Guerra do Irã entra na 3ª semana sem clareza sobre plano de Trump

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À medida que a guerra entre EUA e Israel contra o Irã entra na terceira semana, cresce a pressão sobre a pessoa em melhor posição para encerrá-la: Donald Trump.Mas as explicações do presidente americano, que mudam com frequência, sobre os motivos que o levaram à guerra deixam aliados e adversários sem condições de prever quando ele estará pronto para parar. E, mesmo que isso aconteça, o Irã tem demonstrado pouca disposição para acompanhar o movimento. Trump passou de dizer que a guerra terminaria em breve a pedir ajuda a aliados europeus e do Golfo. Eles relutam, enquanto países como a Rússia se beneficiam da situação.O cenário ficou evidente em uma recente ligação com líderes do G7, na qual Trump foi pressionado repetidamente por colegas europeus sobre qual é seu objetivo final, segundo pessoas familiarizadas com a conversa. Ele disse que não podia discutir os objetivos da guerra naquela ligação, mas afirmou aos líderes que tinha vários em mente e queria que o conflito terminasse em breve.As últimas 48 horas só aprofundaram a confusão entre aliados antes considerados firmes.Leia tambémTrump: não chegou hora de acordo com Irã, e EUA podem bombardear “só por diversão”Irã disse que está disposto a negociar “um fim completo” da guerra, mas presidente dos EUA afirma que os termos ainda não são “suficientemente bons”Irã promete ataque que tem Netanyahu como alvo; escalada de tensão aumentaDeclaração do Irã foi dada nesta madrugada de domingo (15) pela agência de notícias iraniana IRNAConversas com vários autoridades, depois que Trump disse à Fox News que a guerra acabaria quando ele “sentisse isso nos ossos”, desenham um quadro de perplexidade e choque. Ninguém parece disposto a atender ao apelo dele para mobilizar recursos escassos e ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz, praticamente fechado, por onde passa um quinto do petróleo mundial e uma grande parcela do gás natural liquefeito. Enquanto isso, canais paralelos com o Irã se multiplicam, à medida que países de Índia a Turquia tentam garantir sua própria passagem segura para navios em Ormuz.Até o Japão, que raramente quer parecer desalinhado com os EUA, disse por meio de um alto funcionário que os esforços para escoltar navios enfrentam “altos obstáculos”. Isso equivale a um “não” educado, ecoando entre países que os EUA não consultaram sobre a guerra lançada em 28 de fevereiro e que agora tende a durar várias semanas.O governo Trump planeja anunciar já nesta semana que vários países concordaram em formar uma coalizão para escoltar navios pelo corredor, segundo reportagem do Wall Street Journal, que acrescenta ser incerto se as operações começariam durante ou depois dos combates.Autoridades israelenses trabalham no local de um incêndio causado por fragmentos de um projétil iraniano em Tel Aviv, em 15 de março. (Foto: Bloomberg)As forças de Teerã disparam diariamente mísseis e drones contra alvos no Oriente Médio, apesar dos pesados ataques de EUA e Israel e das declarações de vitória de Trump. O controle iraniano sobre o transporte no estreito levou o petróleo para cima de US$ 100 por barril, abalando economias em todo o mundo e ameaçando as perspectivas políticas de Trump em casa. Até um dos próprios conselheiros do presidente veio a público na sexta-feira para pedir que ele declarasse vitória e encerrasse os combates.A escalada mais recente das operações militares dos EUA pode representar o pico da atuação americana, um avanço intenso desenhado para degradar as capacidades remanescentes do Irã, segundo autoridades europeias, que falaram sob condição de anonimato para discutir as posições de seus governos.Embora considerem exageradas as afirmações de Trump de que os ataques destruíram a capacidade militar do Irã, essas autoridades europeias veem essa retórica como um possível preparo para que Washington declare a operação concluída.