God of War: Kratos brasileiro fala sobre memes e participação da mãe em dublagem

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Se você conhece God of War, com certeza já deu de cara com alguma das falas icônicas da fandublagem do primeiro jogo da franquia que viralizou na internet recentemente. Com frases icônicas que vão desde um contido “Vamos, homens” até um sentimental “Meu Deus, o que eu fiz”, a versão brasileira de Kratos virou sensação entre os gamers em fevereiro de 2026.No entanto, a trajetória do deus da guerra verde e amarelo vai muito além do meme. Na verdade, tudo começou em 1999, com Legacy of Kain e alguns amigos do trabalho que gostariam de ver mais jogos localizados em português brasileiro.Quem é a voz por trás do Kratos brasileiro?Quem deu vida ao Kratos brasileiro na dublagem de God of War de PS2 foi J.Junior, trabalhador autônomo que mora em Araçariguama, interior de São Paulo. Hoje com 48 anos, ele começou a lidar com dublagens quando a internet “ainda era mato”.Ao conversar com um amigo do trabalho, ele notou que jogos de PC podiam receber modificações para localizar a experiência para o público brasileiro, seja com legendas ou outros elementos, como trilha sonora local. Disso, veio uma fagulha: e se jogos de consoles, como o PS1, também recebessem esse tipo de conteúdo?Junior, dublador de Kratos, e outros membros da STR Brasil que fizeram a dublagem de God of War 1. A equipe também inclui Terezinha, mãe do fandublador.Em 1999, Junior deu os primeiros passos nesse mundo com Legacy of Kain: Soul Reaver, com o auxílio do programador Cassiano Vargas e uma equipe que foi crescendo nos próximos anos. Com o auxílio de fóruns online e o saudoso Orkut, nasceu a STR Brasil (sigla para Sistema de Tradução Radical), o grupo que realizou a dublagem de God of War 1 que ganhou o coração da internet brasileira.As dublagens antes de KratosAntes de chegar no deus da guerra, no entanto, o time fez muitos outros trabalhos, uma vez que dublar um jogo inteiro não é tarefa fácil. Afinal, modificar um game no começo dos anos 2000 exigia o desenvolvimento de ferramentas para acessar arquivos e o envio de mídias, como gravações, em uma internet lenta. Assim como grandes estúdios de games, o time da STR compartimentou o trabalho: enquanto fazia um grande projeto, trabalhava paralelamente em outras empreitadas menores.Desde os anos 90, Junior e seus colegas já fizeram diversos trabalhos de modificações, seguindo a linha do tempo abaixo:Em 1999, Junior e seus colegas começaram a trabalhar em modificações para Legacy of Kain: Soul Reaver, de PS1.A primeira dublagem do time começou em 2000, com Silent Hill de PS1, e demorou três anos para ficar pronta.Enquanto faziam a parte técnica de Silent Hill, o time seguia trabalhando em outras adaptações, como Ultraman e Tekken 3, que recebeu trilha sonora brasileira e narração dublada.O time também fez a dublagem de Resident Evil 1, que foi lançada em 2004 como primeiro trabalho sob o nome STR Brasil (sigla para Sistema de Tradução Radical)Após Resident Evil, mais pessoas entraram para a equipe, o que abriu portas para explorar o PS2 e dublar Shadow of the Colossus.A dublagem de God of War começou logo após o trabalho em Shadow of the Colossus, com uma demo saindo em 2013. Segundo Junior, essa é a versão que mais ficou popular do trabalho, que demorou para ser finalizado.A dublagem completa de God of War só foi lançada, em definitivo, no ano de 2018, mas o sucesso da demo já colocou o trabalho da STR Games na boca do povo. Segundo Junior, o lançamento completo foi arrastado por causa de problemas enfrentados pela equipe, incluindo uma falha em um HD que quase fez com que todo o conteúdo fosse perdido. Pois é, a dublagem que hoje faz a alegria de muitas pessoas na internet quase não viu a luz do dia.Dublagem feita por fãs ganhou atualização em 2026 com modo que inclui censura de palavrões. No fim das contas, a galera superou os obstáculos e a dublagem ganhou vida. Inclusive, uma atualização foi lançada agora em fevereiro, trazendo melhorias e um modo com censura para a versão em português brasileiro. “Até crianças podem jogar”, comenta o responsável pela voz de Kratos.O elenco improvisado de dublagemAlém da parte técnica trabalhosa, outro fator que fazia parte da rotina das dublagens de jogos da STR era a falta de um elenco fixo. Em diversos casos, Junior fazia grande parte das vozes masculinas, que recebiam filtros para diferenciação no tom. “Eu pedia para os meus primos gravarem também”.No entanto, um nome que chama a atenção nos créditos das fandublagens é “Terezinha”. Com certa frequência, a mãe de Junior também participava das adaptações de jogos para