Trump falha em criar consenso sobre Irã para aliados e população, diz Ipsos

Wait 5 sec.

Donald Trump errou na comunicação sobre a Guerra contra o Irã tanto internamente, quanto externamente, aponta o presidente da IPSOS nos EUA, Clifford Young ao WW.O resultado disso é uma perda de credibilidade do governo Trump frente à população americana, que não compreende os motivos pelo início do conflito no Oriente Médio.“Você faz as pesquisas e as pessoas não entendem. Os americanos não entendem direito a razão dessa intervenção”, disse Young.Desde o início dos ataques contra o Irã, Trump apresentou diversas razões que buscavam justificar a medida. A princípio, falou para os iranianos se rebelarem novamente contra o próprio governo, como uma mudança de regime. Depois, disse que negociaria com as lideranças restantes – só para, dias depois, afirmar que só aceitaria uma “rendição total” dos líderes. “Trump, em minha opinião, é um político extremamente talentoso de comunicação política. Mas, no caso do Irã, daria nota zero para ele. Porque ele não justificou (o conflito), não criou consenso internamente”, disse o presidente da Ipsos nos EUA. Leia Mais Irã tem líderes que podem conduzi-lo na "direção certa", diz Israel na ONU Trump sobre Irã: "Lunáticos não podem ter armas nucleares" Análise: Contradições de Trump se acumulam em guerra sem rumo Além das falhas na comunicação, os americanos demonstram – por si só – um cansaço com as intervenções da Casa Branca “no estrangeiro”. Elas, geralmente, se demonstram custosas tanto do lado financeiro, quanto humano, com mortes de soldados e outros envolvidos.As chamadas Forever Wars (Guerras Intermináveis) se tornaram um trauma nacional depois do Vietnã e do Iraque.Trump, durante sua campanha eleitoral, prometeu que não iria recomeçar essas investidas, concentrando-se na economia, e garantiu um impulso eleitoral com isso. Mas, desde que assumiu, atacou a Venezuela e ameaçou uma intervenção na Groenlândia. Todas essas medidas encontram pouco apoio do público, de acordo com pesquisa da Reuters/Ipsos, conduzida ao longo de diferentes datas.O sentimento que Clifford Young descreve é que Irã, Venezuela – e até mesmo o narcotráfico – ficam muito distantes da “cabeça do americano”. O foco seria um só: “custo de vida”.“A população americana não fica a favor de intervenções militares nesse momento, porque o custo de vida é muito mais importante para eles. Eles estão olhando para questões domésticas, sobre habilidade de botar comida na mesa, para pagar as contas”, detalha o especialista.A Ipsos, em um dos seus relatórios recentes, aponta que o tema é o “maior problema de Trump e o principal motivo para a queda de popularidade dele”. E pede atenção especial para o preço da gasolina, que tem oscilação passageira, “mas grande impacto”.Desde o início da Guerra contra o Irã, a bomba de gasolina só viu os preços aumentarem. O combustível atingiu o maior valor desde 7 de outubro de 2023 nos Estados Unidos.Com isso, Trump tenta encontrar maneiras de se desvencilhar desse cenário. O professor de Economia da FAAP e de Relações Internacionais da FGV, Vinícius Rodrigues Vieira, aponta que o republicano mudou de estratégia no discurso sobre o conflito.O republicano, de acordo com o professor, busca maneiras de “compartilhar” os custos da Guerra. Como se a decisão de atacar o Irã representasse uma defesa do Ocidente, com “um propósito muito mais amplo” do que apenas o interesse pessoal dele. Mas isso não é tão simples.“Como ele não preparou a estratégia de comunicação, agora ele parece querer arranjar uma desculpa perfeita aos americanos para ter iniciado o conflito – de que não seria uma causa somente dos EUA, que não seria aquilo que justamente ele prometeu não mais fazer, diferentemente de outros presidentes. Mas faltou combinar com os europeus”, afirmou Vieira, também ao WW.Vieira cita os europeus, que foram “escanteados” no começo dos ataques. Os Estados Unidos não avisaram ou consultaram nem a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), nem outros países da Europa, sobre os bombardeios à Teerã.No entanto, com o bloqueio do Estreito de Ormuz por parte do regime dos Aiatolás, Trump cobrou mais auxílio da aliança militar e de nações como França, Alemanha e Reino Unido. Passam por Ormuz cerca de 20% do petróleo consumido no mundo.O americano recebeu um não da maioria dos líderes como resposta. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que “jamais” participaria de uma operação para desbloquear o Estreito. Os alemães repetiram o discurso, dizendo que não é uma guerra da Otan – e, por isso, eles não devem se envolver.A escolha de não formar um consenso com aliados, para Clifford Young, foi um erro de Trump. “Quando a gente pensa no Bush pai e no Bush filho, pelo menos eles tentaram criar consensos com aliados a respeito do Iraque – o que não foi feito no caso do Irã”, descreve.Trump, independente do local, parece ter dificuldades para angariar apoio à Guerra que iniciou.“E fica muito óbvio, tanto nas pesquisas na Europa – onde os EUA têm uma credibilidade baixíssima -, quanto com os americanos que você só tem ⅓ a 40% da população que apoiam”, aponta Young.“Em minha opinião, a agenda doméstica do Trump está morta ou está morrendo. Então, não podemos deixar de entender essa intervenção internacional como algum tipo de reação a problemas que ele está enfrentando com a agenda doméstica”, conclui.