“Há fortes incentivos, de todos os lados, para encerrar rapidamente a fase militar da missão”, disse Victoria Coates, ex-vice-assessora de segurança nacional de Trump e hoje ligada à Heritage Foundation. É Trump quem tem a “alavancagem dominante para definir os termos de qualquer negociação”, acrescentou.Uma alta autoridade do Golfo Árabe advertiu que, no fim das contas, será apenas a alta sustentada do petróleo que forçará Trump a parar de lutar e declarar vitória, deixando os aliados regionais para lidar com a ameaça remanescente de um Irã ferido e enfurecido.Por enquanto, Trump promete continuar a campanha, dizendo que não está pronto para um acordo, embora o Irã estaria. Autoridades em Teerã seguem convencidas de que podem resistir por mais tempo do que o líder americano, embora os danos estejam crescendo.Trump mudou bruscamente de rumo no fim de semana ao pedir que outros países se juntassem ao esforço para reabrir o estreito, uma possibilidade vista nessas capitais como algo que vai de questionável a fantasioso. De seu campo de golfe na Flórida, Trump publicou uma sequência de mensagens contraditórias nas redes sociais, pedindo apoio em uma guerra que repetidamente disse já ter vencido e pedindo ajuda em um estreito que seu governo insiste em dizer que permanece aberto. No sábado, afirmou que o Irã queria um acordo, o que Teerã rejeitou.Mas a tentativa de Trump de afastar as preocupações com declarações de vitória militar rápida e recuperação econômica já está desgastada, com pelo menos 13 americanos mortos até agora e o presidente correndo para tentar conter a alta do petróleo, que ameaça ainda mais as chances dos republicanos em um ano de eleições de meio de mandato. Até o momento, os esforços do governo para reduzir o impacto no mercado de petróleo não levaram a uma queda duradoura dos preços.No fim de semana, a Casa Branca reiterou que a campanha foi planejada para durar de quatro a seis semanas, mas está adiantada em relação ao cronograma. “Esperamos que a economia global receba um grande choque positivo assim que isso acabar”, disse Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional, à CBS.Uma mulher vasculha os escombros de sua casa após os ataques no distrito de Beryanak, em Teerã, em 15 de março. (Foto: Bloomberg)A própria coalizão política de Trump começa a mostrar sinais de desgaste. David Sacks, encarregado de inteligência artificial no governo, disse em um podcast publicado na sexta-feira que concorda que “devemos tentar encontrar uma saída”, argumentando que o Exército iraniano já foi degradado. “Este é um bom momento para declarar vitória e sair, e isso é claramente o que os mercados gostariam de ver”, disse, alertando que o conflito pode escalar ainda mais.E o vice-presidente JD Vance, cético declarado em relação a intervenções externas, não abraçou totalmente a empreitada nem a criticou publicamente.Ainda assim, o senador Lindsey Graham, aliado firme e porta-voz informal de Trump, elogiou a decisão do presidente de bombardear partes da ilha de Kharg, encerrando uma publicação nas redes sociais com o lema do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, um sinal para a possibilidade de envio de tropas terrestres em breve. Os EUA estão enviando uma Força Expedicionária de Fuzileiros para a região, disseram autoridades na sexta-feira.Os EUA atingiram alvos militares na ilha, mas deixaram intactas as instalações de petróleo, por onde passa a maior parte das exportações iranianas.Leia tambémIsrael nega escassez em interceptores de mísseis após mais de 300 disparos do IrãO ministro das Relações Exteriores ⁠de Israel, Gideon Saar negou informação de fraqueza em sistema de defesaA Agência Internacional de Energia advertiu que a guerra pode já representar a maior interrupção de oferta da história do mercado global de petróleo. Os preços da gasolina nos EUA já subiram fortemente, cerca de 65 centavos por galão desde o início da guerra. O apoio público à guerra também parece limitado, com pesquisas recentes mostrando os americanos divididos ou inclinados a se opor ao conflito.