A pior coisa que líderes empresariais podem fazer agora, diante da saga em constante mudança das tarifas globais, é apenas reclamar e esperar que “isso também vai passar”. A melhor resposta é assumir que as tarifas vão persistir e construir uma organização capaz de absorver o impacto e se adaptar. Eles devem tratar a mais recente onda de taxas e tarifas — impostas pelo presidente Donald Trump depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que muitas das tarifas anteriores que ele havia instituído eram inconstitucionais — como apenas mais uma força em uma era mais ampla de disrupção, marcada por pandemias, guerras, eventos climáticos, restrições ambientais e instabilidade social.Leia também: UE retoma ratificação de acordo comercial com os EUA apesar de risco de novas tarifasOs melhores líderes de cadeia de suprimentos têm reagido dessa forma. Eles se esforçam continuamente para minimizar o custo total de seus produtos até a prateleira, proteger o crescimento da receita e preservar a flexibilidade. Enxergam o atrito comercial como algo normal e acreditam que suas cadeias de suprimentos devem ser projetadas para ter desempenho excepcional apesar disso. Foi isso que aprendi em minhas funções como diretor de cadeia de suprimentos e diretor de compras em empresas de produtos, serviços de manufatura e semicondutores nas décadas de 1990, 2000 e 2010.Hoje, como consultor de cadeia de suprimentos, vejo líderes hesitarem sobre o próximo passo. Muitos ficam presos debatendo táticas tarifárias em vez de construir uma estratégia replicável. Uma exceção notável é uma empresa australiana: Breville, fabricante de pequenos eletrodomésticos de cozinha. Ela oferece um exemplo útil de como uma resposta estratégica pode compensar. Tenho trabalhado com a Breville como consultor desde 2021 para ajudá-la a transferir agressivamente sua produção da China e descobrir como navegar pelas tarifas de Trump. Conheço Jim Clayton, CEO da Breville, há mais de uma década, desde que trabalhamos juntos na LG Electronics, em Seul. O resultado: em 11 de fevereiro, a Breville informou que suas receitas no segundo semestre de 2025 cresceram 10,1%, seus lucros brutos aumentaram 6,3% e mais de 80% dos seus lucros brutos provenientes de produtos vendidos nos Estados Unidos vieram de itens fabricados fora da China, contra 15% apenas três anos antes.Em um setor que por muito tempo produziu quase exclusivamente na China, a Breville redesenhou sua rede de suprimentos: primeiro, passou a adotar dupla fonte de fornecimento entre China e México; depois, adicionou fornecedores na Indonésia, no Vietnã e no Camboja.A partir da abordagem da Breville e de minhas décadas de experiência, deduzi 10 regras práticas que líderes podem aplicar em um mundo movido por tarifas.Regra 1: Preserve capacidades, ajudando fornecedores a se moverUma das formas mais rápidas de neutralizar uma tarifa é ajudar fornecedores comprovados a expandir ou se realocar. Co-investir nessa mudança pode preservar capacidades conquistadas com esforço, ao mesmo tempo que elimina estruturas de tarifas punitivas. Substituir fornecedores por completo é mais lento, mais arriscado e frequentemente mais caro. Clayton me disse que usou as tarifas para levar os fornecedores existentes da Breville a acelerar seus esforços para construir novas operações ou expandir as já existentes fora da China: “Eu usei a crise”, disse. “Nossos parceiros tinham outras prioridades. As tarifas nos deram o motivo de que precisávamos para fazê-los agir agora.”Regra 2: Construa capacidade localEmpresas líderes têm equipes locais capazes de qualificar fornecedores, acelerar transições e identificar novas fontes. Em muitas regiões, fabricantes competentes já existem — à espera de demanda, parceria e credibilidade. A presença local melhora velocidade, execução e visibilidade sobre o custo total real até a prateleira. Na Breville, Clayton