O conflito, sobretudo com os acontecimentos mais recentes, rapidamente deixa de estar longe e de ser um tema de geopolítica, sobretudo quando nos entra na economia doméstica através das taxas de juro. E não só.Num mundo profundamente interligado, uma escalada militar envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos não permanece confinada ao teatro de operações. Quando uma ofensiva se prolonga para além de dias ou semanas, o impacto deixa de ser meramente regional e passa a repercutir-se no sistema económico global. Economias abertas como a portuguesa acabam inevitavelmente por sentir esses efeitos, que se transmitem através de canais bem conhecidos: o preço da energia, a inflação, a política monetária e, em última instância, a confiança dos investidores e das famílias.O primeiro sinal surge quase sempre no mercado energético. Assim que o risco geopolítico aumenta numa região que concentra uma parte significativa da produção mundial de petróleo, os mercados incorporam rapidamente esse risco nos preços. O crude reage primeiro. Pouco tempo depois, a energia mais cara começa a refletir-se nos índices de inflação.É então que entra em cena o terceiro elemento da cadeia: os bancos centrais. Se a inflação se revela mais persistente do que o esperado, a política monetária tende a manter-se restritiva durante mais tempo. Na prática, isso significa que as taxas de juro demoram mais a descer.Para Portugal, este ponto não é um detalhe técnico. É uma realidade económica quotidiana. Num país onde a maioria dos contratos de crédito à habitação continua indexada a taxas variáveis, a evolução da Euribor tem consequências diretas no orçamento de milhares de famílias.O mercado imobiliário português já demonstrou, de forma clara nos últimos anos, o grau de sensibilidade que mantém face à evolução das taxas de juro. Não é necessária uma crise interna para que o setor abrande. Basta que o ciclo de juros elevados se prolongue para além do que inicialmente era antecipado.Se o conflito contribuir para manter os preços da energia elevados e atrasar o processo de desinflação na Zona Euro, é possível que o ritmo de descida das taxas seja mais lento. Nesse contexto, a recuperação do poder de compra também será gradual.O efeito mais provável não será uma queda abrupta de preços no imobiliário, mas sim um mercado menos líquido: transações mais lentas, maior tempo médio de venda e negociações mais exigentes entre compradores e vendedores. Importa, contudo, evitar generalizações. Até porque o mercado imobiliário português não reage de forma uniforme.O segmento prime (particularmente em zonas consolidadas de Lisboa, Porto e Algarve) tende a seguir uma lógica diferente. Em períodos de instabilidade internacional, o capital procura frequentemente jurisdições previsíveis e ativos capazes de preservar valor.Portugal reúne várias das condições que sustentam essa perceção, nomeadamente estabilidade institucional, enquadramento jurídico europeu e, sobretudo, uma escassez estrutural de oferta em algumas das localizações mais procuradas.Num cenário de conflito prolongado, o mercado tende a dividir-se em dois comportamentos distintos. Por um lado, o mercado mais dependente de financiamento bancário, inevitavelmente mais sensível à evolução das taxas de juro. Por outro, o mercado patrimonial, frequentemente alimentado por capital internacional ou por investidores com menor dependência de crédito, cuja prioridade é a preservação de capital.O primeiro abranda. O segundo tende a manter-se. Talvez o maior erro seja olhar para este conflito como um episódio isolado da geopolítica internacional. O verdadeiro impacto não está apenas nos acontecimentos que decorrem no Golfo, mas na forma como esses acontecimentos influenciam variáveis económicas fundamentais, sendo elas a energia, a inflação e a política monetária.O conteúdo A guerra está longe. A Euribor não. aparece primeiro em Revista Líder.