Um terço dos jovens diz que mulher deve obedecer ao marido, aponta pesquisaApesar da ideia de que as novas gerações defendem mais a igualdade de gênero, uma pesquisa global com 23 mil pessoas revelou que homens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) são os que mais concordam com visões tradicionais sobre o comportamento de homens e mulheres na sociedade.O levantamento realizado pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King's College London aponta que 31% dos jovens homens acreditam que a esposa deve sempre obedecer ao marido, um índice mais que o dobro do registrado entre os homens da geração Baby Boomer (nascidos entre 1946 e 1964). Segundo especialistas ouvidos pelo g1, o resultado chama atenção, mas não chega a ser surpreendente. O crescimento de visões conservadoras entre parte dos jovens sobre as relações entre homens e mulheres já vem sendo observado em diferentes pesquisas e reflete um momento mais amplo de fortalecimento do conservadorismo moral na sociedade. As redes sociais também contribuem para a formação de ambientes que reforçam e reproduzem esses valores.Geração Z e Baby Boomers: visões sobre papéis de gêneroArte g1Resultados do Brasil Os novos dados mostram que o Brasil está entre os países com maiores percentuais de concordância com algumas afirmações ligadas a visões tradicionais sobre homens e mulheres.70% dos brasileiros sentem que está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade, um índice muito superior à média global de 46%➡️Homens que cuidam dos filhos são menos masculinos No Brasil: 16% dos homens concordam que homens que participam do cuidado com os filhos são menos masculinos 16% dizem não concordar nem discordar O país aparece na 8ª posição entre 29 países. Na média global: 21% dos homens da Geração Z concordam 19% dos Millennials concordam 8% dos Baby Boomers concordam ➡️Uma mulher “de verdade” não deve iniciar o sexo No Brasil: 17% concordam totalmente com a afirmação 20% dizem não concordar nem discordar O país ocupa a 7ª posição entre 25 países com maior percentual de concordância. Na média global: 21% dos homens da Geração Z concordam 16% dos Millennials 7% dos Baby Boomers ➡️A esposa deve sempre obedecer ao marido No Brasil: 21% concordam com a afirmação 20% dizem não concordar nem discordar O país ocupa a 9ª posição entre 29 países. Na média global: 31% dos homens da Geração Z concordam 29% dos Millennials 13% dos Baby Boomers “O espanto de que quase um terço dos jovens concordem com uma afirmação que representa um valor tradicional de gênero vem da crença de que existe um caminho inflexível em direção à adesão a valores mais igualitários em relação ao gênero e à expressão das liberdades individuais a cada nova geração. Mas nenhuma experiência humana é estática e caminha em uma só direção. Esta é a primeira questão importante. A segunda é entender que existe uma diversidade entre os países muito importante de ser tratada”, complementa Felicia Picanço. Por que ideias tradicionais sobre o papel da mulher ainda persistem? Parte dessa persistência se explica pelo peso das normas culturais e sociais transmitidas ao longo das gerações. Embora muitas pessoas entrevistadas no estudo defendam, no plano individual, uma divisão mais igualitária das responsabilidades entre homens e mulheres, as expectativas sociais ainda associam tarefas como cuidados com a casa e com os filhos às mulheres, enquanto o papel de provedor permanece mais ligado aos homens. “Eu entendo que o fato de um terço dos homens da geração Z concordarem que a esposa deve obedecer ao marido reflete discursos que existem na sociedade há muito tempo. Embora tenha havido um movimento forte de mulheres reivindicando autonomia e independência, ainda persistem discursos machistas e conservadores. Esses valores continuam sendo transmitidos por diferentes caminhos, como a religião, a mídia e a própria criação familiar, passada de geração em geração”, explica Maíra Liguori, presidente da Think Olga, organização social focada em promover o debate público e a equidade de gênero.A pesquisa analisou atitudes em relação à igualdade de gênero em 29 países. Apesar de serem os mais propensos a acreditar que uma mulher não deve parecer muito independente ou autossuficiente, os homens da Geração Z também foram o grupo mais propenso a afirmar que mulheres com carreira de sucesso são mais atraentes. 