O cheiro de chocolate derretido que invade cozinhas por todo o país nesta época do ano carrega mais do que tradição: é sinal de renda, autonomia e transformação.Para um número crescente de mulheres, a Páscoa deixou de ser apenas uma data comemorativa e se tornou uma das principais portas de entrada para o empreendedorismo no Brasil.Impulsionada pelo consumo sazonal, este período movimenta milhões de reais e abre espaço para pequenos negócios, especialmente os informais e artesanais.Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, a Páscoa de 2026 deve gerar mais de R$ 335 milhões na economia local, com destaque para chocolates e produtos feitos à mão, segundo dados do Sebrae local.Já o Sebrae-SP realizou uma pesquisa, feita com a Fundação Seade, onde mostra que as vendas nessa época devem beneficiar 61 mil pequenos negócios no estado, sendo que muitos liderados por microempreendedores individuais. Leia Mais Ovos têm alta de até 26% em regiões produtoras durante a Quaresma Abras: Eventual greve dos caminhoneiros não deve afetar Páscoa Cacau avança mais de 3% em Nova York com queda do dólar Por trás desses números, há uma realidade silenciosa: boa parte dessa engrenagem é movida por mulheres. A Páscoa funciona para muitas como um laboratório de negócios.Com baixo investimento inicial e alta demanda concentrada em poucas semanas, ela permite que mulheres testem produtos, construam clientela e, em muitos casos, deem o primeiro passo rumo à formalização.São iniciativas de pequena escala, muitas vezes feitas em casa, com apoio familiar e forte uso de redes sociais para vendas. Esse modelo tem crescido especialmente entre mulheres, por sua flexibilidade e capacidade de gerar renda rápida.O avanço dos produtos caseiros é um dos principais motores dessa transformação. Se antes o mercado era dominado por grandes indústrias, hoje os ovos artesanais já representam uma fatia relevante das intenções de compra.O motivo é simples, afinal, além do preço competitivo, esses produtos oferecem personalização, qualidade percebida e proximidade com o consumidor. É nesse diferencial que muitas empreendedoras encontram margem para crescer.Consumo de cacau caiu e setor investe em diversificação, diz especialista | MONEY NEWSEsse é o caso de Célia Padilha, professora aposentada e apaixonada por cozinhar. Natural de Niterói (RJ), ela se diz dona de uma cozinha não profissional, mas totalmente autêntica.Empreendeu informalmente por 30 anos vendendo bolos, doces, salgados e comida caseira por encomenda, como renda complementar. Além de seu canal no YouTube de receitas e dicas, agora investe também em lembrancinhas temáticas artesanais, como neste período da Páscoa.“A clientela fiel já aguarda os lançamentos e, agora, mais do que uma renda extra, é uma forma de me manter ativa fazendo algo que sempre gostei muito”, diz a empreendedora.Ela ainda completa que, além de ser uma diversão diária, cada receita tem muitas histórias e lembranças maravilhosas da família e amigos, deixando esse legado para as netas.Datas comemorativas como a Páscoa também ajudam a fidelizar clientes e garantir fluxo de caixa. Para pequenos negócios, esse período pode representar uma das maiores fatias do faturamento anual, além de abrir portas para outras sazonalidades, como Dia das Mães e Natal.Célia Padilha, professora aposentada, se diz dona de uma cozinha não profissional, mas totalmente autêntica • Reprodução / Fundo de Impacto EstímuloAutonomia financeira e mudança de trajetóriaMais do que lucro imediato, a Páscoa tem um impacto estrutural na vida de muitas mulheres. Ao transformar habilidades domésticas em fonte de renda, ela contribui para autonomia financeira e reorganização das dinâmicas familiares.Redes de apoio como a Rede Mulher Empreendedora mostram que iniciativas desse tipo frequentemente evoluem para negócios consolidados, especialmente quando há acesso à capacitação, redes de contato e crédito orientado, como ofertado pelo Fundo de Impacto Estímulo.Em muitos casos, o que começa com a venda de ovos de colher para vizinhos e amigos se transforma em marcas próprias, lojas online e produção em escala. Esse é o caso de Jéssica Fernandes, da Cacao Love, no litoral paulista.Sua trajetória empreendedora surgiu a partir da curiosidade e da insistência em aprender, mesmo sem qualquer experiência inicial.O que começou como uma tentativa despretensiosa de fazer doces em casa rapidamente se transformou em um processo contínuo de aprendizado autodidata, testes e adaptações.Diante de incertezas financeiras e desafios ao longo do caminho, ela optou por investir no próprio negócio e seguiu mesmo quando os resultados eram instáveis e as dúvidas externas apareciam.Jéssica Fernandes, da Cacao Love, começou fazendo doces em casa • Reprodução / Fundo de Impacto EstímuloSua jornada foi marcada por recomeços, ajustes de rota e pela decisão constante de não desistir, transformando erros em aprendizado e persistência em estratégia.Na Páscoa, Jéssica encontra uma das principais oportunidades para potencializar sua renda. A data se torna um momento-chave para inovar na produção, criar versões temáticas de seus doces e explorar o apelo emocional do período.Com foco em apresentação, variedade e experiência do cliente, ela adapta o negócio para atender à demanda sazonal e amplia sua presença nas vendas, especialmente com produtos voltados para presentear.Essa capacidade de aproveitar datas estratégicas reforça seu perfil empreendedor, que alia esforço contínuo à leitura inteligente das oportunidades do mercado.No fim, vemos como diferentes perfis podem usar a sazonalidade para criar um negócio próprio.Seja a mãe solo que começa por necessidade produzindo ovos à noite após o trabalho formal e usa a renda para complementar o orçamento familiar, ou a ex-CLT que virou confeiteira sazonal, que, ao perder o emprego, começou na Páscoa e hoje fatura em todas as datas comemorativas.Também pode-se notar casos como os de jovens universitárias que empreendem nas redes sociais, usando o Instagram e WhatsApp para vender kits personalizados e, até mesmo, as empreendedoras periféricas que mobilizam outras mulheres quando montam uma pequena rede de produção para dar conta da demanda gerando renda coletiva.CNA prevê queda de 4,5% na produção de carne bovina em 2026