Foto: Criada via Chat GPTSentado na soleira da porta da sua casa, ainda sonolento, descalço, de calças curtas, usando suspensórios, aguardando a mãe chamá-lo para o café, Demá observava a jaqueira da casa do outro lado da rua. Logo mais, ele estaria brincando debaixo dela, com o Silvio, o Cido e o Sérgio. A jaqueira fazia parte da rua São João, era de todos nós, assim como nossas mães eram mães de todos os garotos que moravam naquela ruaMajestosa e imponente, parecia que observava a todos que ali passavam e abraçava àqueles que se divertiam sob sua copa densa. Os garotos subiam pelo seu tronco robusto e galhos fortes sem nenhum medo. Alguns, como Demá ficavam nos galhos baixos, mas tinham os ousados, como Silvio, que ia até o alto da sua copa. Quando a conhecemos já era uma árvore adulta. Ficava no quintal do seu Manoel, resistiu à demolição da casa de tábuas que foi levada para o sítio e acompanhou a construção da casa de tijolos.Seus frutos de gosto exótico e sabor bem diferenciado despertavam o paladar da garotada, mas Cido, vigilante, muito atento, não deixava os moleques apanharem o fruto. Ainda bem que tinha dona Graça, sua mãe, bondosa, conciliadora e sábia, que dizia, num português com sotaque lusitano: Cido, deixa os meninos apanharem uma jaca. Assim mesmo era ele que escolhia qual seria comida.À tarde as andorinhas davam um espetáculo majestoso, antes de se acomodarem em seus galhos para dormir, faziam várias evoluções nos ares da cidade, centena delas, como num movimento orquestral faziam diferentes tipos de evolução. Pouco a pouco a velha jaqueira ia acomodando os pássaros e aquela barulheira infernal ia diminuindo até cessar de vez com a chegada da noite.A velha jaqueira fez parte da nossa infância e da nossa adolescência. Já não existe mais. E, por incrível que pareça, não me lembro como ela se foi. Acho que bloqueei esta passagem, porque se me lembrasse a nostalgia seria maior, a dor de ver cortarem seus galhos que nos abraçavam, uma motosserra mutilar aquele tronco que nos dava apoio e servia de esconderijo. Seria uma dor imensa.*Ademar Bispo da Silva, nasceu em 1945, em Mirandópolis. Suas lembranças da infância são das brincadeiras na rua São João, já na juventude as recordações são voltadas ao futebol. Em Mirandópolis trabalhou como professor e depois bancário, profissão em que se aposentou em Araçatuba.O post Artigo: a velha jaqueira, por Ademar Bispo apareceu primeiro em AGORA NA REGIÃO.