Índia acelera modernização nacional em busca de se tornar potência militar

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A Índia vive um paradoxo: é berço de tradições milenares, mas também uma das nações mais jovens do mundo. A independência perante a Coroa britânica, em 1947, deixou sequelas sentidas até hoje, especialmente nas regiões de fronteira, que moldam sua estratégia de Defesa.Ainda há disputas conturbadas com a China no Himalaia e uma tensão permanente pela Caxemira com o Paquistão, a quem acusa de apoiar terroristas. O nordeste da Índia é outro foco de alerta pelos múltiplos grupos com diferentes demandas ao governo central.Existe também uma preocupação com um domínio no Mar Arábico e na Baía de Bengala, por questões comerciais e militares estratégicas. Para tanto, a Índia busca exercer influência sobre países próximos, como o Sri Lanka.Já o Oriente Médio — tão próximo — é sempre, claro, mais um ponto de atenção.Diante do cenário cheio de hostilidades, Nova Délhi decidiu que o caminho para o desenvolvimento passa, obrigatoriamente, pela autossuficiência militar.Sob o comando do primeiro-ministro Narendra Modi, o objetivo é claro: transformar a Índia em um país desenvolvido até 2047, centenário de sua independência.Para isso, as Forças Armadas estabeleceram a década entre 2023 e 2032 como o período crítico de modernização tecnológica e estrutural.O plano de reforma militar indiano está dividido em três etapas estratégicas:Até 2026: Foco em reformas estruturais internas, digitalização e absorção de tecnologias nacionais.Até 2029: Integração de sistemas e busca por maior sinergia operacional entre as forças.Até 2032: Alcance da autossuficiência militar, com domínio de tecnologias de ponta, incluindo o uso consolidado de Inteligência Artificial (IA).Deserto de Pokhran e poder naval Leia Mais Embraer e Adani assinam acordo para fabricar aeronaves na Índia Exército dobra investimento com nova lei e reformula projetos estratégicos Força avança em compra de defesa antiaérea; Itália deve fornecer sistema No estado do Rajastão, a cerca de 150 km da fronteira com o Paquistão, fica Pokhran. O local, isolado e estratégico, foi o palco da primeira explosão nuclear indiana em 1974. Hoje, continua sendo um dos principais campos de testes para mísseis, drones e manobras de infantaria que servem como demonstração de força e dissuasão.Oficiais indianos ressaltam a necessidade de se dominar a inteligência de equipamentos e o controle territorial. Um dos destaques é o sistema de controle e comando de artilharia Shakti, desenvolvido pelo governo indiano em parceria com empresas privadas do país.A colaboração público-privado tem se replicado em outros projetos, desde drones ao caça indiano Tejas. Para oficiais, um passo importante para diminuir a dependência de arsenal estrangeiro, melhorar tempos de resposta e desenvolver a indústria de defesa nacional.As ambições marítimas da Índia são expostas em Visakhapatnam, que recebeu em fevereiro um desfile naval com a participação de mais de 70 países — inclusive do Irã, com o navio de guerra afundado pelos Estados Unidos no início de março.O evento teve clima cerimonioso, de respeito mútuo e trocas entre os participantes. A escala grandiosa foi pensada para impressionar, com destróiers, submarinos, veículos anfíbios e frotas da aviação naval.As atenções da Índia também se voltaram a exibir uma das suas maiores vitrines no evento, a alguns quilômetros da costa.No mar, a atual “joia da coroa” é o porta-aviões INS Vikrant. Comissionado em 2022, ele é considerado um marco na capacidade indiana de ser quase que autossuficiente em relação às próprias embarcações, com mais de 70% de seus componentes fabricados nacionalmente.INS Vikrant • CNN BrasilCom capacidade para 1,5 mil tripulantes e cerca de 30 aeronaves, entre jatos e helicópteros, o Vikrant simboliza a ambição da Índia de projetar poder sem depender maciçamente de fornecedores estrangeiros.Os aviões decolam com a ajuda de uma rampa curva na proa, sem catapultas. Para pousar e frear em 2,5 segundos, contam com a ajuda de cabos no convés. Outros navios de guerra estão encomendados ou em construção.Oportunidades para empresas brasileirasO Brasil é visto como um bom parceiro pelas Forças Armadas indianas, inclusive pelos riscos geopolíticos menores.Os dois países mantêm exercícios e intercâmbios entre oficiais. Alguns dos principais pontos de interesse são controle de fronteira, contraterrorismo e atividades em ambiente de floresta.O Brasil está de olho nessa ascensão militar da Índia e chegou a considerar a compra de um sistema de defesa antiaérea de médio e longo alcance do país.Também busca ampliar e diversificar a relação comercial, que não é centrada em Defesa. Ainda assim, empresas brasileiras no setor têm enxergado oportunidades.A Embraer negocia a venda do cargueiro C-390 Millennium à Aeronáutica indiana, com planos que incluem ao menos um centro de manutenção e revisão de última geração, em colaboração com o Mahindra Group.Se a aeronave for selecionada, o projeto da Embraer poderá até ser mais robusto para atender tanto as necessidades do governo indiano quanto do volume de encomendas.Além disso, o centro poderá servir de hub regional para atender outros operadores do C‑390 na Ásia.A CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) mantém uma joint venture com a indiana SSS Defence para suprir a demanda crescente indiana de munições e tecnologias para as respectivas forças policiais e militares.“A CBC é uma das maiores fabricantes de munições do mundo e possui uma longa tradição de produzir munições de alta qualidade para o mercado global. Nossa joint venture com eles iniciou a produção há dois anos e, atualmente, somos a maior fabricante de munições do setor privado na Índia”, afirmou Vivek Krishnan, CEO da SSS Defence, à CNN Brasil.• Luciana Amaral / CNN BrasilOrçamentos comparadosO orçamento da Defesa indiana para este ano fiscal está previsto em US$ 85 bilhões (aumento de 15% em comparação com o ano anterior).Embora o valor seja muito superior aos cerca de US$ 27 bilhões previstos pelo Brasil para o mesmo período, a Índia ainda corre para alcançar os gigantes: a China investe cerca de US$ 280 bilhões, enquanto os Estados Unidos lideram com US$ 900 bilhões.Ao buscar a autossuficiência, a Índia não tenta apenas se proteger, mas, sim, escapar da vulnerabilidade de depender das decisões políticas de Pequim, Washington ou Moscou.*A repórter viajou a convite do governo da Índia.