Um míssil hipersônico é um projétil capaz de viajar a pelo menos cinco vezes a velocidade do som (Mach 5, ou cerca de 6.100 km/h) mantendo a capacidade de realizar manobras complexas de evasão durante seu trajeto. Projetada para burlar os escudos de defesa antiaérea convencionais, essa tecnologia militar se tornou o centro da estratégia de dissuasão do Irã. O país detém hoje o maior e mais diversificado arsenal de mísseis do Oriente Médio, com capacidade de atingir alvos a até 2.000 quilômetros de distância, raio que engloba todo o território de Israel e bases dos Estados Unidos no Golfo Pérsico.A física e a engenharia das armas hipersônicasAo contrário dos mísseis balísticos tradicionais, que seguem uma trajetória parabólica altamente previsível — subindo ao espaço e caindo em direção ao alvo sob o efeito da gravidade —, os mísseis hipersônicos operam sob uma lógica de imprevisibilidade tática. Eles combinam a velocidade extrema dos foguetes espaciais com a agilidade direcional dos aviões de caça.O diferencial não está apenas na velocidade bruta. Sistemas de defesa avançados já possuem algoritmos capazes de calcular o ponto de interceptação de mísseis supervelozes. O verdadeiro desafio técnico imposto pelas armas hipersônicas, como os modelos iranianos Fattah-1 e Fattah-2, é a integração de veículos de reentrada manobráveis. Utilizando bicos direcionais ou mecanismos planadores, o projétil pode alterar seu curso bruscamente, variando de altitude dentro e fora da atmosfera terrestre, o que inviabiliza os cálculos de interceptação de sistemas consolidados, como o Domo de Ferro, o Patriot ou o Aegis.Como ocorre o lançamento e a navegação até o alvoO funcionamento de um míssil hipersônico balístico exige a sincronia milimétrica de propulsores de alta potência e sistemas de navegação independentes. O ataque se consolida em três estágios principais:1. Propulsão de combustível sólidoO lançamento inicial utiliza motores de combustível sólido, que garantem uma aceleração imediata e reduzem drasticamente o tempo de preparação em solo, dificultando a detecção prévia por satélites de espionagem. O foguete eleva a ogiva até o limite da atmosfera, ganhando altitude em poucos segundos.2. Separação e voo evasivoNo momento em que atinge o ápice de sua trajetória, o foguete se desprende e libera o veículo de reentrada. Em vez de cair em trajetória balística simples, a ogiva utiliza aerodinâmica avançada ou impulsos adicionais para planar e navegar, mudando ativamente de rota para contornar áreas cobertas por radares inimigos.3. Mergulho e impactoNa fase final, o equipamento reentra na camada mais densa da atmosfera, acelerando e suportando temperaturas extremas. No caso de projéteis como o Fattah-1, a velocidade no mergulho atinge de Mach 13 a Mach 15 (entre 13 e 15 vezes a velocidade do som). A energia cinética acumulada é tão severa que a onda de choque e a perfuração do solo já causam destruição massiva em infraestruturas críticas, muitas vezes otimizando a detonação da carga explosiva.O poder de fogo iraniano e as frentes de combate reaisA eficácia do complexo bélico do Irã ficou evidente no cenário global em outubro de 2024, durante a “Operação Promessa Verdadeira II”. O país disparou cerca de 200 mísseis balísticos diretamente contra Israel. Na ofensiva, a Guarda Revolucionária utilizou ativamente o míssil hipersônico Fattah-1, que saturou as redes de defesa israelenses, impactando instalações militares como a base aérea de Nevatim.O arsenal de Teerã é estruturado para resistir a ataques preventivos. Os armamentos ficam armazenados em “cidades de mísseis” — complexos subterrâneos escavados em montanhas de granito, protegidos por concreto reforçado. De acordo com levantamentos de inteligência norte-americana e organizações como o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), o Irã possui um estoque operacional superior a 3 mil mísseis balísticos.A frota balística iraniana engloba não apenas a linha hipersônica Fattah, mas dezenas de outros modelos adaptados para funções específicas. Destacam-se os mísseis de propelente líquido Shahab-3, base do programa de médio alcance, e suas variantes de alta precisão (Emad e Ghadr), capazes de atingir alvos com margens de erro de apenas 300 metros. O país também opera a série Sejil, projetada para atingir velocidades de até 17.000 km/h com alcance máximo estendido de 2.500 quilômetros. O contínuo repasse dessa tecnologia para grupos aliados no Líbano (Hezbollah), Iêmen (Houthis) e Iraque amplifica o raio de ação das forças iranianas por toda a região.Perguntas frequentes sobre a tecnologia balísticaQual a diferença entre um míssil de cruzeiro e um míssil balístico?O míssil de cruzeiro voa em baixas altitudes, impulsionado continuamente por um motor a jato durante todo o trajeto, operando de forma muito semelhante a um avião não tripulado. Já o míssil balístico é lançado verticalmente como um foguete para fora ou próximo do limite da atmosfera, caindo de volta sobre o alvo aproveitando o ganho gravitacional extremo.Sistemas de defesa aérea conseguem interceptar armas hipersônicas?O grau de dificuldade é considerado crítico. Radares tradicionais e baterias antiaéreas são arquitetados para prever trajetórias lineares ou arcos fixos. Como a ogiva hipersônica manobra aleatoriamente em velocidades acima de 6.000 km/h, o tempo físico e computacional necessário para que o escudo antimíssil reaja e lance um interceptador cai para uma janela estreita de poucos segundos.Até onde os mísseis iranianos podem chegar?Oficialmente, Teerã impôs um limite de alcance de 2.000 quilômetros para seus mísseis de longo curso. Esse raio de ação é cirurgicamente dimensionado para manter sob mira todo o Estado de Israel, a totalidade das bases militares norte-americanas posicionadas nos países árabes do Golfo Pérsico e frações territoriais no sudeste da Europa.O domínio da engenharia de armas hipersônicas realinha as regras de engajamento no tabuleiro internacional. O monopólio da precisão e interceptação, antes garantido pela superioridade ocidental, colide frontalmente com a letalidade tática dos novos projéteis iranianos. Ao massificar o uso de motores de combustível sólido e ogivas com veículos de reentrada imprevisíveis, o Irã estabeleceu uma matriz de dissuasão pautada pela saturação do espaço aéreo inimigo. A consolidação do Fattah-2 e de novas variações de altíssima velocidade exige das demais potências militares globais a imediata reformulação de seus investimentos em radares orbitais e escudos antiaéreos, definindo os contornos da próxima corrida armamentista do século XXI. Leia também Trump diz que 'praticamente não resta nada para atacar' no Irã Seleção do Irã não participará da Copa do Mundo 2026, diz ministro do Esporte Irã ataca navios no Golfo Pérsico e atinge área próxima ao Aeroporto de Dubai