No início de março, saiu esse relatório sobre os impactos da IA no mercado de trabalho. Como se a gente precisasse de mais uma comprovação do fim do nosso futuro. Pessimismos ou brincadeiras à parte, o fato é que esse relatório da Anthropic trouxe 5 grandes insights:IA ainda está mais ajudando do que substituindo;O impacto varia muito por profissão;A adoção da IA está acontecendo extremamente rápido;Ainda não há evidência clara de desemprego causado por IA;A grande mudança deve surgir nos empregos de entrada.Grandes novidades? Nenhuma! Mas olhando para além do que o relatório diz e que, convenhamos, é muito conveniente para a própria empresa de IA, temos um caminho importante para traçar a partir desses insights.Como pesquisadora em Saúde Mental no trabalho, meu olhar segue em uma direção: o fim das tarefas de aprendizado. Se a gente pensar que a maior parte das profissões tem uma estrutura pedagógica informal, ou seja, começam por meio de tarefas simples, repetitivas e operacionais, o fato de que a IA tem executado tudo isso para os colaboradores pode ser bem preocupante.Para alguns economistas, esse fenômeno tem sido chamado de deskilling pipeline collapse ou “colapso da formação de competências”. E isso gera três efeitos possíveis: 1) o mercado fica mais elitizado e entram somente pessoas que já chegam preparadas; 2) há uma concentração de expertise com menos especialistas em um futuro próximo e 3) profissões são redesenhadas desde a base.Mas vale uma provocação: será que esse “colapso da formação de competências” é, de fato, um problema para as empresas hoje em dia? Acho que não, afinal, automatizar tarefas básicas reduz custo, aumenta produtividade e traz um ganho evidente.O problema está no futuro mesmo. O que hoje aparece como eficiência pode, no médio prazo, virar escassez. As empresas podem estar trocando um problema por outro, sem ainda medir o custo dessa escolha.E como isso conversa com a saúde mental dos nossos guerreiros? Bom, se a IA elimina justamente o espaço de experimentação e aprendizado do trabalho, ela pode afetar também a formação das profissões e dos profissionais. E não é só isso, é também uma questão de formação psíquica. Explico.O Christophe Dejours é um psicanalista que há anos estuda o impacto do mercado de trabalho na psique humana e ele diz que o trabalho tem duas dimensões: tarefa prescrita (o que mandam fazer) e trabalho real (o que se aprende fazendo).É justamente nesse trabalho real que as pessoas desenvolvem inteligência prática, constroem identidade profissional e aprendem coisas objetivas e subjetivas. Então, quando a IA toma conta desses processos aparentemente inofensivos, o maior impacto não é a eliminação de empregos, mas o processo pelo qual aprendemos a trabalhar.O ponto central aqui é que o trabalho não é apenas remuneração. Para Dejours, ele tem uma função psíquica fundamental, pois é um espaço onde a pessoa experimenta, erra, ajusta, evolui, recebe reconhecimento.Em outras palavras: o trabalho é responsável por produzir autoestima, pertencimento e tantos outros sentimentos importantes para o ser humano — desde que haja espaço para um reconhecimento, claro.Se as tarefas iniciais desaparecem com a IA, o sujeito perde esse processo gradual e as consequências podem ser bem desastrosas. Não só para o mercado de trabalho, mas para a sociedade como um todo.Do ponto de vista do trabalho, acontece o óbvio: o medo da irrelevância gera hiperprodutividade defensiva, comparações constantes e receio de tomar decisões. Disso tudo para um burnout, não é preciso muito.Quando o percurso natural do trabalho se encurta ou desaparece, surge também uma realidade injusta: profissionais sendo exigidos em níveis mais complexos sem terem passado pelo percurso que ensina justamente essa complexidade.A questão talvez não seja apenas se a IA vai acabar com os empregos, mas o que acontece com a gente quando o trabalho deixa de ser um lugar de aprendizagem e, portanto, de formação? O que acontece com toda uma sociedade ;e impactada por isso? Vale refletir.