Este desfasamento não é trivial. Revela que, mesmo quando Portugal parece caminhar em terreno firme, dentro das próprias empresas paira uma hesitação persistente, quase como se os líderes e os CEO sentissem que o futuro exige mais do que estão preparados para dar.O cenário português, numa análise mais ampla, é um microcosmo do que acontece no resto do mundo, mas com nuances próprias. A confiança global caiu de 38% para 30%, enquanto em Portugal a redução foi mínima, de 38% para 37%. Esta diferença poderia ser motivo de orgulho, mas também esconde um risco silencioso: a estabilidade relativa do país pode criar uma ilusão de segurança, fazendo com que os gestores relaxem antes do tempo. A confiança existe, mas não é linear nem homogénea; é cautelosa, seletiva, aplicada ao país mas não ao próprio negócio.Este descompasso entre confiança macro e microeconómica mostra-se no dia a dia das empresas portuguesas. É visível na maneira como os líderes dedicam o seu tempo. Mais de metade do seu dia — 58% — é consumida por decisões de curto prazo. Operações, crises imprevistas, reuniões urgentes: o presente consome o futuro. Apenas 10% do tempo é reservado para estratégias de longo prazo, e esse é o espaço onde a inovação verdadeira deveria nascer. O resultado é evidente: a visão existe, mas não se transforma rapidamente em ação.No meio deste quadro, percebe-se um padrão que atravessa todas as indústrias: a necessidade de equilíbrio entre gestão imediata e planeamento estratégico é cada vez mais difícil de alcançar. Os CEO estão constantemente a reagir em vez de liderar, e a pressão do dia a dia sobrepõe-se à capacidade de investir com ousadia no futuro. É um dilema que se repete em reuniões, apresentações e decisões financeiras: Portugal cresce, mas muitas empresas não conseguem acompanhá-lo.É esta tensão que define o retrato traçado pelo mais recente estudo PwC, o 29.º Global CEO Survey.Tempo e prioridade: o futuro à esperaPara compreender Portugal neste momento, é crucial aceitar que a estabilidade económica, embora positiva, não garante agilidade empresarial. Os CEO portugueses não estão parados, mas estão a lutar para equilibrar urgência e visão, sobrevivência e crescimento. O tempo do futuro está à espera, mas nem todos conseguem olhá-lo sem receio.Nos últimos anos, a tecnologia passou a ser teste de sobrevivência. Quase metade dos CEO portugueses — 48% — teme não conseguir acompanhar o ritmo da transformação tecnológica, enquanto 38% questionam se o seu modelo de negócio ainda será viável a médio prazo, e 34% duvidam da sua própria capacidade de inovar. Estes números são reflexos da ansiedade que paira sobre salas de reuniões e mesas de decisão.A inteligência artificial, hoje omnipresente, é emblemática desta tensão. Embora exista investimento considerável, os resultados ainda são incipientes: 67% das empresas não registaram impacto nas receitas, e 19% enfrentam aumento de custos associados. Isto cria um paradoxo cruel: todos falam de inovação, mas poucos conseguem transformá-la em resultados concretos. O desafio não é a tecnologia em si, mas a capacidade de integrá-la de forma estratégica, aproveitando oportunidades sem se perder em custos e experimentação sem retorno.Ao mesmo tempo, a reinvenção das empresas portuguesas avança com cautela. Apenas 16% colocam a inovação como prioridade central e 69% obtêm menos de 20% das receitas em novos setores de negócio. A diversificação existe, mas é tímida, quase defensiva. Os líderes sabem que precisam de mudar, mas o medo do risco limita a ousadia. É uma transformação gradual, incremental, em vez de disruptiva.Neste contexto, a tecnologia é uma faca de dois gumes: pode ser a alavanca que catapulta uma empresa para o futuro, mas também é a ameaça que revela vulnerabilidades. E a hesitação dos CEO portugueses, apesar da confiança no país, traduz-se em lentidão na execução da mudança. Riscos e desafios: a nova geografia da incertezaO mapa do risco empresarial mudou radicalmente. A principal preocupação dos CEO em Portugal deixou de ser apenas económica: a cibersegurança é agora a maior ameaça percebida. Invisível, constante, imprevisível, o risco digital domina agendas que antes eram quase exclusivamente financeiras.Outras pressões conhecidas amplificam-se. A escassez de talento qualificado limita crescimento e inovação, os concorrentes mais ágeis desafiam modelos estabelecidos e a instabilidade global introduz variáveis fora do controlo interno. O ambiente não é de colapso, mas de tensão permanente, exigindo vigilância, capacidade de adaptação e decisões rápidas.Curiosamente, Portugal apresenta uma estabilidade relativa que se destaca no contexto global. Enquanto no mundo a confiança dos CEO caiu de 38% para 30%, em Portugal manteve-se praticamente inalterada (37%). Um conforto evidente, mas que pode induzir uma sensação enganadora de segurança. A estabilidade é uma vantagem, mas também reduz a pressão para transformar.Neste cenário, os líderes portugueses enfrentam o próprio ritmo interno: hesitação, prioridade ao curto prazo e dificuldade de execução. O risco real não é a crise, mas a incapacidade de acompanhar a aceleração do mundo.Crescer já não basta: a execução é o verdadeiro desafioO retrato final é exigente. Portugal tem líderes conscientes, economia relativamente estável e acesso a tecnologias transformadoras. Mas falta velocidade e capacidade de execução. Crescer não é suficiente; é preciso reinventar, e reinvenção exige coragem, foco e ação coordenada.Não significa que os CEO portugueses estejam parados. Estão ocupados. Mas demasiado ocupados para liderar verdadeiramente. A hesitação e o medo de arriscar podem tornar-se a maior ameaça, não o mercado nem a crise global. Num mundo que não espera, a diferença entre sucesso e atraso já não se mede em pontos percentuais, mas em capacidade de transformar visão em resultado.E é aqui que se joga o futuro. Portugal cresce. Mas se as empresas não acompanharem, podem chegar atrasadas a um futuro que não espera. O conteúdo O futuro está a fugir e os CEO portugueses estão a olhar para o passado aparece primeiro em Revista Líder.