As dificuldades de fundos nos Estados Unidos que investem em papéis de empresas acenderam um alerta amarelo nas últimas semanas para economistas e investidores. A gestora de recursos Blue Owl suspendeu os resgates de um de seus fundos de crédito privado destinado para o varejo. E, nesta semana, outros dois fundos de crédito divulgaram problemas, um da gigante KKR, que reportou um aumento da inadimplência de empresas não listadas, e outro da Apolo, que reavaliou para baixo uma de suas carteiras diante de atrasos. A dúvida que surge para o investidor brasileiro é se os mesmos problemas podem surgir no Brasil.“As ações de gestores do setor nos Estados Unidos vêm sofrendo ao longo de todo o ano, mas o impacto mais relevante para a economia e para os mercados merece mais atenção”, afirma o economista e gestor Dan Kawa em comentário no X. Segundo ele, caso o movimento persista, pode haver resgates e menor capação em fundos de crédito privado, reduzindo a oferta de capital para empréstimos, o que tenderia a elevar os spreads, encarecer o custo da dívida e apertar as condições financeiras. Leia mais: Fictor Asset encerra FIDC de R$ 270 milhões e propõe liquidação do fundoAlerta para os FIDCsO que aconteceu nos Estados Unidos pode servir de alerta para os fundos de investimento em direitos creditórios, os FIDCs, brasileiros, afirma Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital. Segundo ele, a Blue Owl Capital anunciou em 18 de fevereiro a decisão mais drástica possível para um fundo de crédito privado: suspender permanentemente as janelas trimestrais de resgate do Blue Owl Capital Corp II (OBDC II), um fundo BDC de US$ 1,6 bilhão voltado principalmente para investidores pessoa física.Uarian lembra que o fundo já estava com resgates travados desde novembro de 2025. Mas, em vez de retomar as janelas limitadas, que permitiam retirar no máximo 5% do patrimônio líquido a cada trimestre, a gestora optou por vender US$ 600 milhões em empréstimos diretos, cerca de 34% da carteira. Com isso, levantou recursos e vai devolver aproximadamente 30% do patrimônio líquido de forma proporcional a todos os cotistas em até 45 dias. Depois disso, o fundo passa a operar em modo “run-off”: só devolve dinheiro conforme os empréstimos forem amortizados ou vendidos de forma ordenada. “A Blue Owl diz que está ‘acelerando’ o retorno de capital aos investidores, mas o mercado entendeu o recado de outra forma: as ações da gestora caíram forte no dia, puxando para baixo outras gestoras de private credit como Apollo, KKR e Ares”, explica Uarian.Leia também: Anbima prepara nova classificação para FIDCs e regulação para custódia de criptosDescasamento de prazos Para ele, o problema não foi uma crise de liquidez repentina, mas algo mais estrutural: o desalinhamento de prazos entre os ativos e os passivos do fundo. O OBDC II empresta dinheiro para empresas de médio porte, muitas delas no setor de tecnologia e software, por prazos longos, tipicamente 5 a 7 anos. Ao mesmo tempo, prometia liquidez trimestral ao investidor de varejo. “Quando o sentimento do mercado mudou com queda de juros, revisões de ‘valuation’ e forte saída de recursos, esse desalinhamento virou um problema concreto”, afirma o analista.Segundo Uarian, nos Estados Unidos, o chamado “private credit” chegou a quase US$ 1,8 trilhão. Mais da metade desse volume está em veículos semi-líquidos vendidos para pessoa física: fundos que oferecem janelas de resgate frequentes sobre ativos que, na prática, não têm mercado secundário profundo. Os investidores institucionais acessam o mesmo tipo de crédito por fundos fechados com carência longa e tíquete alto. “O varejo, atraído por retornos de 10% a 12%, entrou no jogo achando que poderia ter o melhor dos dois mundos”, afirma o analista. “Quando a realidade bateu, o sistema travou: as janelas limitadas viraram suspensão permanente de resgates”, completa.Seguro, “pero no mucho”No Brasil, a estrutura é diferente e mais segura, mas não é “à prova de bala”, observa ele. O equivalente brasileiro são os FIDCs de crédito privado (recebíveis corporativos, cadeias de suprimento, consignado, etc.), que já somam mais de R$ 700 bilhões e devem chegar perto de R$ 1 trilhão em 2026. A grande maioria desses fundos é fechada: o cotista não tem direito a pedir resgate antes do prazo final ou das amortizações programadas. “Isso cria um alinhamento natural entre o prazo do dinheiro que entra e a iliquidez dos créditos que o fundo compra”, explica Uarian.A Resolução 175 da Comissão de Valores Mobiliários reforça essa proteção de várias formas, afirma o analista. Fidcs abertos só podem oferecer empréstimos com prazo total, contando carência e pagamento, de até 180 dias. O administrador é obrigado a monitorar a liquidez o tempo todo e tem regras claras para suspender resgates em situações excepcionais, com comunicação imediata e assembleia de cotistas se o prazo se alongar. A regulação exige ainda sobregarantia, ou seja, o fundo recebe mais garantias do que o valor emprestado. Há ainda a alienação definitiva dos créditos, o chamado “true sale”, no qual o cedente, que vendeu o recebível, perde todo direito sobre ele, mesmo em caso de falência, e há ainda uma segregação patrimonial clara.Leia mais: FIDCs se consolidam como pilar do crédito estruturado em meio à revisão regulatóriaSem ilusões “Em outras palavras, a regulação brasileira proíbe explicitamente o tipo de promessa ilusória de liquidez trimestral sobre ativos ilíquidos que explodiu nos EUA”, diz Uarian. Mas ele admite que isso não significa que o risco seja zero aqui, e lembra os casos recentes da gestora Fictor, que enfrentou forte saída de recursos em vários FIDCs, com pedidos de