O abandono dos aliados cobra o seu preço de Donald Trump

Wait 5 sec.

Desde que reassumiu a Casa Branca, Donald Trump e seus ministros nunca esconderam seus objetivos de remodelar a geopolítica global. Seja através da reativação da doutrina Monroe, seja através do tarifaço, o novo governo republicano sempre foi franco ao dizer que a postura adotada seria de um Estados Unidos hegemônico e sem acreditar na cooperação multilateral. Tal medida afetou diretamente a política de alianças construída ao longo de oito décadas em um esforço bipartidário em unir os dois lados do atlântico não apenas por questões econômicas e militares, mas sobretudo através de princípios comuns das sociedades de matriz ocidental.O distanciamento dos Estados Unidos de seus aliados europeus começa a ganhar forma quando gradualmente Donald Trump e Vladmir Putin começam a decidir o futuro da Ucrânia sem a participação dela. Ao terem no expansionismo da Federação Russa sua maior ameaça existencial e de integridade territorial, muitos países europeus começaram a interpretar a aproximação de Washington com Moscou como uma clara fragmentação da outrora inquebrável aliança Ocidental. Somando-se a isso, o tarifaço não poupou parceiros comerciais históricos na Europa. A economia europeia que de fato nunca voltou a decolar desde a pandemia, só encontrou mais solavancos adiante, seja com a Guerra n Ucrânia, sejam com as repetidas guerras no Oriente Médio. Em um momento de recessão técnica e busca por austeridade, além de gastos militares galopantes, os europeus se depararam com uma forte medida protecionista de um de seus maiores aliados.A ambição territorial de Donald Trump sobre a ilha da Groenlândia, parte do Reino da Dinamarca, foi a última desanimadora movimentação que comprovou o completo desalinhamento entre os membros da aliança mais poderosa e rica do mundo.Dentro da Europa as iniciativas já se tornam pouco a pouco concretas. Os gastos militares europeus tendem a superar os 800 bilhões de euros (5 trilhões de reais) na próxima década para garantir maior independência da defesa europeia em relação à norte-americana. A busca por laços econômicos mais estreitos entre Europa e Índia e Mercosul também evidenciam a busca por diversificar o portifólio comercial em um momento de protecionismo norte-americano.Para as forças armadas mais poderosas do mundo possuir aliados sempre foi tratado como uma estratégia e não como caso de extrema necessidade. A superioridade tecnológica e quantitativa dos ativos militares dos Estados Unidos, os colocou em um patamar de virtual incontestabilidade em um cenário de guerra. De fato, a qualidade e os números de todos os braços das forças armadas norte-americanas são irrefutáveis, mas em um cenário de guerra imprevisível, sobretudo com um inimigo religiosamente motivado, os dados nas planilhas não necessariamente garantem uma vitória fácil.A Guerra do Irã, iniciada pela ofensiva israelense-americana em fevereiro, se mostra como mais um desses eventos históricos imprevisíveis. A República Islâmica do Irã, apesar de isolada e claramente inferior militarmente, ao lutar pela sobrevivência do regime, utiliza de estratégias complexas e que fazem Donald Trump repensar a maneira como tratou o sistema de alianças durante os últimos meses. Em uma nação ditatorial e teocrática, onde as lideranças não veem alternativas além de uma guerra total para a manutenção do regime atual, apelar para as soluções mais radicais parece ser a única opção. O fechamento do Estreito de Ormuz, gargalo para 20% do petróleo global, foi uma dessas estratégias. Em uma semana os preços da commodity dispararam e os seus efeitos já começam a ser sentidos até mesmo nas longínquas cidades do meio oeste americano.Desobstruir o estreito agora se torna uma prioridade operacional dos Estados Unidos antes de prosseguir com seus demais objetivos militares. O custo econômico e político que o bloqueio tem causado para Trump é imenso. A cada dia sem a resolução desse problema tão central para o funcionamento da marinha mercante global, o presidente vai perdendo popularidade internamente e preocupando investidores sobre a credibilidade norte-americana, sua política externa e suas empresas.Donald Trump recorreu para seus aliados, pedindo a ajuda para a formação de uma coalizão de países europeus e asiáticos para que possam patrulhar o estreito, escoltando as embarcações e garantindo a segurança da navegação. Todavia, o medo de serem arrastados para um conflito longe de seus territórios e os respectivos custos políticos que eles poderiam ter internamente em seus países, afastaram muitas nações de qualquer possibilidade de ajuda imediata ao republicano. Além disso, a postura adotada por Washington desde janeiro de 2025, a forma como buscam redefinir a política de alianças e de esferas de influência globais, também retiram qualquer jugo moral dos ombros de lideranças, principalmente europeias, que se sentiram abandonadas por Trump recentemente.Talvez ainda seja prematuro afirmar que nenhuma nação dará respaldo aos Estados Unidos nessa guerra ainda em curso, mas torna-se evidente que nunca antes em uma ação norte-americana no Oriente Médio, fora tão desafiador encontra aliados dispostos a seguir o comando, ou até mesmo os apelos, de um mandatário norte-americano. Provavelmente essa guerra poderá não apenas redefinir a geopolítica do Oriente Médio, mas também todo o sistema de alianças construído pelos Estados Unidos para gravitar em torno de suas pretensões e necessidades. Leia também Israel anuncia 'operações terrestres limitadas' contra o Hezbollah no Líbano Como a Revolução de 1979 rompeu as relações diplomáticas e transformou os EUA no maior inimigo do Irã