As ações argentinas estão ficando de fora de uma disparada dos mercados acionários da América Latina neste ano, à medida que o entusiasmo anterior do mercado com as vitórias eleitorais do presidente Javier Milei se dissipa em meio a resultados corporativos fracos.Depois de um forte rali das ações após o bom desempenho de Milei nas eleições de meio de mandato em outubro, o índice de referência Merval estabilizou e depois caiu 8% neste ano. Em contraste, o índice MSCI América Latina subiu mais de 20% no mesmo período — seu melhor início de ano desde 1994.Leia tambémWEG vê margem em 2026 na média dos últimos anos com pressão do câmbio e exteriorEm 2025, a WEG teve um crescimento geral de receita operacional líquida de 7,4%Investidores têm elogiado Milei por cortar gastos fiscais e desacelerar a inflação galopante da Argentina, mas esses avanços ainda não se traduziram em uma alta sustentada dos lucros. Embora a economia tenha saído da recessão de 2024, o crescimento não ganhou tração suficiente para alimentar um ciclo robusto de resultados — um desafio para ações que já negociam a múltiplos considerados caros, dizem analistas.“As ações precisam de evidências claras de uma segunda fase — crescimento econômico sustentado, recuperação de lucros e maior previsibilidade regulatória”, disse Carolina Volman, chefe de pesquisa de renda variável e corporate na corretora One618. “A bolsa ainda está esperando o surgimento de um ciclo de crescimento que possa sustentar uma expansão mais duradoura dos múltiplos.”Até mesmo o bilionário Stanley Druckenmiller — que elogiou Milei na CNBC no início do mandato — encerrou a posição de seu Duquesne Family Office em um dos principais ETFs de ações argentinas depois que o fundo atingiu máxima histórica, realocando capital para o Brasil.Resultados mistosOs lucros corporativos foram afetados pela volatilidade financeira na Argentina no ano passado, agravada por preços mais baixos das commodities. A turbulência às vésperas das eleições de outubro levou os bancos de capital aberto aos piores resultados desde a pandemia, com grandes instituições como Grupo Financiero Galicia e Banco Macro registrando prejuízos no terceiro trimestre do ano. Ao mesmo tempo, a taxa de inadimplência no país subiu ao maior nível em pelo menos 15 anos, em meio a uma forte retração do crédito.Mesmo as empresas de energia — principais beneficiárias do novo modelo de crescimento voltado à exportação defendido por Milei — apresentaram resultados mistos. A estatal YPF registrou pequeno prejuízo no terceiro trimestre, em meio à queda dos preços globais do petróleo, enquanto a Pampa Energía reportou uma queda de cerca de 50% no lucro nos primeiros nove meses de 2025.O fraco desempenho dos resultados corporativos parece ter se estendido ao quarto trimestre. O Macro divulgou queda de 26% no lucro líquido na comparação anual para o período de três meses, bem abaixo das estimativas dos analistas. A produtora de petróleo e gás Vista Energy, um dos principais nomes na exploração da formação de Vaca Muerta, reportou recuo de 8,6% no lucro trimestral na base anual, com as ações caindo 3,5% na abertura do pregão.Até mesmo os papéis da MercadoLibre Inc., empresa fundada na Argentina e uma das maiores companhias abertas da América Latina, tiveram na quarta-feira a maior queda intradiária desde 2024, depois que o lucro líquido do quarto trimestre ficou abaixo das projeções dos analistas. As ações também recuavam na quinta-feira.“O mercado andou de forma muito agressiva depois das eleições de meio de mandato, e as avaliações ficaram um pouco esticadas demais no fim do ano passado”, disse Ola El‑Shawarby, gestora de portfólio de mercados emergentes na VanEck.As companhias do índice Merval são negociadas a um múltiplo preço/lucro (P/L) futuro de 19,8 vezes, acima das 13,4 vezes do Ibovespa no Brasil, 15,6 vezes do IPSA no Chile e 15,9 vezes do BMV no México, segundo dados compilados pela Bloomberg.As empresas argentinas já não estão “particularmente baratas”, disse Ezequiel Fernández, chefe de pesquisa corporativa na Balanz. “Validar esses valuations exige confiança de que os lucros vão crescer fortemente neste ano.”Isso manteve o foco do mercado nos resultados do quarto trimestre — que começaram a ser divulgados nesta semana — e nas perspectivas para o crescimento econômico. No segundo ponto, o cenário não é animador.A economia deve crescer 2% em 2026, abaixo da estimativa anterior de 3,2%, à medida que a Argentina entra no ano com um “ritmo mais lento”, segundo a Bloomberg Economics. Esse pessimismo persistiu mesmo após uma retomada do crescimento em dezembro.O que diz a Bloomberg Economics…“Dados recentes colocaram em dúvida as perspectivas da Argentina para 2026. Agora esperamos que a economia cresça 2% neste ano, abaixo da estimativa anterior de 3,2%. Isso provavelmente limitará o potencial de alta das ações, mas pode não pesar tanto sobre os títulos. Em nossa visão, o principal risco de mercado é se a desaceleração abalar o ambiente político ou tirar a agenda de políticas do governo do rumo.”— Jimena Zuniga, analista de geoeconomia da América LatinaPara contrabalançar o crescimento fraco, o governo está propondo incentivos fiscais para atrair investimento estrangeiro e legislações desenhadas para incentivar argentinos a trazer recursos não declarados para a economia formal. O governo também está perto de garantir a aprovação no Congresso do projeto de reforma trabalhista emblemático de Milei, que flexibilizaria as notoriamente rígidas regras de contratação e demissão.Fluxos estrangeirosMas há também fatores especificamente de mercado pesando sobre as ações argentinas.Os mercados emergentes atraíram mais de US$ 50 bilhões em fluxos positivos no acumulado do ano, o período mais forte em anos, segundo El‑Shawarby, da VanEck. Grande parte desse capital foi para ETFs que replicam a composição dos índices de referência, favorecendo mercados maiores e mais líquidos como Brasil e México.O mercado acionário argentino permanece pequeno em relação aos pares regionais e relativamente ilíquido, o que limita sua capacidade de absorver grandes alocações passivas. Sua exclusão dos principais índices globais reforça essa restrição.Um possível gatilho seria uma reclassificação pela MSCI, o que provavelmente exigiria a remoção, no longo prazo, dos controles de capitais e maior acesso para investidores estrangeiros.Os fluxos líquidos para o ETF MSCI Argentina somaram cerca de US$ 630 milhões em 2024, o maior volume anual em mais de uma década, à medida que o esforço de estabilização de Milei impulsionou um rali concentrado no início do ciclo. Mas o ímpeto se mostrou difícil de sustentar. Cerca de US$ 200 milhões saíram do fundo em 2025, e as saídas não foram totalmente revertidas nem mesmo após a vitória de Milei nas eleições de meio de mandato, que voltou a puxar as cotações.A remoção dos controles de capitais — passo-chave para uma possível reinclusão nos principais índices de mercados emergentes — ainda parece distante, segundo analistas.“Continuamos positivos com as ações locais”, disse Fernández, “mas isso pode exigir um pouco mais de paciência do que imaginávamos anteriormente.”© 2026 Bloomberg L.P.The post Ações argentinas ficam para trás em rali de mercados da América Latina appeared first on InfoMoney.