A “financeirização de tudo” rompe a nova fronteira da economia do conteúdo

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Desde fevereiro, autores de newsletters têm a possibilidade de incorporar dados de previsão em suas postagens, graças a uma parceria entre Substack e Polymarket. Ao confirmar a colaboração, a empresa que encabeça o movimentos dos mercados preditivos nos EUA foi taxativa:“O jornalismo é melhor quando apoiado por mercados em tempo real.”A colaboração gerou controvérsias sobre a parceria no momento em que a plataforma de newsletters pivota para um ecossistema de publicação completo que inclui texto, áudio, vídeo, streaming e comunidade.Inscreva-se gratuitamente na InfoMoney Premium, a newsletter que cabe no seu tempo e faz diferença no seu diaNos últimos meses, a Polymarket incorporou Yahoo Finance, DAZN, MLS e TKO (UFC/Boxing) ao seu portfólio de colaborações, sinalizando como a ascensão dos mercados de previsão acompanha um avanço direto sobre grupos de mídia e propriedades esportivas.Seguindo a mesma linha de sua concorrente, a Kalshi fechou acordos recentes com a CNN, CNBC e a NHL, liga de hóquei americana, que também tem um acordo com a Polymarket.Na semana passada, a XP International, empresa do grupo XP Inc., anunciou uma parceria com a Kalshi, cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara, para trazer essa nova categoria de ativos ao Brasil.Esses mercados de previsão descentralizados, baseados em criptomoedas nos EUA, se posicionam como uma forma de negociação financeira, por meio da qual compra-se e vende-se posições fundamentadas em eventos futuros, funcionando como mercados de derivativos. Eles são regulamentados pela Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC).Ou, nas palavras do blog Alphaville do Financial Times: são bolsas offshore para negociação de derivativos da “mercadoria da verdade”.Há exatamente um ano, expliquei a tentativa da Robinhood de integrar contratos relacionados ao March Madness, o aclamado torneio universitário nos EUA, em seu aplicativo de negociação, criando uma espécie de centro de previsão de mercado.Apoiei-me na nomenclatura dada por Rex Woodbury, que inspira o título deste artigo e funciona como uma continuação do tema 12 meses depois, para a ascensão de um novo unicórnio cunhado em torno da “financeirização de tudo”.Foi também nesta mesma época que Nick Denton, fundador da Gawker Media, esteve no People vs Algorithms. O tema do podcast transmitido em 5 de abril sugeria: “The Ultimate Media Business Model”Junto aos apresentadores Troy Young e Brian Morrissey, Denton debateu como os mercados de previsão seriam a próxima geração de variantes, mesmo que “ainda não fossem chamados de ‘mídia’”.“Não há diferença real entre mídia e investimento. Se você entende como as histórias movem as pessoas, você entende como elas movem os mercados”, afirmou.A certeza de que esse conceito “vai mudar”, segundo eles, é baseada na premissa de que resultados de apostas fundidos com conteúdo representam a manifestação final de um espaço de informação totalmente interativo.“É como o mundo se parece quando as crianças desmamadas no YouTube, Discord, Fortnite, cripto e DraftKings abraçam o mundo da mídia como seu console de jogos imersivo. Faça o meme. Negocie o meme.”O prenúncio de 12 meses atrás confirma a ascensão de um híbrido entre mídia e capital, em um contexto de fragmentação do setor, tornando-se mais especializado e mais nichado, como destacaram Young e Morrissey.Os analistas, por sua vez, indicam que a nichação não é uma pulverização do sistema, mas uma “hiperpersonalização”.  E nesse cenário, o conteúdo se torna um custo e o valor real migra para complementos: fandoms, comunidades, produtos, experiências e, agora, mercados preditivos.“A nova fronteira na economia do conteúdo”A teoria de como o conteúdo se transformou essencialmente em um topo de funil para produtos complementares foi apresentada por Doug Shapiro no ano passado, sendo bem contextualizada pela analista Jen Topping em sua dissertação recente sobre como apostas e mercados de previsão representam a nova fronteira na economia do conteúdo.Para Topping, é uma convergência de mídia que não respeita mais fronteiras.Em setembro, escrevi sobre a tese de Shapiro, mostrando que, no modelo tradicional, o conteúdo é o produto final, e a receita vem do aluguel da atenção do público por meio da publicidade.No novo paradigma, o conteúdo se transforma em um custo. O lucro sustentável, portanto, migra para a propriedade dos complementos.A conclusão de Shapiro é que a queda nos custos transfere o valor para os complementos e, ao mesmo tempo, torna a criação de conteúdo inerentemente não lucrativa. Seja chamado de “carro-chefe de perdas”, CAC, topo de funil ou simplesmente “marketing”, a unidade de conteúdo se torna um centro de custo.Topping relembra que a Banijay, que teve sua fusão com a All3Media analisada por mim na semana passada, havia investido em uma empresa de jogos e apostas online.Em outubro do ano passado, o Grupo Banijay anunciou que estava combinando sua participação na Betclic, uma importante empresa de apostas europeia, com uma participação majoritária na Tipico, a principal provedora de jogos de azar na Alemanha.O artigo de Wim Ponnet, compartilhado por Topping, explica as motivações por trás da aquisição: alcançar escala