Shirley Ze Yu, economista política e especialista em geoeconomia da China, trouxe o advento da inovação e avanços chineses em matéria de IA à ‘What’s Next? Summit 2026’. E deixa o aviso: «A China não está apenas a construir infraestruturas de IA, mas sim uma economia de IA».A conferência regressou à Porto Business School, no dia 19 de março, trazendo uma manhã de talks e debates dedicados a desenhar o futuro da IA.Diogo Vieira da Silva, Head of Unit, Impact Centers Lead, no Innovation X Hub, foi o host do evento. AI+ e a nova economia chinesa: escala, estratégia e poderZe Yu destacou que a ascensão da China no domínio da Inteligência Artificial não pode ser dissociada de uma estratégia económica de longo prazo. O presidente Xi Jinping construiu a economia ‘Made in China’ consolidando o colosso oriental como potência tecnológica, com cerca de 86% dos objetivos industriais alcançados, liderança em setores como veículos elétricos e energias renováveis, e uma forte aposta em autossuficiência e escala. «O Ocidente assustou-se», referiu a economista.Mas, apesar dos progressos, a China mantém fragilidades, nomeadamente na área dos semicondutores, ainda uma das suas maiores vulnerabilidades em termos de autossuficiência. Ainda assim, a estratégia AI+ surge como evolução natural da última década, indo além de uma mera rivalidade entre plataformas ocidentais e orientais. «Uma estratégia sólida exige domínio em todos os níveis: talento, enquadramento, infraestruturas, materiais e aplicação», explicou.Esta abordagem assenta no domínio de toda a cadeia de valor, desde infraestrutura e dados até modelos e aplicações, com destaque para o crescimento de modelos open source e para a aplicação da IA no mundo físico, como na indústria, robótica e até defesa.A nível global, esta estratégia está a redesenhar equilíbrios económicos e geopolíticos, impulsionando novos fluxos de comércio, cadeias de valor fragmentadas e uma competição entre blocos tecnológicos. A China procura afirmar-se não apenas como líder interno, mas como fornecedor de uma alternativa tecnológica para o Sul Global, através de infraestruturas, normas e parcerias. O resultado é um mundo mais competitivo e complexo, onde o desfecho permanece em aberto e dependerá da capacidade de adaptação dos diferentes atores.Daí o aviso final: «Resistam às narrativas desonestas e simplistas. O resultado ainda não está escrito e as decisões estão a ser tomadas, em tempo real, em todo o mundo.» O futuro da IA exige mais do que eficiência: exige visãoNa abertura do evento, o Dean da Porto Business School, José Esteves, relembrou, através de uma analogia com o filme Metropolis, que o futuro já cá está. E não basta falar sobre tecnologia, é necessário «refletir sobre como nos vai influenciar» enquanto humanos. «A melhor forma de pensar o futuro é antecipá-lo», disse.José Esteves, Dean da Porto Business School.Pedro Duarte, Presidente da Câmara Municipal do Porto, referiu ainda que a IA já não é apenas «um problema tecnológico, mas sim uma questão de liderança, organização e estratégia».A produtividade, a aceleração de processos e a minimização de custos são essenciais na conversa sobre IA. Mas é necessário pensar mais além, na parte da tomada de decisão e da própria arquitetura das empresas. «Num momento em que muito se diz sobre a IA, é importante relembrar uma citação do filme GATTACA: ‘Não há gene para o espírito humano’»Não há algoritmo que possa totalmente substituir ambição, coragem e trabalhar em conjunto.Pedro Duarte, Presidente da Câmara Municipal do Porto.Seguiu-se Alberto Levy, Professor de Inovação, Empreendedorismo e Inteligência Artificial na Porto Business School, para inaugurar o programa. Começou por afirmar perentoriamente: «A IA não é magia, é infraestrutura». Além de todos os meios e infraestruturas necessárias para processar e potenciar a IA, utilizar estas ferramentas sem sentido crítico e humano pode ser pernicioso, pois é necessário questionar e ajustar. «Se nem os humanos obtêm consenso sobre vários temas, o que acontece se treinarmos esta nova ideia da realidade com os vieses da IA?», provocou.Acrescenta que sentir medo é natural, mas a resistência é fatal. O caminho passa por aprender sobre as ferramentas, moldar as regras em conjunto, imaginar novos papéis e liderar a mudança. «Não esperem por outros países, empresas e governos para ser os líderes», concluiu.Alberto Levy, Professor de Inovação, Empreendedorismo e Inteligência Artificial na Porto Business School.Portugal na era da IA: talento, educação e estratégiaA mesa-redonda The Invisible Factory of AI: Power, Pipes & Profits, trouxe a palco, Daniel Rodrigues, Staff Product Manager, AI, Sword Health, Pedro Nuno Teixeira, Professor na Universidade do Porto e Nelson Magalhães, Start Campus. Vera Maia, CEO da BrightStore, foi moderadora da conversa.Daniel Rodrigues começou por sublinhar que Portugal reúne hoje «boas fundações para a utilização desta tecnologia», mas trazer e reter talento para o país deve fazer parte desta estratégia.Na mesma linha, Pedro Nuno Teixeira destacou que a transformação não é apenas tecnológica, mas também educativa. «Temos de mudar a forma como ensinamos, mas também como definimos os objetivos do que os estudantes querem atingir», afirmou, sublinhando a necessidade de abandonar modelos tradicionais de ensino e alinhar competências com uma nova realidade.Já Nelson Magalhães reforçou que os pilares técnicos da IA não são novos, mas que o verdadeiro salto está nas suas aplicações: «o que mudou