resgate entre 40% e 70% do patrimônio em alguns veículos. A solução foi a transferência de administração, a criação de novos fundos e, em pelo menos um caso, de R$ 272 milhões, suspensão temporária de resgates por incompatibilidade clara entre ativos e passivos.Ele cita ainda outros episódios pontuais, como o da Empirica em 2023, e que mostram que, quando o fundo é aberto ou tem janelas mais curtas, o desalinhamento com os resgates aparece rapidamente, seja por problema no cedente ou por falta de comprador no mercado secundário.Leia também: Patrimônio dos FIDCs alcança nível histórico; expectativa é por mais expansão em 2026Regras para crises“A boa notícia é que as restrições em caso de problemas no Brasil vêm com governança regulada: assembleia de cotistas, transparência e regras pré-definidas”, observa Uarian. Além disso, o crédito privado brasileiro é mais pulverizado, com muitos recebíveis de cadeias de suprimento, menos concentração em grandes empréstimos diretos para empresas de tecnologia, e já começa a surgir um mercado secundário de cotas de FIDCs exatamente para dar liquidez marginal sem quebrar a estrutura fechada.Para Uarian, caso Blue Owl não é o fim do private credit americano, “mas é um aviso claro do preço que se paga quando se vende uma liquidez que o ativo não consegue entregar naturalmente”. Nos Estados Unidos, o crescimento explosivo para o varejo criou um “Frankenstein regulatório”, enquanto no Brasil a combinação de fundos majoritariamente fechados com a CVM 175 dá uma vantagem estrutural de estabilidade.Leia mais: Como evitar sustos com crédito privado em 2026? Economista da Itaú Asset respondeRecomendações para o investidor“Para o investidor, a lição é prática: exija alinhamento claro de prazos, tranche sênior com rating real e sobregarantia, disclosure de testes de estresse de liquidez e, sempre que possível, prefira veículos fechados quando o ativo é crédito privado de verdade”, afirma Uarian. “O mercado brasileiro de crédito privado tem espaço enorme para crescer, mas só vai atravessar o próximo ciclo de stress se mantiver a disciplina que, em parte, o mercado americano abandonou”, conclui.Diferenças entre Brasil e EUAO primeiro tema a ser esclarecido para não gerar uma confusão com o que está acontecendo nos EUA é entender o que eles chamam de crédito privado, ou“private credit”, que é bem diferente do que chamamos de crédito privado no Brasil, afirma Daniela Gamboa, Head de Crédito Privado e Imobiliário da SulAmérica Investimentos. “Para nós, o mercado que chamamos de crédito privado é predominantemente o mercado de fundos que investem em debêntures de grandes companhias brasileiras e títulos bancários”, diz. Já o que os americanos chamam de crédito privado são fundos que investem em ativos de empresas de pequeno e médio porte com baixa liquidez.BDC e FIDCO instrumento no Brasil que mais se assemelha aos fundos americanos BDCs (“business development companies”) são os FIDCs, o veículo local de securitização, explica Daniela. Por meio dos FIDCs, os investidores brasileiros podem acessar carteiras pulverizadas de diversos perfis de risco, incluindo as empresas de pequeno e médio porte. São estruturas semelhantes a bancos, que financiam empresas menores e sem acesso ao mercado de capitais tradicional, só que fora do mercado regulado pelo Banco Central, o que poderia ser chamado de “shadow banking”, segundo Daniela.O mercado de FIDCs no Brasil vem apresentando um crescimento bastante forte nos últimos anos, principalmente após a CVM permitir que investidores de varejo possam comprar suas cotas. Uma vantagem do veículo é a possibilidade de existência de cotas com diferentes perfis de risco, ou seja, o investidor que prefere mais segurança pode comprar cotas seniores e os investidores mais tomadores de risco podem investir nas cotas mezaninos e juniores.Leia mais: Fundos de recebíveis começam ano com forte procura. Especialistas explicam motivosProblemas em sérieO problema nos EUA começou quando os investidores começaram a ficar receosos com a qualidade de crédito das carteiras dos fundos de “private credit” quando surgiram alguns problemas como foram a empresa de autopeças First Brands Group e a Tricolour Holdings. Na sequência, alguns grandes gestores fizeram marcações a mercado negativas em ativos das carteiras, muitos relacionadas a empresas de software cuja perenidade passou a ser questionada dada a evolução da inteligência artificial.As empresas de software são em média 20% das carteiras dos BDCs. Isso levou ao aumento dos pedidos de resgate dos BDCs não listados e mais necessidade de vendas forçadas de ativos e novas marcações a mercado negativas. O evento mais emblemático desta crise foi o fechamento para resgate de um dos BDCs da Blue Owl, levando seus BDCs listados e de outras gestoras a despencar.Leia mais: Investimento de pessoas físicas cresce 15,5% em 2025; CDBs lideram em volumeRisco menor no BrasilDaniela diz que não vê risco de o mesmo evento ocorrer no Brasil porque não há aqui uma indústria de fundos financiando pequenas e médias empresas tão representativo e nem uma concentração de financiadas de setores tão diretamente relacionados à disrupção da inteligência artificial. “A forma mais comum dos FIDCs financiarem pequenas e médias empresa no Brasil é por meio dos FIDCs multi-cedente/multi-sacados que participam do financiamento do capital de giro de empresas menores, com ticket médios baixos, carteiras muito pulverizadas e prazos muito curtos”, explica. Isso reduz bastante a exposição destes fundos a riscos mais estruturais de dinâmicas da economia.The post Mais fundos de crédito têm problemas nos EUA. Há risco no Brasil? appeared first on InfoMoney.