada nos 71%.O retrato é claro: o setor surge como o quarto mais afetado pela escassez de talento no país, apenas atrás da indústria, da hotelaria e restauração, e dos serviços públicos e sociais. Num contexto de forte investimento, tanto nacional como estrangeiro, a falta de recursos humanos começa a revelar-se um dos principais fatores de risco.A pressão não é nova, mas está a intensificar-se. Dados da AICCOPN apontam para um défice superior a 80 mil trabalhadores na construção — um número que expõe um problema estrutural: uma força de trabalho envelhecida, pouco renovada e cada vez menos atrativa para as novas gerações.Daniela Lourenço, responsável pela marca da Manpower em Portugal, não tem dúvidas sobre a dimensão do desafio. A dificuldade em alinhar a disponibilidade de talento com as necessidades do mercado, explica, está a criar um desfasamento que se propaga por toda a cadeia de valor. E esse desfasamento já não é apenas operacional — começa a afetar a capacidade do setor de responder à procura.Falta de engenheiros, técnicos e operacionais trava ritmo de crescimentoO problema não se limita à base da pirâmide. A escassez atravessa diferentes níveis de qualificação e atinge áreas críticas para o funcionamento do setor.As empresas apontam as competências de engenharia como as mais difíceis de recrutar, representando 24% das dificuldades identificadas. Logo a seguir surgem as áreas de operações e logística, com 23%, e indústria e produção, com 21%.Este desequilíbrio revela uma tensão transversal: faltam tanto trabalhadores especializados no terreno — como pedreiros e técnicos — como perfis altamente qualificados capazes de planear, gerir e supervisionar projetos. A consequência é direta: atrasos, aumento de custos e menor previsibilidade na execução de obras.Num setor onde os prazos são cada vez mais apertados e os projetos mais exigentes, a ausência destes perfis torna-se um obstáculo estrutural.Soft skills ganham peso num setor cada vez mais complexoMas não são apenas as competências técnicas que estão em falta. À medida que os projetos se tornam mais complexos e interdependentes, as empresas valorizam cada vez mais as chamadas competências humanas.O profissionalismo e a ética no trabalho surgem no topo das prioridades, referidos por mais de metade dos empregadores. Seguem-se a adaptabilidade e a capacidade de aprendizagem, bem como competências de comunicação, colaboração e trabalho em equipa.Num ambiente onde múltiplos intervenientes — desde fornecedores a equipas técnicas — têm de operar em sintonia, a capacidade de coordenação e de resposta a imprevistos tornou-se decisiva. O pensamento crítico e a resolução de problemas, apontados por cerca de um quarto das empresas, refletem precisamente essa necessidade.Empresas respondem com formação e salários mais altosPerante este cenário, as empresas começam a ajustar estratégias. A resposta não é uniforme, mas há tendências claras.Cerca de 27% das organizações do setor estão a investir na requalificação das suas equipas, apostando em programas de upskilling e reskilling para colmatar lacunas internas. A mesma percentagem admite ter recorrido ao aumento salarial como forma de atrair e reter talento — um sinal de que a pressão do mercado está a traduzir-se em custos acrescidos.Outras medidas passam pela flexibilização das condições de trabalho. Ainda que limitada pela natureza do setor, cerca de 19% das empresas referem ter introduzido horários mais flexíveis ou regimes parciais.Apesar disso, a margem de manobra é curta. Ao contrário de outros setores, a construção continua fortemente dependente de trabalho presencial e de mão de obra intensiva, o que reduz a capacidade de adaptação a modelos mais flexíveis.Um problema estrutural com impacto no futuroO estudo do ManpowerGroup, baseado em mais de 39 mil empregadores em 41 países, confirma uma tendência global. Mas em Portugal, o problema assume contornos particularmente críticos.A combinação de envelhecimento da força de trabalho, falta de atratividade e crescimento da procura coloca o setor num ponto de tensão difícil de resolver a curto prazo.Num país onde a habitação, as infraestruturas e o investimento imobiliário continuam no centro do debate económico, a escassez de talento na construção deixa de ser apenas uma questão setorial. Passa a ser uma variável determinante para o ritmo de desenvolvimento do próprio país. O conteúdo Faltam 80 mil trabalhadores na construção em Portugal aparece primeiro em Revista Líder.