Cuidado com o que o LinkedIn diz

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Fascinado pelo ambiente algo solene da plataforma — onde todos parecem ter carreiras exemplares, projetos transformadores e títulos impressionantes — decidiu testar uma ideia simples. Criou um perfil e declarou-se CEO do LinkedIn. Nada mais.Não conhecia ninguém na empresa, nunca tinha trabalhado na organização e, naturalmente, não tinha sido escolhido por nenhum conselho de administração. Era apenas uma linha escrita num perfil. E o inesperado aconteceu ….. a plataforma aceitou a informação. Mais do que isso. Pouco depois, enviou um email automático para a rede de contactos de Duffy a anunciar a novidade. O sistema felicitava-o pela nova função: Chris Duffy era agora o CEO do LinkedIn.Durante algum tempo, nada aconteceu. O cargo manteve-se visível no perfil e a vida seguiu normalmente. Só bastante mais tarde alguém na empresa percebeu que alguma coisa não batia certo.Vivemos numa era em que grande parte da nossa identidade profissional é construída em ambientes digitais. Plataformas como o LinkedIn tornaram-se uma espécie de praça pública das carreiras. Ali publicamos mudanças de empresa, promoções, novos projetos, reflexões sobre liderança ou conquistas profissionais.A rede tornou-se, em muitos casos, o primeiro lugar onde alguém olha quando quer perceber quem somos profissionalmente. Mas há um detalhe importante que raramente discutimos: grande parte da informação que ali aparece é autodeclarada.Escrevemos quem somos, o que fazemos, onde trabalhamos e quais foram os nossos caminhos profissionais – como quisermos. Na esmagadora maioria das vezes, tudo isso corresponde à realidade. A plataforma funciona porque existe um princípio de confiança implícito entre os utilizadores.Acreditamos no que lemos.Esta confiança não é um erro do sistema. Pelo contrário: é precisamente o que permite que uma rede profissional funcione. Se cada informação tivesse de ser permanentemente validada por processos burocráticos complexos, a agilidade da plataforma desapareceria.O LinkedIn baseia-se numa espécie de pacto silencioso entre profissionais: partilhamos a nossa história profissional esperando que os outros façam o mesmo de forma honesta.Mas, como mostrou a experiência de Chris Duffy, entre a realidade e a narrativa profissional pode existir um espaço cinzento.Esse espaço não existe necessariamente por má fé. Muitas vezes nasce simplesmente da forma como todos nós construímos a nossa própria história. Escolhemos palavras, enquadramos experiências, simplificamos percursos. No fundo, contamos uma versão organizada daquilo que fizemos.Ao declarar-se CEO de uma empresa global e ao ver essa informação aceite automaticamente pela própria plataforma, Chris Duffy expôs a fragilidade simbólica do título. O episódio lembra-nos de algo que muitas vezes esquecemos: o cargo é apenas uma fotografia momentânea de um percurso muito maior.Todos os cargos são temporários.Podem durar anos, às vezes décadas, mas acabam sempre por mudar. As empresas evoluem, as pessoas mudam de função, surgem novas oportunidades ou novas fases de vida. No entanto, é fácil cair numa armadilha silenciosa: começar a confundir o cargo com a própria identidade.No fim, aquilo que verdadeiramente sustenta uma carreira não é o cargo que aparece num perfil digital.  É a reputação. E essa não se constrói com um clique. Constrói-se ao longo do tempo, nas decisões que tomamos, nas equipas que lideramos, na forma como tratamos as pessoas e na confiança que vamos conquistando ao longo do caminho.Talvez seja essa a lição mais interessante escondida na história do falso CEO do LinkedIn.Num espaço onde qualquer pessoa pode declarar-se CEO com alguns cliques, aquilo que continua a distinguir os profissionais não é o título que exibem, mas a credibilidade que constroem.Porque os cargos passam. Mas a forma como exercemos a nossa liderança — essa sim — fica. O conteúdo Cuidado com o que o LinkedIn diz aparece primeiro em Revista Líder.