O empreendedorismo segue como uma das principais estratégias de geração de renda para milhões de brasileiras, que se deparam com uma dificuldade estrutural do mercado formal de trabalho em acomodar especialmente as profissionais que se tornaram mães. Um levantamento feito pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME), entre 2023 e 2025, mostra que mesmo empreendendo os problemas se multiplicam, indo desde a informalidade e endividamento até dificuldades de acesso ao crédito e desigualdades raciais.Segundo os estudos conduzidos pelo Laboratório de Gênero e Empreendedorismo do IRME, a maioria das empreendedoras brasileiras tem entre 30 e 49 anos, vive principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste e apresenta renda média relativamente baixa. Em 2025, por exemplo, a renda média declarada pelas entrevistadas ficou em torno de R$ 2.400 mensais, valor que frequentemente sustenta não apenas a própria mulher, mas também outros membros da família. Os dados revelam ainda que 58,3% dessas mulheres são chefes de família, evidenciando o papel central dessas atividades para a economia doméstica.Maternidade Um dos pontos mais fortes identificados pelas pesquisas do IRME é a relação entre maternidade e o empreendedorismo. Em 2023, 77% das mulheres afirmaram ter iniciado o negócio depois de se tornarem mães, tendência que se repete nos levantamentos posteriores. Em 2024, por exemplo, 73% das empreendedoras eram mães e 37% declararam ser mães solo.Para Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, os dados evidenciam uma dificuldade estrutural do mercado formal em acomodar mães profissionais. “Desde 2016 fazemos essa pesquisa anualmente e mais de 68% afirmam que os filhos vieram antes do empreendedorismo. Isso mostra a resistência do mercado de trabalho em aceitar uma mãe enquanto profissional. Muitas vezes o caminho que resta é o empreendedorismo”, afirma.A sobrecarga de trabalho doméstico e cuidado com filhos também impacta diretamente o desempenho dos negócios. Metade das entrevistadas declarou não receber nenhum tipo de ajuda em casa ou na empresa, reduzindo tempo disponível para gestão, planejamento e expansão das atividades.Outro desafio recorrente é a informalidade. Em 2023, apenas 48% das empreendedoras tinham CNPJ, o que limita o acesso a crédito, programas de apoio e oportunidades de crescimento. Em regiões como Norte e Nordeste, a informalidade é ainda mais elevada: até sete em cada dez negócios femininos operam sem formalização, muitas vezes por falta de recursos para arcar com custos tributários e burocráticos.A situação financeira das empreendedoras também revela fragilidade básica. Em 2023, 73% relataram possuir dívidas e 43% estavam com pagamentos atrasados, enquanto quatro em cada dez negócios não geravam receita suficiente para cobrir os custos.Os dados mais recentes apontam alguma cautela maior na gestão financeira. Em 2025, 57,3% afirmaram não ter dívidas e os atrasos caíram para 14,6%, mas o problema permanece relevante: 72,1% das entrevistadas estavam negativadas como pessoa física, sinalizando que muitas recorrem ao crédito pessoal para sustentar o negócio.Crédito ainda é uma barreiraO acesso ao crédito aparece de forma consistente como um dos maiores gargalos para o crescimento dos negócios femininos. Entre as empreendedoras que buscaram financiamento em 2025, 52,4% recorreram a bancos privados e 39,6% a fintechs, mas a maioria sequer tentou acessar crédito formal: 65,5% nunca solicitaram financiamento, citando falta de informação, burocracia e insegurança.Entre as que tentaram, 26,3% tiveram o pedido negado. Parte dessas negativas também envolve discriminação: 30,5% das empreendedoras rejeitadas afirmaram ter sofrido algum tipo de tratamento discriminatório durante o processo.A desigualdade racial também se reflete diretamente nesse cenário. Mulheres negras enfrentam taxas maiores de negativa e acesso a valores menores. Enquanto 29% das empreendedoras negras tiveram crédito negado, o índice entre mulheres brancas foi de 23%. Além disso, 37% das negras receberam empréstimos de até R$ 2.000, enquanto apenas 22% das brancas ficaram nesse nível de crédito. Já valores acima de R$ 20 mil foram concedidos a apenas 6% das negras, contra 20% das brancas.Para a especialista, os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas e iniciativas privadas que ampliem o acesso ao crédito, reduzam a informalidade e fortaleçam redes de apoio para mulheres empreendedoras, especialmente no que diz respeito à economia do cuidado.Leia Mais: Bolos, maquiagem e crédito de carbono: 10 empreendedoras que faturam milhõesCapacitaçãoDiante desse cenário, a Rede Mulher Empreendedora (RME) anunciou uma série de iniciativas para o Mês da Mulher, com foco em capacitação e desenvolvimento de negócios liderados por mulheres.Entre os projetos está a Virada da Empreendedora, iniciativa itinerante que em 2026 passará por Brasília, Rio de Janeiro, Recife e São Paulo, oferecendo mentorias, feira de negócios e workshops voltados à expansão de vendas e gestão empresarial. Cada edição deve reunir cerca de 300 participantes, conectando empreendedoras locais a especialistas, empresas e potenciais parceiros.“Investir no desenvolvimento de mulheres é investir em soluções mais sustentáveis, justas e inovadoras para a sociedade. Quando ampliamos acesso a conhecimento, redes e oportunidades, ampliamos também o impacto econômico nos territórios”, afirma Ana Fontes.Segundo o instituto, fortalecer o empreendedorismo feminino vai além da autonomia individual, porque quando mulheres ampliam renda e oportunidades, os efeitos positivos se espalham para famílias, comunidades e toda a economia local.The post Falta de oportunidades para mães ‘empurra’ mulheres para o empreendedorismo appeared first on InfoMoney.