Depois de atingir o auge em 2025, quando 19 dos 20 clubes da Série A exibiam marcas de casas de aposta em seus uniformes, o Brasileirão de 2026 começou com um cenário diferente. O número de clubes patrocinados por empresas do segmento caiu cerca de 30%, ao menos neste início de temporada. Bahia, Coritiba, Grêmio, Internacional, Santos, Mirassol e Vasco romperam ou não renovaram seus acordos, reduzindo para 12 o total de times com patrocínio de bets na elite.A mudança ocorre exatamente no primeiro aniversário da regulamentação do setor, iniciada em janeiro de 2025. Desde então, as empresas passaram a pagar outorga e impostos específicos, que foram majorados de 12% para 18% no fim do ano passado. O ambiente regulatório, ainda em consolidação, trouxe novas obrigações e custos que impactaram diretamente o planejamento financeiro das companhias.Para especialistas, o movimento não representa necessariamente uma retração estrutural, mas sim um ajuste natural de mercado. “É um indício de que os investimentos vão ficar concentrados em menos empresas. Na prática, houve um investimento inicial grande de várias companhias, mas é um mercado que está se provando e passa por um processo de amadurecimento. Além disso, não podemos deixar de notar a insegurança jurídica em menos de um ano de mercado regulado, com aumento de imposto e outras complexidades regulatórias, o que cria fricção no negócio”, afirma Pietro Cardia Lorenzoni, diretor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias e sócio do escritório Betlaw.Da hegemonia estatal à era das betsEstudo da LCA Consulting, em parceria com o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável e a Associação Nacional de Jogos e Loterias, mostra como o perfil dos patrocinadores do futebol brasileiro mudou na última década. Até 2017, empresas estatais dominavam 80% dos patrocínios dos clubes. O índice caiu para 70% em 2018 e despencou para 10% em 2019.A virada começou a partir de 2018, quando as apostas online foram legalizadas no Brasil durante o governo de Michel Temer. Em paralelo, a crise econômica agravada pela pandemia entre 2020 e 2021 levou muitas empresas tradicionais a romper contratos. Naquele período, 30% das equipes estavam sem patrocinador máster e 25% já tinham parcerias com bets.O avanço foi progressivo: 50% dos clubes tinham casas de aposta como patrocinadoras em 2022, 60% em 2023 e 70% em 2024, até alcançar praticamente 100% em 2025, justamente no ano da regulamentação definitiva do setor. Pela primeira vez, nenhum clube da elite contava com patrocinador máster estatal.Mais concentração e novas propriedadesEm 2026, o cenário é de reorganização. A 7K, por exemplo, retirou seus patrocínios de Mirassol e Santos, mas manteve acordo com o Vitória e afirma ter redirecionado sua estratégia. “Chegamos ao primeiro ano da regulamentação com um cenário de melhor entendimento sobre a indústria, mas lidando com movimentos como o aumento da tributação, que não estava previsto e fez com que estratégias fossem repensadas. Ainda assim, os investimentos dentro do esporte sempre serão um ativo constante e valioso”, diz Gustavo Afonso Ribeiro e Lacerda, founder e conselheiro da Ana Gaming, holding que gere marcas como 7K Bet, Cassino Bet e Vera Bet.A empresa hoje é uma das principais patrocinadoras do Campeonato Paulista e segue investindo em propriedades diversas, além de acordos com embaixadores e presença em programas esportivos na TV e no digital. O Santos, por sua vez, está próximo de anunciar acordo com a Novibet. O Corinthians renovou contrato com a Esportes da Sorte com aumento, e o Flamengo mantém cifras recordes com a Betano como patrocinadora máster.Os números reforçam que não há fuga de capital, mas redistribuição. Segundo a LCA Consulting, os valores investidos em patrocínios na Série A saltaram de R$ 295 milhões em 2018 para mais de R$ 1,1 bilhão em 2025, crescimento quase dez vezes superior ao ponto de partida e acima da inflação acumulada no período, estimada em R$ 700 milhões.Publicidade e arrecadação bilionáriaA diversificação também passa pela mídia. Levantamento da Tunad aponta que a televisão brasileira recebeu R$ 24,5 bilhões em publicidade em 2025, sendo R$ 1,4 bilhão provenientes das bets. Do total investido pelo segmento, 85% concentrou-se na TV aberta.Ao mesmo tempo, a expectativa é de forte impacto fiscal. A LCA projeta que as casas de aposta devem gerar mais de R$ 9 bilhões em tributos em 2026. O mercado legalizado pode movimentar entre R$ 34,8 bilhões e R$ 36 bilhões até dezembro.Além das camisas, as empresas ampliam presença em outras propriedades. A Casa de Apostas, por exemplo, detém os naming rights de dois estádios de Copa do Mundo, a Arena Fonte Nova e a Arena das Dunas. “Existem muitas formas de exposição, com estratégias e alcances diferentes, que permitem ativações com públicos segmentados”, afirma Anderson Nunes, head de negócios da companhia.Para Leonardo Henrique Roscoe Bessa, consultor da OAB e sócio do Betlaw, o momento exige mudança de mentalidade. “A atual escalada de investimentos do mercado de apostas em publicidade é uma miragem de poder. A curto prazo, o dinheiro compra exposição. A longo prazo, apenas a integridade garante a permanência. Em um setor sob intenso escrutínio, a conformidade com a lei não é o freio, mas o motor da diferenciação.”No fim das contas, a queda no número de camisas estampadas não significa necessariamente menos dinheiro no futebol, mas sim um mercado que deixa a fase de expansão acelerada para entrar em um estágio de consolidação, com menos marcas, estratégias mais seletivas e foco maior em segurança jurídica e retorno de imagem.The post Por que bets mudaram estratégia e diminuíram investimento no Brasileirão appeared first on InfoMoney.