“Ele esperava que esta fosse uma guerra muito rápida”, disse Vali Nasr, especialista em Irã e ex-integrante do governo Obama, hoje professor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Johns Hopkins, em entrevista à Bloomberg. “Agora essa guerra saiu do controle dele. Ela está mais longa, mais confusa e cobrando um preço.”Algumas autoridades do Golfo dizem ter pouca visibilidade sobre os planos de Washington e expressam, reservadamente, frustração porque a guerra foi lançada sem consulta significativa. Elas afirmam que o conflito mostrou quão pouca influência os governos do Golfo têm hoje sobre as decisões que impulsionam a guerra, apesar de seus esforços para se aproximar do governo Trump com promessas de investimento.“Os Estados do Golfo querem normalidade: paz e calma para voltar a focar em seus planos nacionais de transformação”, disse Bader Al-Saif, professor assistente da Universidade do Kuwait e pesquisador associado da Chatham House. “Isso exige uma grande redefinição dos arranjos de segurança com parceiros ocidentais e também exige diálogo com o Irã.”A guerra pode se mostrar difícil de encerrar por uma razão simples: Washington e Teerã medem vitória por padrões muito diferentes.Apesar do sucesso dos EUA ao atingir alvos militares iranianos, Teerã ainda tem meios de reagir. Mesmo com boa parte de seu poder convencional danificado, o Irã pode impor custos por meio de ataques de grupos aliados, assédio ao transporte marítimo e disrupção dos fluxos regionais de energia.O Irã não precisa derrotar os EUA militarmente para alegar sucesso: sobreviver à guerra pode bastar.“O cálculo deles é que isso depende de quem tem maior limiar de dor”, disse Nasr, especialista em Irã. “Eles acham que Estados Unidos e Israel podem disparar muito mais rápido, mas não são exatamente corredores de longa distância.”Autoridades iranianas também deixaram claro que não buscam um cessar-fogo rápido. Líderes do país enquadraram o conflito como um momento para restaurar a dissuasão contra os EUA e Israel e garantir que o Irã não possa ser atacado novamente.O líder supremo iraniano Mojtaba Khamenei disse na semana passada que o objetivo do país é manter uma “defesa eficaz que faça o inimigo se arrepender” de suas ações. “Vamos extrair reparações”, afirmou em comunicado escrito.“É bem possível que eles achem que cruzaram um Rubicão em termos da capacidade de inflar o preço mundial do petróleo com meios relativamente simples”, disse Simon Gass, ex-embaixador do Reino Unido no Irã.Ainda assim, países como Omã, Arábia Saudita e Turquia estão explorando canais para reduzir as tensões e estabilizar o transporte pelo Estreito de Ormuz, enquanto governos europeus tentam manter canais indiretos abertos com intermediários iranianos, disseram autoridades.Leia tambémIrã prende dezenas de pessoas acusadas de serem informantes de IsraelAutoridades culparam Israel e os EUA por fomentar o que eles disseram ser “tumultos violentos” com o objetivo de derrubar o establishment clericalIrã diz que Estreito de Ormuz Está aberto, menos para EUA e IsraelChanceler persa reforçou que embarcações de outros países estão livres para transitar pelo estreito por onde passa cerca de 20% da produção global de petróleoAté agora, os esforços seguem tímidos. Autoridades europeias dizem que o Irã concentrou suas primeiras mensagens em duas exigências: compensação pelos danos da guerra e garantias contra ataques futuros. Ambas provavelmente serão inaceitáveis para a Casa Branca.Ao mesmo tempo, o campo de batalha ainda pode se ampliar. Israel expandiu operações no Líbano, enquanto milícias iraquianas sinalizaram uma nova fase de ataques contra alvos americanos e estrangeiros, deixando qualquer abertura diplomática frágil.O fim dos combates também pode vir sem negociação, caso Trump decida que já atingiu seus objetivos, ou que já suportou dor suficiente.“O presidente destruiu a maior parte do poder militar e naval do Irã e atrasou por anos seu programa nuclear”, disse Elliott Abrams, que foi representante especial do governo Trump para o Irã. “Ele pode parar a qualquer momento e declarar vitória.”©️2026 Bloomberg L.P.The post Guerra do Irã entra na 3ª semana sem clareza sobre plano de Trump appeared first on InfoMoney.