são as capacidades do que se pode fazer com isso». Neste contexto, defendeu que Portugal já está a afirmar-se não apenas como utilizador, mas também como produtor de tecnologia.Pedro Nuno Teixeira, Professor na Universidade do Porto, Nelson Magalhães, Start Campus, Daniel Rodrigues, Staff Product Manager, AI, Sword Health e Vera Maia, CEO da BrightStore, foi moderadora da conversa.A mensagem final foi inequívoca: a IA deve ser encarada com responsabilidade estratégica, não como uma «ferramenta curiosa», mas como um instrumento capaz de potenciar conhecimento, criar valor e redefinir a competitividade.Pedro Teixeira, Cloud & Infra Director na Claranet Portugal, foi o orador seguinte. O Director referiu que a IA deixou de ser apenas uma tendência para se tornar um verdadeiro sistema operativo do negócio. Mais do que adotar tecnologia, o foco passa por liderar essa adoção com base em confiança, soberania e responsabilidade, garantindo controlo sobre os dados, infraestrutura e enquadramento legal, particularmente no contexto europeu, onde a regulação e a proteção são vistas como fatores diferenciadores.«Não esperemos pelo futuro. Construamo-lo com IA, ética, infraestruturas soberanas e, acima de tudo, pessoas», rematou.Pedro Teixeira, Cloud & Infra Director na Claranet Portugal.O toque humano na era da inteligência artificialAnel Imanbay, fundadora do TEDxMarvila e empreendedora, explicou através do espelho da Branca de Neve por que razão o maior truque do nosso tempo não é a IA, mas sim «a ilusão de certeza que cria». A IA conforta o ego de quem olha para aquele espelho, com os seus vieses e leitura de quem pergunta. E são estas certezas artificiais que se transformam no verdadeiro perigo.Anel Imanbay, fundadora do TEDxMarvila e empreendedora.«Todos estamos de frente para estes novos espelhos e a questão não é se são espertos o suficiente, são brilhantes. A IA pode dar-nos as respostas corretas, mas somos nós que devemos escolher as respostas», referiu.Sergey Gorbatov, especialista em gestão de talentos, desenvolvimento de executivos e cultura organizacional, mostrou como devemos garantir que o potencial humano seja aproveitado onde é mais importante. «A menos que consigamos precisar onde devemos criar valor, outra empresa ou setor poderá fazê-lo primeiro».Sergey Gorbatov, especialista em gestão de talentos, desenvolvimento de executivos e cultura organizacional.Mas, o que é este valor? Que tipo de valor queremos agregar? Estas são as perguntas que as lideranças devem fazer, mas «uma estratégia de um eixo só não será capaz de dar resposta». «A verdadeira vantagem da IA não está nas mãos das empresas que vão ver o valor primeiro, mas sim a quem a conseguir agilizar e adaptar da melhor forma».Seguiu-se a apresentação dos pitches vencedores do desafio lançado aos alunos de MBA da Porto Business School para definir o futuro da IA. Omid Akabrian, aluno do MBA Internacional da PBS 2025–26 e Nuno Pereira, aluno do MBA Executivo na Porto Business School, apresentaram os seus projetos. Resiliência, inovação e poder: o novo contexto globalA última mesa-redonda da manhã, Hard power, smart money: geopolitics, defence & Europe’s next economy, foi protagonizada por Philomène Dias, Executive Board Member da AICEP Portugal Global e Fernando Manuel Vasconcelos, Partner da PWC. Diogo Almeida Alves, Partner na Legacy Innovation House, foi o moderador.A conversa começou com o consenso de que as empresas estão a adiar tomar decisões, especialmente devido à instabilidade geopolítica que se vive. Na opinião de Philomène Dias, a resiliência constrói-se ao investir na adaptabilidade das equipas. «Não é apenas uma questão de custo, mas sim do valor que se pode retirar de todos estes projetos». Para isso, inovação e talento são essenciais. «Não podemos prever o futuro, mas podemos inovar e antecipar», reforçou.Fernando Manuel Vasconcelos, Partner da PWC, garante que «hoje em dia é tudo sobre geopolítica e resiliência operacional». Reforça a urgência de não esperar e começar a trabalhar vários eixos de forma a reforçar a resiliência. «Esta é a realidade que vivemos e o melhor é não esperar», reforçou.Philomène Dias, Executive Board Member da AICEP Portugal Global, Fernando Manuel Vasconcelos, Partner da PWC e Diogo Almeida Alves, Partner na Legacy Innovation House.Christoph Steck, Diretor de Políticas Públicas da Amazon Espanha e Portugal, e Daniel Gelsing, Professor Assistente de Estratégia, Liderança e Tomada de Decisões na Porto Business School, fecharam a manhã com um fire chat focado na gigante americana.«Temos mais de um milhão de trabalhadores em todo o mundo e o mais importante é dizermos que se pode falhar e voltar atrás numa decisão», explica. Tudo isto torna mais fácil o processo de decidir e o mesmo se aplica à IA e à capacidade de arriscar, ser ambicioso. «Inovação e falhanço andam lado a lado», frisou.Christoph Steck, Diretor de Políticas Públicas da Amazon Espanha e Portugal, e Daniel Gelsing, Professor Assistente de Estratégia, Liderança e Tomada de Decisões na Porto Business School.O evento foi encerrado pelo Vice-presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Carlos Mouta e pelos vice-reitores da Porto Business School, Patrícia Teixeira Lopes e Luís Garrido Marques. A mensagem que prevaleceu foi de que a IA está a potenciar o futuro, mas cabe-nos a nós construí-lo, com os humanos sempre no centro.O conteúdo «A China está a construir uma economia de IA»: Shirley Ze Yu analisa a ascensão oriental aparece primeiro em Revista Líder.