O diabo-da-tasmânia é um dos animais mais icônicos da Austrália e também um dos que mais vezes esteve perto do desaparecimento definitivo. Além disso, sua história é uma das narrativas de conservação mais dramáticas e emocionantes do mundo moderno, misturando caça colonial, doença cancerosa transmissível e um esforço científico monumental para salvar a espécie. Portanto, entender o que quase extinguiu esse marsupial e o que está sendo feito para recuperá-lo é compreender também como a ciência e a vontade coletiva podem reverter os danos que o ser humano causou à biodiversidade.O que é o diabo-da-tasmânia e por que ele é tão especial?Segundo a Wikipédia, o diabo-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii) é o maior marsupial carnívoro vivo do planeta, endêmico da ilha da Tasmânia, ao sul da Austrália. Além disso, registros fósseis confirmam que a espécie habitou o continente australiano até cerca de três mil anos atrás, quando desapareceu provavelmente pela combinação entre a chegada dos dingos, a expansão dos aborígenes e mudanças climáticas severas provocadas por um El Niño prolongado.Portanto, quando os colonizadores europeus chegaram à Tasmânia, o diabo já sobrevivia apenas nessa ilha isolada. Contudo, mesmo ali não estaria a salvo: durante séculos foi caçado e envenenado porque os fazendeiros o consideravam uma ameaça ao gado e às aves domésticas, reduzindo a população a níveis críticos em ao menos três momentos diferentes nos últimos 150 anos.“O retorno dos diabos-da-Tasmânia não é apenas uma vitória para a conservação da espécie, mas representa uma etapa crucial na restauração dos ecossistemas australianos, promovendo a biodiversidade e equilibrando o ambiente.”— Aussie Ark, organização de conservação ambiental australianaQuais foram as principais ameaças que levaram o diabo-da-tasmânia à beira da extinção?Caça e envenenamento colonial: colonizadores europeus consideravam o animal uma praga e o perseguiram intensivamente por décadas, reduzindo a população a mínimos históricos antes da proteção oficial em 1941.Doença facial transmissível (DFTD): identificada em 1999, essa forma rara de câncer contagioso é transmitida por mordidas durante brigas e acasalamento, provocando tumores no focinho que impedem o animal de se alimentar, levando-o inevitavelmente à morte.Colapso populacional pela doença: a DFTD reduziu uma população estimada em cerca de 140 mil animais para aproximadamente 20 a 25 mil indivíduos, representando uma queda devastadora de mais de 80% em poucas décadas.Atropelamentos em rodovias: os diabos usam estradas para deslocamentos longos e são atraídos por carcaças de animais atropelados. Estudos apontam que mais de 3.000 animais são mortos no trânsito a cada ano.Competição com espécies invasoras: raposas e gatos selvagens introduzidos na Austrália competem por recursos e ameaçam o equilíbrio ecológico que o diabo ajudaria a manter como predador de topo.Perda de habitat: o desmatamento e o desenvolvimento urbano reduziram as áreas naturais disponíveis, fragmentando populações já enfraquecidas pela doença e pela caça histórica.Diabo-da-tasmânia já esteve perto da extinção e agora começa a recuperar sua população – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)Como os programas de conservação estão recuperando a espécie na Austrália?A resposta organizada começou em 2005, quando o governo australiano iniciou um programa de manutenção de populações saudáveis em cativeiro, coletando 25 jovens de áreas livres da doença. Além disso, a iniciativa Save the Tasmanian Devil, coordenada pelo governo da Tasmânia, passou a enviar animais para zoológicos em todo o mundo a partir de 2013 como uma rede de segurança genética global contra a extinção.Portanto, em janeiro de 2010 o número de animais cativos já havia chegado a 277 indivíduos distribuídos entre zoológicos e reservas. Contudo, o marco mais significativo veio em 2020, quando a organização Aussie Ark libertou os primeiros 26 diabos em Barrington Tops, no continente australiano, encerrando um intervalo de 3.000 anos sem a presença da espécie naquele território.Marco históricoAnoImpactoProteção legal da espécie1941Fim da caça e início da recuperação populacionalIdentificação da DFTD1999Redução de 140 mil para cerca de 20 mil animaisPrograma de cativeiro (Save the Devil)2005277 animais saudáveis em zoológicos globaisReintrodução no continente202026 animais em Barrington Tops após 3.000 anosO diabo-da-tasmânia realmente ajuda a proteger outras espécies nativas?Sim, e esse é um dos argumentos mais poderosos a favor da sua reintrodução. Como maior predador marsupial existente, o diabo-da-tasmânia exerce controle natural sobre gatos selvagens e raposas, espécies invasoras responsáveis pela grande maioria das 40 extinções de mamíferos registradas na Austrália continental. Além disso, como necrófago eficiente, o animal remove carcaças do ambiente, reduzindo a propagação de doenças entre outras espécies da fauna local.Portanto, a reintrodução do diabo não é apenas uma ação simbólica de conservação, mas uma intervenção ecológica funcional com impacto mensurável na biodiversidade australiana. Contudo, alguns ecologistas alertam que é necessário monitorar de perto como os gatos selvagens e raposas responderão à presença de um novo predador de topo no ecossistema continental.O futuro do diabo-da-tasmânia depende das escolhas que fazemos hoje?A história do diabo-da-tasmânia é ao mesmo tempo um alerta e uma prova de que a reversão do declínio de espécies é possível quando há vontade científica, política e social. Além disso, o esforço de conservação que dura mais de 16 anos e que culminou no retorno histórico do animal ao continente australiano demonstra que projetos de longo prazo, sustentados por múltiplas organizações e governos, conseguem resultados que parecem impossíveis no início.Portanto, cada filhote que nasce nas áreas de reintrodução representa não apenas a sobrevivência de uma espécie, mas a prova de que ecossistemas podem ser restaurados com paciência, ciência e compromisso. Contudo, sem continuidade dos programas de monitoramento, sem controle da doença e sem proteção dos habitats remanescentes, tudo o que foi conquistado pode ser perdido novamente em uma única geração.Leia mais:Esse animal parece um crustáceo simples, mas é uma nova espécie invasoraDescoberta em caverna espanhola revela nova espécie animal de 100 milhões de anosO post Esse animal icônico já esteve à beira da extinção e agora ganha nova chance apareceu primeiro em Olhar Digital.