Bitcoin está em promoção ou estamos no prelúdio de mais calafrios?

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Fevereiro de 2026 chegou para o Bitcoin como uma segunda-feira de ressaca depois de um feriado prolongado. Após flertar com a estratosfera e atingir um pico de US$ 126 mil em outubro de 2025, a principal criptomoeda do mundo resolveu tirar férias no subsolo, despencando mais de 50% e sendo negociada abaixo dos US$ 63 mil. O mercado, que antes exalava a confiança de um leão, agora miava como um gatinho assustado, com o Índice de Medo e Ganância (Fear & Greed Index) atingindo a inédita e melancólica marca de 5, um nível de pânico que não se via nem em liquidação de Black Friday.Para o investidor, a pergunta que vale um milhão de satoshis é: estamos diante de uma daquelas promoções imperdíveis de fim de estação ou apenas do trailer de um inverno cripto ainda mais rigoroso?A resposta, como tudo no universo das criptomoedas, está longe de ser simples e se esconde em uma confluência de eventos macroeconômicos dignos de um roteiro de Hollywood, dados on-chain que contam a história secreta do dinheiro e, acredite se quiser, uma reviravolta regulatória com sotaque brasileiro.A tempestade perfeita do Tio SamSe o Bitcoin pegou um resfriado em fevereiro, a culpa pode ser atribuída a uma série de espirros vindos diretamente da economia americana. O Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, adotou uma postura mais dura, sinalizando que a era do dinheiro fácil e dos juros baixos poderia estar com os dias contados. A nomeação de Kevin Warsh, um conhecido “falcão” monetário que já descreveu cripto como “software fingindo ser dinheiro”, para uma posição de influência, foi como jogar um balde de água fria nas expectativas de liquidez abundante que tanto animam os mercados de risco.Como se não bastasse, o mercado presenciou uma verdadeira montanha-russa tarifária protagonizada pelo presidente dos EUA Donald Trump. Em um único dia, a Suprema Corte derrubou suas tarifas, o Bitcoin deu um breve suspiro de alívio e subiu 2%, apenas para Trump, horas depois, anunciar novas tarifas globais, fazendo o preço do ativo digital cair 5%. Essa volatilidade política reforçou a percepção de incerteza, levando investidores a fugir de ativos de maior risco.Para completar o cenário caótico, a tão falada correlação do Bitcoin com o mercado de ações, especialmente com as empresas de tecnologia, mostrou sua face mais cruel. Quando a gigante dos chips Nvidia divulgou seus resultados, o mercado reagiu com a empolgação de quem recebe uma conta de luz inesperada. As ações de tecnologia caíram, e o Bitcoin, como um fiel escudeiro, foi junto, caindo abaixo de US$ 67 mil e provando que sua tese de “ouro digital” descorrelacionado ainda tem um longo caminho a percorrer.A autópsia on-chain: o que os dados revelamEnquanto as notícias macroeconômicas pintavam o cenário externo, os dados on-chain, que funcionam como um raio-X da blockchain, revelavam a hemorragia interna. Um dos indicadores mais gritantes foi o chamado “Prêmio da Coinbase”, que mede a diferença de preço do Bitcoin na exchange americana (preferida por instituições) em relação a outras corretoras globais. Por 21 dias consecutivos, o prêmio esteve negativo, chegando a US$ 167 negativos, o que, em bom português, significa que as instituições americanas estavam vendendo agressivamente enquanto o resto do mundo tentava, bravamente, “comprar a queda”.Ao mesmo tempo, uma fuga de capital ocorria no mercado de stablecoins. Cerca de US$ 14 bilhões foram resgatados entre dezembro e fevereiro, indicando que os investidores não estavam apenas trocando Bitcoin por outros criptoativos, mas sim convertendo seus ativos digitais em dólares e saindo do ecossistema. A festa do “dinheiro infinito” parecia ter acabado, e os hedge funds, que antes se deliciavam com o “basis trade” (uma estratégia de arbitragem que rendia até 17% ao ano), viram seus lucros evaporarem para menos de 5% e, sem cerimônia, foram embora.O Brasil entra em campoE quando todos os olhos estavam voltados para o drama americano, o Brasil, de forma inesperada, roubou a cena com um movimento que pode mudar o jogo para o mercado cripto local. Em fevereiro, entrou em vigor o marco regulatório do Banco Central para o setor. A nova regra, entre outras coisas, obriga as exchanges a separarem o patrimônio da empresa dos fundos dos clientes – uma medida de segurança crucial para evitar desastres como o da FTX.Além disso, a regulação equiparou as transações com stablecoins a operações de câmbio e impôs às empresas de criptoativos as mesmas obrigações de sigilo que os bancos tradicionais. E, para colocar mais pimenta na discussão, o governo começou a estudar a aplicação de uma alíquota de 3,5% de IOF sobre a compra de criptomoedas, numa tentativa de frear a “dolarização” informal da economia através desses ativos. Leia também: Setor cripto critica proposta de IOF de 3,5%: “Pior imposto que existe”Embora essa notícia não tenha movido o preço global do Bitcoin, ela representa uma mudança fundamental na forma como o quinto maior mercado de cripto do mundo (segundo a Chainalysis) irá operar, trazendo mais maturidade, mas também custos e complexidade.Afinal, chegamos ao fundo do poço?Com o Bitcoin sendo negociado a preços que não se viam há mais de um ano, a tentação de “encher o carrinho” é grande. E há argumentos para isso. Dados on-chain mostram que, apesar do pânico, as “baleias” (grandes detentores de Bitcoin) estão acumulando discretamente, um comportamento historicamente associado a fundos de mercado. Métricas como o percentual em lucro indicam que uma grande parte dos detentores está no prejuízo, um cenário que muitas vezes precede uma reversão de tendência.Percentual de carteiras de Bitcoin no lucro (Fonte: Glassnode)No entanto, a prudência manda ter uma dúvida saudável. A saída maciça de capital institucional, o fim do basis trade e a alta correlação com um mercado de ações instável são fatores que não podem ser ignorados. O analista James Check, da Glassnode, sugere que, embora um fundo pareça estar se formando, o processo pode envolver meses de uma tediosa consolidação lateral.Sobre o autorAndré Franco é CEO da casa de análises cripto Boost Research e colunista do Portal do Bitcoin. Analista de criptoativos desde 2017, Franco possui vasta experiência no mercado e já atuou como diretor de Research do MB | Mercado Bitcoin.O post Bitcoin está em promoção ou estamos no prelúdio de mais calafrios? apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.