Nos últimos dias, o Tesouro Nacional realizou uma intervenção de R$ 43,6 bilhões por meio da recompra de títulos públicos. Hoje, pela manhã, o órgão seguiu atuando com a aquisição de mais R$ 5,41 bilhões em prefixados.A ação ocorre em uma semana marcada por decisões relevantes de política monetária – como a definição da taxa básica de juros pelo Federal Reserve e pelo Copom. A medida busca conter a alta dos juros futuros em meio ao agravamento de tensões globais e às incertezas no cenário doméstico. Wall Street cai após dados de preços ao produtor e antes de decisão do Fed China: ações de IA saltam em novo rali após falas do CEO da Nvidia Lucro líquido ajustado da Vitru sobe 22% no 4º trimestre Analistas ouvidos pela CNN Money destacam que esse tipo de intervenção não é inédita, mas costuma ocorrer em períodos de maior estresse nos mercados financeiros.Quando uma intervenção pelo Tesouro acontece e por quêEm outras intervenções já vistas, o Brasil enfrentava o que Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, chama que “quebra de normalidade no mercado”.Dentre elas, então as ações realizadas pelo Tesouro durante a pandemia de Covid-19, greve dos caminhoneiros de 2018 e manifestações de 2013 – todas feitas em momentos de desfiguração do cenário econômico.Em 2013 e 2018, Lima avalia que os episódios foram domésticos, com aumento da incerteza política e fiscal, o que elevou a percepção de risco e pressionou os juros. “Nesses cenários, a liquidez desaparece, os spreads [diferenças de custo entre taxas de câmbio] aumentam e os preços deixam de refletir fundamentos”, explica.O CEO da MA7 Negócios, André Matos, destrincha: “Na greve dos caminhoneiros, houve desorganização logística e risco inflacionário imediato. Em 2013, o problema foi instabilidade política com impacto na confiança. Já na Covid-19, o cenário foi extremo, com fuga global de capital e travamento de liquidez”.Assim, para ambos analistas, a atuação do Tesouro nesses dois casos agiu como estabilizador, garantindo liquidez e evitando que o custo da dívida pública dispare de forma desorganizada.“A função não é ‘controlar juros’, mas garantir que o mercado continue operando, evitando movimentos desordenados que podem contaminar toda a economia, como crédito mais caro, fuga de investidores e deterioração fiscal”, explica Matos.Paulo Fernando Machado, Gestor de Crédito e RF da Drýs Capital, tem uma experiência pessoal enquanto agente do mercado financeiro. “Em 2018, a liquidez das Letras Financeiras do Tesouro (LFTs) ficou tão baixa que se tornou bem difícil realizar a venda desse ativo no primeiro dia da greve dos caminhoneiros”, explica.Assim, Machado acrescenta que são em momentos como esse vivido por ele que, muitas vezes, os atores do mercado ficam sem referência de qual taxa de juros é adequada para cada vencimento – ou seja, quais serão os juros futuros definidos como recompensa para cada título.“É comum não termos muitos compradores de títulos, o que gera a falta de liquidez – nesses casos de disfuncionalidade do mercado de juros, o governo intervém provendo liquidez para os vendedores, eliminando a sensação de nunca conseguir vender um papel”, relata.Em 2026, a diferença é a magnitude da intervenção. De acordo com os especialistas, o volume de R$ 43 bilhões reflete um ambiente não só de incerteza doméstica, como de volatilidade global.Essa instabilidade pode ter como elemento central, a guerra no Oriente Médio entre Estados Unidos, Irã e Israel, que gerou alta substancial do petróleo e reacendeu preocupações inflacionárias, além de pressionar os juros internacionais.Já em solo brasileiro, os ruídos fiscais e incertezas aumentaram a percepção de risco, de acordo com Lima.Esse conjunto levou a uma abertura mais intensa da curva de juros no Brasil e, quando esse movimento se acelera, o crédito fica mais caro. Com empréstimos altos, há uma dificuldade maior de consumo para empresas e consumidores – desestabilizando a economia como um todo.