O mercado de crédito privado tem testado o estômago e os nervos do investidor nos últimos anos. Quando uma agência de classificação de risco anuncia o rebaixamento de rating – o temido downgrade – de uma empresa, a reação em cadeia costuma ser imediata no mercado secundário: os preços das debêntures, CRIs e CRAs desabam e as taxas disparam.O tamanho do impacto no mercado secundário varia, mas as consequências são negativas e podem ser sentidas rapidamente por quem decide vender logo após um downgrade. No entanto, especialistas avisam que nem todo rebaixamento é motivo para pânico – e é possível até lucrar com esse movimento.Leia também: Há 65 conflitos ativos no mundo: como investir em meio ao “novo realismo” geopolíticoEfeito da venda forçada dos institucionaisApós um downgrade, o investidor pessoa física pode se ver no meio de um fogo cruzado: muitos fundos de investimento têm regulamentos que proíbem a manutenção de papéis com notas de crédito abaixo de um determinado patamar e, com isso, são obrigados a vender títulos de companhias recém-rebaixadas.“Na minha visão, esse é um dos principais pontos de pressão no curto prazo”, diz Gustavo Moreira, sócio da InvestSmart, sobre a venda forçada de ativos, independentemente do preço. “Isso gera um aumento repentino de oferta no mercado secundário, muitas vezes sem a mesma proporção de compradores, o que naturalmente pressiona o preço para baixo e aumenta o spread.”Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, concorda que essa dinâmica cria uma pressão vendedora artificial. “O impacto é duplo: o preço cai e o spread abre, elevando a taxa exigida para aquele risco”, explica.Para quem acompanha a cotação diária na corretora, o susto é grande. “Para a pessoa física, isso se traduz em marcação a mercado negativa e, em alguns casos, dificuldade de liquidez. Mas é importante entender que esse movimento, na maioria das vezes, está muito mais ligado a uma questão técnica do que necessariamente a uma deterioração imediata da capacidade de pagamento da empresa”, tranquiliza Moreira.“De forma geral, o mercado costuma antecipar boa parte dos movimentos de rating. Spreads abrindo, notícias negativas recorrentes, piora nos indicadores financeiros, tudo isso já vai sendo precificado antes do rebaixamento formal”, avalia Gustavo Moreira. Ele ressalta que “não é tanto a surpresa em si, mas a consequência prática que ainda movimenta o mercado”.Sidney Lima concorda, mas pondera que o susto pode vir da intensidade. “Ainda é possível haver surpresa quando o downgrade é mais agressivo do que o esperado, quando ocorre múltiplo rebaixamento em sequência ou quando altera a classificação para abaixo de grau de investimento. O efeito surpresa não está apenas na direção, mas na magnitude.”Para tentar se antecipar, os especialistas recomendam ficar de olho em “sintomas” clássicos. Enrico Cozzolino, CEO e estrategista-chefe da Zermatt Partners, cita que o “aumento da dívida sempre é um bom alerta”. Moreira complementa: “aumento consistente do endividamento, principalmente quando não vem acompanhado de geração de caixa”, além de “aquisições alavancadas, governança questionável ou dependência excessiva de um único cliente”.O que fazer com o papel na carteira?Se você abriu a plataforma da corretora e viu que o emissor da sua debênture foi rebaixado, a regra de ouro é simples. “Minha principal recomendação é não tomar decisão por medo”, diz Moreira. “O rebaixamento é uma informação relevante, mas não é sinal automático de venda. O investidor que vende no calor do momento com altíssimo deságio frequentemente realiza o pior resultado possível.”Cozzolino lembra que “nem toda deterioração de crédito significa default (calote) no investimento”. O investidor deve checar se a piora da nota realmente impacta o vencimento daquele papel específico e analisar a solidez das garantias atreladas à dívida.Leia também: Regime Fácil entra em vigor com investidor mais seletivo após problemas na renda fixaO que olhar e quais as oportunidades?Na hora de tomar a difícil decisão entre segurar o papel até o vencimento ou vender com prejuízo no mercado secundário, Lima sugere colocar quatro variáveis na balança. A probabilidade estimada de calote e a taxa de recuperação esperada em caso de inadimplência.O custo de oportunidade: há alternativas com risco ajustado mais atrativo?O prazo remanescente até o vencimento e a capacidade da empresa de atravessar o ciclo adverso.O impacto da concentração daquele ativo no portfólio total“Se o risco se tornou desproporcional ao retorno esperado ou compromete a diversificação, pode fazer sentido realizar o prejuízo; mas, se a empresa mantém capacidade de pagamento e o prêmio ficou excessivamente elevado por efeito técnico de liquidez, carregar até o vencimento pode ser racional”, explica Lima. Por outro lado, investidores mais arrojados podem aproveitar eventuais distorções que rebaixamentos causam no mercado. A ideia é aproveitar eventual pânico do mercado, que pode exagerar na penalização de empresas que ainda têm capacidade de pagamento. Mas o movimento exige muita cautela. É necessário “fazer uma análise fundamentalista criteriosa antes de qualquer movimento”, adverte Moreira. “Vendedores compulsórios criam distorções de preço que um comprador criterioso pode explorar, especialmente quando o rebaixamento reflete um estresse pontual, não uma deterioração irreversível. O alerta é que o investidor precisa estar disposto a carregar o papel até o vencimento, caso seja necessário, já que a liquidez no mercado secundário brasileiro ainda é bastante limitada nesses casos.”The post Rebaixamento de rating nem sempre é sinal para a venda. Veja dicas de gestores appeared first on InfoMoney.