português brasileiro.A mãe de Junior também participava das adaptações de jogos para português brasileiro.Antes de a dublagem de games se popularizar no país, Terezinha deu sua voz para personagens em Silent Hill, Resident Evil e também em God of War, onde deu voz para Gaia. “Trouxemos ela pra variar a voz com a outra dubladora, a Vera, que fez a Atena”, explica Junior.Hoje na casa dos 75 anos, Terezinha não empresta mais sua voz para personagens de games, mas deixou seu legado na cultura gamer brasileira e segue acompanhando o trabalho do filho e dos amigos. “Ela sempre acompanhas as lives que fazemos e fica feliz com o reconhecimento”.As falas contidas de um Kratos que não podia gritarOutro ponto que chama a atenção na dublagem da STR Games é o tom de voz de Kratos. Enquanto o deus da guerra do PS2 é bastante escandaloso, a dublagem de J.Junior é mais contida – e existe um motivo para isso.O fandublador conta que gravou todas as falas do jogo em cerca de 15 dias, em um momento em que a rotina estava bastante corrida. Por causa disso, ele sempre fazia as capturas de áudio durante a noite, e não podia gritar para evitar que outras pessoas em sua casa acordassem. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Voxel (@voxeloficial)“Eu chegava a noite, tomava aquele banho, jantava, assistia alguma coisa e depois ia gravar”, conta Junior. “Todas as falas do Kratos são gritando. Quando ele não tá sem fôlego, está sempre praguejando”.Segundo Junior, tudo foi combinado com o pessoal responsável pela técnica: o dublador gravou as falas em tom brando e tudo seria melhorado na edição, que já ia aplicar filtros para diferenciar a voz de outros personagens. No entanto, a pós-produção não foi suficiente para deixar a voz tão estridente quanto o esperado para o deus da guerra, que viralizou na internet.Segundo Junior, ele não acompanha muito as redes sociais para sentir, pessoalmente, o impacto da viralização. “No geral, para nós, está tranquilo, mas é uma febre”, disse o dublador, indicando que a onda de sucesso do meme deve passar em breve.Jogar a versão dublada é pirataria?Enquanto a produção da dublagem era bastante improvisada, o time da STR Games sempre teve bastante cuidado na distribuição do conteúdo para evitar qualquer problema legal com empresas como a Sony. Junior conta que a equipe teve vários “mestres” de fóruns antigos dos anos 90 que ensinaram as melhores formas de lidar com esse tipo de situação.“Nós distribuímos tudo via patches, também chamados de modificações, apenas adicionando conteúdos extras em jogos”, explica Junior. “O jogador precisa ter o conteúdo original pra aplicar”.As modificações são distribuídas pelo time por meio de um blog e compartilhadas em redes sociais, bem como em um grupo do Discord. No entanto, como de praxe na internet, alguns usuários já integraram a modificação nativamente em ROMs que estão rodando a internet, sem a participação direta dos dubladores.Segundo Junior, desde que ele começou a modificar jogos lá nos anos 90, um pacto foi firmado com seus colegas: sempre fazer um trabalho de fã para fã, sem fins lucrativos. Ou seja, se você encontrar God of War dublado sendo vendido por aí, a voz de Kratos garante que a STR não tem qualquer ligação com a distribuição de cópias ilegais.O dublador do Kratos ainda segue fazendo vozes de personagens?Desde o início dos anos 90, a indústria dos games mudou bastante. Atualmente, grandes jogos já contam com dublagem em português brasileiro, enquanto as plataformas estão cada vez mais fechadas.Por causa disso, o trabalho da STR desacelerou, com o time produzindo cada vez menos dublagens. Um dos últimos trabalhos realizados pela equipe ocorreu no ano passado, com patch em parceria com streamers.Ainda assim, o grupo do Discord da equipe segue movimentado, recebendo novos entusiastas de modificações e fandublagem até hoje. Afinal, o trabalho não para: o time técnico segue movimentado e promete novidades para fãs de jogos do PS2 em breve.Quanto ao dublador de Kratos, ele segue incentivando a nova geração, mas está cada vez mais afastado do trabalho de voz. Ainda assim, quando perguntei qual jogo ele sonhava em dublar, Junior não hesitou em voltar no tempo e dizer que adoraria dar voz para Legacy of Kain: Defiance, fechando um ciclo de dublagens de mais de duas décadas.Curiosamente, uma versão remasterizada de Legacy of Kain: Defiance chega no dia 3 de março e, segundo a Steam, contará com vozes em português brasileiro. Agora é esperar para ver se o icônico Kratos brasileiro vai aprovar o trabalho de localização feiro pela Crystal Dynamics.E aí, o que você achou da história por trás do meme do “Kratos brasileiro”? Comente sua opinião!