“Nesse contexto, a intervenção busca evitar que esse movimento se transforme em um ciclo mais amplo de deterioração, onde juros altos encarecem o crédito, pressionam a dívida pública e afetam a atividade econômica”, completa Matos.De acordo com ele, ao estabilizar a curva, o Tesouro protege não só o mercado financeiro, mas também o custo de financiamento do próprio governo, das empresas e das famílias.Como é feita uma intervenção do Tesouro NacionalMatos discorre que uma intervenção pelo Tesouro acontece, geralmente, por meio de recompra ou venda direcionada de papéis, além de ajustes na oferta em leilões. “Na prática, ele atua para corrigir distorções de preço e liquidez”, explica.Os títulos comprados, em questão, são a referência de precificação da curva de juros. Assim, quando o Tesouro decide comprar R$ 50 bilhões em títulos, há uma redução na pressão de venda, o que eleva os preços dos títulos e, consequentemente, reduz as taxas implícitas (os tais juros futuros). “O inverso também é verdadeiro”, afirma.Dessa forma, Matos explica que essa não é uma ação operacional, mas sim uma sinalização ao mercado sobre controle de volatilidade e funcionamento da curva.Dia decisivo para SelicQuando falamos de juros, automaticamente pensamos em Selic. Nesta quarta-feira (18), o Copom realiza mais uma reunião para definir sobre corte, manutenção ou aumento da taxa básica de juros.Contudo, é importante pontuar que essa decisão nada tem a ver com a intervenção do Tesouro Nacional em conter juros futuros, já que “essa recompra influencia os prazos mais longos da curva e não os juros de curto prazo”, explica Machado.Apesar disso, os analistas apontam que essa ação pelo Tesouro e o momento em que foi tomada, podem sim ser considerados pontos relevantes.Lima explica que, normalmente, o Tesouro evita atuar nessa janela de tempo para não gerar ruído na formação de expectativas de juros, que influenciam diretamente a decisão do Banco Central.Ainda assim, o fato de a intervenção ter ocorrido mesmo assim indica um nível elevado de preocupação com a desorganização da curva. “A leitura é que o risco de não agir, permitindo uma alta descontrolada dos juros futuros, foi considerado maior do que o risco de interferência indireta no ambiente do Copom”, explica.Já de acordo com Matos, a ação tem dois objetivos: evitar que ruídos na curva de juros contaminem a decisão do Banco Central, e reforçar a coordenação implícita entre política fiscal e monetária.“Embora independentes, Tesouro e Banco Central atuam no mesmo sistema, e movimentos desalinhados podem amplificar a volatilidade”, avalia.Sendo assim, para ambos, a intervenção busca reduzir incerteza e evitar que a decisão de juros seja influenciada por distorções momentâneas do mercado.O que são títulos prefixadosDe acordo com a B3 – a Bolsa de Valores do Brasil -, o Tesouro Direto costuma ser uma alternativa de investimento para investidores que preferem segurança na hora de aplicar.Isso porque o Tesouro possui duas modalidades de título: o prefixado e o pós-fixado. O primeiro, considerado o mais simples para o investidor iniciante ou com aversão a risco, é o tipo de título que o Tesouro passou a comprar nesta semana na intenção de controlar a curva de juros futuros.Os prefixados possuem rentabilidade definida no momento do investimento. Ou seja, o investidor sabe exatamente o valor que irá receber se ficar com o título até a data do vencimento. Esse tipo de produto é extremamente seguro e permite aplicações iniciais a partir de R$30.Ao investir no Tesouro Direto, a pessoa adquire um título com data de vencimento definida, embora seja possível resgatá-lo antes do prazo final contratado. Até o momento, o Tesouro Nacional já adquiriu quase R$ 50 bilhões em títulos.