pediu a Nico Stiegler, gerente geral de engenharia da empresa, que montasse uma equipe “com presença em campo” para liderar o esforço.Regra 3: Diversifique amplamente, não apenas de forma simbólicaO risco não é mitigado por uma simples estratégia de “China mais um”. Líderes eficazes diversificam em múltiplas geografias — acrescentando países como Vietnã, Indonésia e México — para evitar risco de concentração em um cenário tarifário em constante mudança. O objetivo é resiliência, não redundância.Regra 4: Trate a velocidade como um ativo estratégicoO custo importa, mas a velocidade muitas vezes importa mais. Sacrificar uma pequena parcela de margem para proteger crescimento, níveis de serviço e receita estratégica costuma ser a decisão correta. Uma resposta tardia frequentemente se mostra muito mais cara do que um custo unitário mais elevado.Regra 5: Reconheça o quão integrado o mundo se tornouNas últimas duas décadas, as habilidades de manufatura e técnicas se expandiram rapidamente pelas economias em desenvolvimento. Líderes que olham além dos polos tradicionais frequentemente se surpreendem com a profundidade, a qualidade e a escalabilidade disponíveis. Na Breville, as equipes que Stiegler formou no México e em Hong Kong ajudaram a amadurecer operações no Vietnã, na Indonésia e, mais recentemente, no Camboja. “As capacidades que descobrimos foram impressionantes”, disse Clayton. “Tivemos que alinhar o que esses países já faziam bem à produção de eletrodomésticos de alta qualidade. Não foi imediato nem fácil, mas, em poucos anos, tínhamos produtos de qualidade igual ou superior sendo fabricados ao redor do mundo.”Regra 6: Não deixe a IA distraí-lo dos fundamentosOs ganhos de produtividade ainda vêm principalmente de um design de produto eficiente e de uma manufatura eficaz. A IA pode auxiliar na análise e na tomada de decisões, mas não substitui a execução operacional disciplinada. Líderes que correm atrás de narrativas tecnológicas sem corrigir os fundamentos ficarão decepcionados.Regra 7: Mantenha opções preservando relacionamentosEmpresas inteligentes que expandem além da China continuam mantendo produtos-chave e relacionamentos no país. Décadas de capacidade acumulada devem ser aproveitadas — não descartadas — na busca por diversificação. Opcionalidade é um ativo estratégico em um mundo incerto.Regra 8: Deixe a concorrência trabalhar a seu favorUma vez que o fornecimento é diversificado, novos fornecedores frequentemente passam a competir diretamente com os já estabelecidos. Essa competição reduz preços, melhora o desempenho e fortalece o poder de negociação em toda a rede.Regra 9: Mantenha o foco no custo totalTarifas importam, mas o custo — como a água — sempre flui para o ponto mais baixo. Líderes que se mantêm focados no custo total, em vez de reagir taticamente às tarifas em destaque, tomam decisões melhores no longo prazo.Regra 10: Mantenha o controle da lista de materiaisO controle sobre o fornecimento de componentes é a base da flexibilidade e da gestão de custos. Como as tarifas muitas vezes incidem sobre o valor agregado, posicionar deliberadamente componentes e mão de obra entre regiões continua sendo uma das alavancas mais poderosas disponíveis. Abrir mão desse controle limita as escolhas estratégicas.***Tratar tarifas e taxas como algo permanente, e não como uma disrupção temporária, muda tudo: isso impõe clareza sobre processos, direitos de decisão e modelos operacionais. Tudo deve ser construído para a resiliência.Graças à globalização, líderes agora têm mais opções de fornecimento, manufatura e desenvolvimento de capacidades do que nunca. As tarifas funcionam como um catalisador para avaliar essas opções com disciplina.c.2026 Harvard Business Review. Distribuído pela New York Times LicensingThe post 10 regras para as empresas navegarem o próximo capítulo das tarifas globais appeared first on InfoMoney.