Em uma semana decisiva para os bancos centrais dos Estados Unidos e Brasil, Thiago Ferreira, economista da Vanguard, afirma que estamos vivendo o maior pesadelo de qualquer banqueiro central: a redução do espaço para diminuir os juros. Enquanto o conflito no Irã durar, os preços do petróleo ficarão elevados. Com isso, há um choque maior e mais prolongado para a economia global, explica Ferreira. Diante disso, como o Fed, o Bacen e os Bancos Centrais do mundo vão reagir?Na análise de Ferreira, tudo é um trade-off. “E o choque do petróleo piora o trade-off dos BCs”, diz. No caso do Fed, por exemplo: a inflação estava persistente enquanto o mercado de trabalho dava sinais de esfriar muito rápido. Agora, a inflação pode ser maior enquanto o crescimento menor. Isso coloca o ‘juro neutro’, aquele que nem estimula e nem retrai a economia, em um patamar mais elevado. Com isso, os Bancos Centrais têm menos espaço para diminuir os juros – e numa janela menor para tentar manobrar a inflação.Leia tambémHá 65 conflitos ativos no mundo: como investir em meio ao ‘novo realismo’ geopolíticoEm meio a um “novo realismo” geopolítico, com mais conflitos, rivalidade EUA–China e choque de combustíveis, Thomas Mucha vê política internacional como variável central para preços de ativos e alocação de portfóliosGeopolítica e portfólios: como a crise no Oriente Médio redefine a alocação de ativos“Não faça microgerenciamento da carteira”, disse Paulo Leme, chairman do Comitê Global de Alocação do XP Private Bank, em painel na XP Global ConferenceO conflito no Oriente Médio, contudo, não é o único fator que está movimentando a política monetária pelo mundo. Em um cenário de transformações aceleradas, a Inteligência Artificial emerge não apenas como uma promessa tecnológica, mas como uma força motriz que já está remodelando a economia e os mercados globais. As afirmações foram feitas em painel durante o XP Global Conference, em Miami, nos Estados Unidos. Nova fase da IA Na etapa mais recente de desenvolvimento, a IA pavimenta um caminho para um cenário de alto crescimento e produtividade, embora acompanhado por juros mais elevados. Este novo ambiente se distancia do cenário pré-Covid, quando a IA impulsionava a demanda por crédito devido ao seu caráter intensivo em capital, especialmente em infraestrutura como data centers.“Há um choque de produtividade para quem tem um componente alto de automação, que diminui a demanda por emprego, o que, por sua vez, reduz o custo e faz com que as empresas reajustem menos o preço. Por outro lado, esse tipo de tecnologia é muito intensiva em capital, o que pode impactar a demanda por crédito”, afirma Ferreira.Estratégias de InvestimentoDiante deste cenário, Ferreira sugere uma reavaliação das estratégias de investimento nas diferentes classes de ativos. Com a expectativa de juros mais altos, a renda fixa torna-se mais atrativa, oferecendo retornos mais competitivos. Por outro lado, o mercado de ações dos EUA é considerado sobrevalorizado, com níveis comparáveis à bolha “pontocom”, impulsionado por expectativas de lucro excessivamente otimistas, o que, para Ferreira, cria um risco significativo de correção.“Value” ou “Momentum”De acordo com Ferreira, historicamente, em ciclos tecnológicos emergentes, estratégias de “Momentum” (ações de alto crescimento) se destacam. Contudo, à medida que a tecnologia se difunde pela economia, as ações de “Value” (empresas com fundamentos sólidos e preços mais baixos) tendem a performar melhor, indicando uma oportunidade de transição.Além disso, o mercado internacional é visto como mais atraente que o americano, com dividend yields favoráveis e oportunidades de diversificação. Já o dólar, por sua vez, parece estar em um preço justo, com riscos de alta e baixa dependendo da produtividade dos EUA e da diversificação global.A vez do 40-60? Diante do novo cenário, Ferreira propõe uma avaliação audaciosa: inverter o portfólio tradicional 60% ações e 40% títulos (60-40) para um 40% ações e 60% títulos (40-60).Dentro da parcela de ações, a sugestão é reduzir a exposição aos EUA, aumentar a alocação em mercados internacionais e priorizar ações de “Value” em detrimento das de “Growth”. Este portfólio, embora mais conservador, oferece um retorno similar ao 60-40 padrão, mas com risco significativamente menor, alinhando-se às novas realidades econômicas e de mercado impulsionadas pela IA.The post “Vivemos o maior pesadelo de qualquer banqueiro central”, diz economista da Vanguard appeared first on InfoMoney.