no setor estagnado de produção televisiva.A situação econômica “transformadora” citada por Ponnet previa que a atividade de jogos e apostas no negócio representaria mais de 60% do EBITDA, enquanto a TV teria um papel minoritário nesse novo cenário pós-transação.O caso não só ratifica a tese de Shapiro como também indica o que Young e Morrissey vislumbraram há um ano: a alavancagem real está nas narrativas que impulsionam os mercados, não necessariamente em um negócio puro de mídia.O que os mercados de previsão mudam no esporteEm fevereiro, durante as celebrações do All Star Game em Los Angeles, o NBA All-Star Technology Summit reuniu fundadores da Kalshi e da Polymarket, juntamente com líderes seniores da FanDuel, DraftKings, MGM Resorts e Sportradar.O encontro explorou o crescimento dos mercados de previsão, suas implicações para o engajamento dos fãs, considerações de integridade, dinâmicas regulatórias e o papel mais amplo dos mercados probabilísticos nos ecossistemas de esportes e mídia.O analista Carlo De Marchis participou do evento e trouxe algumas conclusões em seu boletim:A especulação em torno de futuras colaborações envolvendo as principais ligas reflete uma busca mais ampla da indústria por novas fontes de receita em torno do esporte ao vivoOs mercados de previsão podem abrir canais adicionais para a participação dos fãs, estendendo o engajamento para previsões, narrativas ao longo da temporada e desdobramentos fora de campoExecutivos da mídia estão acompanhando de perto, pois esses mercados geram sinais sobre expectativas coletivas que podem moldar fluxos de trabalho editoriais e integrações de patrocínio.“Ver mercados de previsão posicionados ao lado de inteligência artificial e estratégia de investimento sugere que o esporte está examinando como a participação financeirizada pode evoluir dentro de seu ecossistema digital”, ponderou.A máxima de que os mercados de previsão estão sendo enquadrados como parte da economia digital em evolução no esporte, vinculados a dados, probabilidade e sentimento coletivo, também é defendida por Ed Abis, fundador da Dizplai, uma startup focada em soluções para engajamento de fãs.Convidado por Paola Marinone e Bengü Atamer para debater os acordos da Polymarket com DAZN e MLS, Abis ampliou a discussão sobre como os direitos esportivos estão passando a ser sobre o “mercado subjacente.”O entendimento é de que um mercado de previsões vai além de uma “Aposta 2.0”, funcionando mais como um “Índice de Demanda” em tempo real, lastreado em dinheiro, para o seu produto.Abis cita a parceria DAZN e Polymarket como significativa porque torna explícita a conexão entre visualização e negociação.“Você assiste a uma luta, vê dados de probabilidade em tempo real na tela, e a linha entre ser um fã e ser um participante do mercado começa a se confundir”, defendeu.O executivo descreve isso como o conceito do “oráculo primário”. Nos mercados de previsão, o oráculo é a fonte definitiva que valida um contrato, normalmente representada por resultados oficiais ou feeds de dados verificados.No entanto, ele observa que está surgindo uma nova dinâmica: os dados de engajamento dos fãs estão se transformando em um “oráculo de sentimento”. Em vez de simplesmente validar o contrato, essas informações estão agora liderando o processo de descoberta do preço, influenciando diretamente o valor atribuído aos eventos.O elefante regulatório na salaEm artigo publicado no Valor Econômico no fim de janeiro, Udo Seckelmann, Pedro Heitor e Raphael Cvaigman, do departamento de Gambling & Crypto do escritório Bichara e Motta Advogados, debateram se os mercados de previsão são derivativos ou apostas.Para os especialistas, o caminho mais adequado seria o tratamento legislativo, com a construção de um regime próprio que considere as peculiaridades desses mercados, reconheça seus benefícios e os riscos que lhes são específicos, como integridade de mercado.Na sexta passada, o Sports Business Journal noticiou que o CFTC planeja novas regras rígidas para mercados de previsão nos Estados Unidos. A agência reguladora de negociações está abrindo um período de 45 dias para comentários públicos para elaborar regras que impeçam a manipulação nessas plataformas.Questões regulatórias à parte, o podcast Unofficial Partner observa, por exemplo, que a DAZN fez bem em entrar rapidamente no mercado, porém alerta que o dinheiro proveniente do patrocínio nos mercados de previsões pode não ser sustentável a longo prazo.A advertência sobre a entrada dessas marcas no universo dos esportes e mídia, com foco em ganhos de curto prazo, é entendida como um “pipeline de incautos”.De acordo com o UP, o que frequentemente é negligenciado na euforia em torno do mercado de previsões é que ele pertence à indústria do entretenimento, não ao setor financeiro.Para atrair novos clientes, o jogo precisa parecer atraente. Vencer é estimulante, mas perder para um algoritmo de hedge de mercado neutro, como o Sequoia, que busca falhas de precificação e elimina ineficiências, não é nada divertido, lembra o UP. E se derrotado para traders insiders, que exploram mercados baseados em informações privilegiadas, também não é uma experiência agradável.“Ninguém se oferece para ser isca de tubarão.”The post A “financeirização de tudo” rompe a nova fronteira da economia do conteúdo appeared first on InfoMoney.