Relatórios de inteligência analisados pela Reuters alertam para o risco de extremistas e criminosos terem como alvo a Copa do Mundo em um momento em que centenas de milhões de dólares destinados à segurança foram liberados com atraso, prejudicando o ritmo dos preparativos nos Estados Unidos.Os documentos, até então não divulgados, foram produzidos por autoridades federais e estaduais norte-americanas, além da Fifa, entidade responsável pela organização do torneio.Eles apontam para o risco de ataques extremistas, incluindo ações contra infraestruturas de transporte, além de possíveis distúrbios civis relacionados à política de imigração do presidente Donald Trump. Leia Mais Veja as seleções que ainda lutam por vaga na Copa do Mundo de 2026 Como a iminente paralisação parcial do governo nos EUA afetaria o ICE Amistoso da seleção mexicana vira dúvida após escalada de violência no país A Copa do Mundo, um dos maiores eventos esportivos do planeta, será disputada em junho e julho deste ano, com jogos distribuídos entre Estados Unidos, Canadá e México.Embora a segurança nesses eventos já seja tradicionalmente reforçada, autoridades norte-americanas estão em alerta ainda maior desde o início da guerra envolvendo o Irã, diante de preocupações com possíveis retaliações.Nos últimos meses, responsáveis pela organização nos Estados Unidos intensificaram os alertas sobre o atraso na liberação de 625 milhões de dólares (aproximadamente R$ 3,2 bilhões) em verbas federais para segurança, previstas em um pacote orçamentário aprovado em julho de 2025 com apoio republicano.A Agência Federal de Gestão de Emergências, encarregada de distribuir os recursos, havia informado em novembro que faria a liberação até 30 de janeiro.Após questionamentos da Reuters neste mês, e reclamações de autoridades e organizadores sobre a ausência dos valores, a agência anunciou na quarta-feira que os recursos foram finalmente concedidos, afirmando que irão “reforçar os preparativos de segurança”.Com a abertura da Copa marcada para 11 de junho no México — seguida por partidas nos Estados Unidos e Canadá no dia seguinte —, estados e cidades-sede já estão em fase avançada de planejamento, incluindo estratégias para prevenir possíveis ataques.Copa tem guerra entre anfitrião e participante pela 1ª vez, diz pesquisador | LIVE CNNSegundo autoridades ouvidas pela Reuters, os atrasos no financiamento e os alertas de ameaças tornaram o processo ainda mais complexo.De acordo com Mike Sena, presidente da National Fusion Center Association, a distribuição dos recursos costuma levar meses, enquanto a aquisição de tecnologia e equipamentos pode demandar ainda mais tempo. “Será extremamente apertado”, afirmou.Um relatório de inteligência de dezembro de 2025, produzido em Nova Jersey — que sediará jogos, incluindo a final —, destacou ataques domésticos recentes, planos terroristas frustrados e a disseminação de propaganda extremista.O documento também menciona a possibilidade de aglomerações espontâneas ligadas a tensões entre países.Outro relatório, de setembro de 2025, identificou uma publicação online que incentivava ataques à infraestrutura ferroviária durante a Copa, sugerindo que haveria “muitas oportunidades” para descarrilar operações, com menção a jogos na costa oeste dos Estados Unidos e do Canadá.Os documentos foram obtidos pela organização Property of the People.Atrasos e disputa políticaDemocratas atribuíram o atraso na liberação dos recursos à então secretária de Segurança Interna, Kristi Noem.Sob sua gestão, o departamento também reteve, no ano passado, centenas de milhões de dólares em verbas de segurança destinadas a estados governados por democratas e ao Distrito de Columbia, pressionando por maior rigor na fiscalização imigratória.Em resposta, o porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle, responsabilizou os democratas pelo impasse, citando divergências sobre políticas de imigração. Segundo ele, o presidente está focado em fazer desta “a maior Copa do Mundo da história”, garantindo ao mesmo tempo o evento “mais seguro já realizado”.A política migratória de Trump já impacta o ambiente do torneio e gera preocupações sobre a atuação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês). Desde o início de seu mandato, em janeiro de 2025, agentes têm intensificado detenções de suspeitos de imigração irregular em cidades dos EUA e realizado abordagens em aeroportos, inclusive envolvendo turistas.Dados do Departamento de Comércio dos EUA indicam queda no número de visitantes internacionais desde o início do governo Trump. Ainda assim, há sinais iniciais de forte demanda por voos e ingressos para a competição.México está disposto a sediar jogos do Irã na Copa do Mundo, diz presidente | CNN PRIME TIMEEm relatório da Fifa datado de 28 de janeiro, analistas alertaram que o ativismo contrário ao ICE em cidades americanas pode reduzir barreiras para “ações hostis de atores isolados ou elementos extremistas”.Além disso, Trump implementou restrições totais ou parciais de viagem a cidadãos de mais de três dezenas de países, incluindo o Irã, que negocia com a Fifa a transferência de seus jogos para o México devido às tensões com os Estados Unidos.Outras seleções classificadas — como Haiti, Costa do Marfim e Senegal — também enfrentam restrições para seus torcedores.Eventos paralelos sob atençãoAutoridades apontam ainda preocupação com os eventos “Fifa Fã Festival”, que reúnem grandes públicos em áreas abertas para transmissão dos jogos.Um festival planejado para o Liberty State Park, em Jersey City, durante toda a Copa, foi cancelado inesperadamente no mês passado e substituído por eventos menores.A governadora de Nova Jersey, Mikie Sherrill, afirmou que a mudança permitiria ampliar o acesso da população. No entanto, segundo fontes envolvidas no planejamento, preocupações com segurança também influenciaram a decisão.A deputada federal Nellie Pou, cujo distrito inclui o MetLife Stadium — um dos palcos da Copa —, destacou a dimensão do desafio. Segundo ela, cada uma das 104 partidas do torneio equivale, em termos de operação, a um Super Bowl.“As autoridades locais e as forças de segurança certamente estarão sob grande pressão”, afirmou. “Elas precisam de cada dólar disponível — e precisam disso agora.”O que acontece se o Irã não disputar a Copa do Mundo?