41% concordam com essa ideia, em comparação com 27% dos Baby Boomers, considerando homens e mulheres. Segundo a socióloga membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Nadya Guimarães, consistências absolutas nas maneiras de pensar dificilmente existem. Muitas vezes, o que aparece é uma espécie de dissociação cognitiva, isto é, as pessoas podem defender certos valores em um contexto e, em outro, pensar ou agir de forma diferente. “Nem tudo é completamente consistente, e é justamente por isso que é interessante observar onde aparecem as coerências e as contradições. No espaço público, por exemplo, já está bastante consolidada a ideia de que a entrada das mulheres no mercado de trabalho foi um avanço. Isso já é praticamente consensual.” A socióloga Felicia Picanço, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a reação conservadora já foi mais associada a gerações mais velhas. “Na primeira década dos anos 2000, o backlash era associado às gerações mais velhas que se sentiam ameaçadas pelas conquistas das mulheres, a presença de imigrantes e as perdas econômicas fruto das recessões das grandes economias e da perda da qualidade dos estados de bem-estar europeus. Na última década, o backlash está presente entre os mais jovens, como visto nas pesquisas recentes. Aquilo que parecia no subterrâneo ou localizado em experiências muito particulares vem se espalhando com as redes sociais e se visibilizando em pesquisas de opinião como estas”, diz. 🔎Backlash: usada para descrever uma reação contrária ou retrocesso diante de avanços sociais ou políticos.No contexto de gênero e direitos das mulheres, o termo significa uma reação negativa ou resistência contra conquistas de igualdade.Resistência aos avanços da igualdade A pesquisa também mostra que parte significativa da população acredita que os avanços na igualdade de gênero já foram suficientes. Cerca de metade dos entrevistados (52%) afirma que os esforços para garantir direitos iguais às mulheres já foram longe o suficiente em seus países. Além disso, 46% dos participantes concordam que “está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade”, enquanto 44% acreditam que a promoção da igualdade feminina chegou a um ponto de discriminar os homens. De acordo com o professor de psicanálise da Universidade de São Paulo (USP), Christian Dunker, transformações sociais profundas costumam gerar reações diferentes dentro da sociedade. Segundo ele, parte das pessoas se adapta mais rapidamente às mudanças, enquanto outras permanecem vinculadas a valores tradicionais. “Existe uma falsa associação entre valores conservadores e práticas conservadoras. Uma pessoa pode defender valores tradicionais e, ainda assim, ter práticas progressistas ou o contrário.” Redes sociais e discurso de ódio Um estudo realizado em 2024 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em parceria com o Ministério das Mulheres identificou um crescimento do discurso de ódio contra mulheres na internet. Entre 2018 e 2024, foram identificados 137 canais que propagam misoginia. Em alguns casos, os criadores vendem livros e cursos que defendem o ódio contra mulheres independentes e feministas e afirmam que é necessário humilhar ou controlar mulheres para conquistá-las. Para especialistas, parte das respostas registradas na pesquisa pode estar relacionada à influência dessas comunidades online. "Uma mulher que busca sua liberdade, sua autonomia e sua independência não está necessariamente desafiando o masculino, mas é assim que muitos homens acabam se sentindo atacados"O futuro das relações de gênero Para especialistas, embora persistam resistências, as mudanças nas relações entre homens e mulheres tendem a continuar. Segundo Felicia Picanço, houve avanço na adesão a valores menos hierarquizados entre os gêneros, mas ainda há resistência em relação à redistribuição de responsabilidades dentro da família. “Alcançamos um nível maior de adesão a valores menos hierarquizados de gênero, ou seja, reduziu-se a crença de que a mulher é inferior aos homens. Mas ainda existe resistência a mudanças maiores nos valores que essencializam os atributos femininos, como a ideia da mulher cuidadora dos filhos e dos idosos. Os homens estão sendo convocados a uma maior participação nos cuidados, e o enfrentamento das desigualdades precisa começar dentro de casa, na distribuição das tarefas domésticas e de cuidado.” “O meu papel como uma pessoa que trabalha nessa área, minha obrigação é sempre ter um olhar propositivo e de melhoria para o futuro. Então, para continuar fazendo o que eu faço, eu preciso acreditar que estamos caminhando numa direção melhor do que a que estamos hoje, não pior. Mas, independentemente das minhas convicções individuais, eu acredito que estamos avançando”, finaliza Maíra.