Mesmo pessoas que trabalham há décadas com psicologia podem se sentir intelectualmente frustradas quando confrontadas com uma pergunta aparentemente simplista, para a qual não têm uma resposta que dê conta de abranger a complexidade real da questão.Indagada sobre o segredo da felicidade em um programa de TV, a pesquisadora Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Califórnia, em Riverside (EUA), achou a pergunta, “ridícula, redutora e restritiva”. Quando comentou o fato com seu amigo, Harry Reis, professor de psicologia da Universidade de Rochester, ele deu uma resposta reveladora. Leia Mais "Mankeeping": entenda sobrecarga feminina ao cuidar das emoções dos homens Empatia: o ato invisível que move o mundo 51% dos solteiros usam apps de relacionamento para inflar ego, diz pesquisa “Conheço pessoas que são felizes e conheço pessoas que são infelizes, e posso dizer qual é a principal diferença entre elas: as pessoas felizes se sentem amadas”, afirmou o especialista em relacionamentos, segundo um comunicado da URochester.Genuína e simples, a observação empírica resultante de mais de 50 anos de pesquisa foi o ponto de partida do livro “How to feel loved” (“Como se sentir amado”, em tradução livre), publicado recentemente nos Estados Unidos e ainda sem edição brasileira. Combinando pesquisas sobre felicidade e conexões humanas, a obra oferece uma dica: “se você não se sente amado, talvez esteja procurando na direção errada”.Pode ser que o problema não esteja na falta de amor, argumentam os autores. É que muitas pessoas simplesmente não conseguem se sentir amadas, ainda que sejam. Nessa capacidade de distinguir entre ser amado e sentir-se amado, há uma sutileza que faz toda a diferença na experiência da felicidade humana.A gangorra dos relacionamentos e cinco mentalidades para interagirA gangorra dos relacionamentos: quando elevamos a outra pessoa, ela fica acima linha d’água e revela segredos desconhecidos • Universidade de Rochester/Divulgação“Muitas pessoas acreditam que, para se sentirem amadas, precisam se tornar mais amáveis”, diz Reis. E pensam que, tornando-se mais impressionantes, atraentes ou bem-sucedidas, serão dignas de ser amadas. Mas o livro inverte essa perspectiva: não se trata de “polir a superfície”, dizem os autores, mas sim de construir uma conexão real.Para explicar como esse vínculo funciona, Reis e Lyubomirsky recorrem à metáfora de uma gangorra (see-saw em inglês) de relacionamento, onde mudam propositalmente a grafia para sea-saw para indicar que essa gangorra fica submersa no mar. Quando elevamos a outra pessoa, ela fica acima da linha d’água e revela partes antes ocultas.Para Reis, o próprio ato de prestar atenção e demonstrar cuidado gera impulso. Sentindo-se elevada e vista, a outra pessoa naturalmente retribui, levantando-nos também acima da linha imaginária da água. Cria-se um ciclo de responsabilidade mútua, onde elevar o outro faz com que ambos se revelem progressivamente.Para chegar a esse estágio, o livro não fornece um passo a passo, mas cinco formas de pensar e se comportar nos relacionamentos. A primeira — Mentalidade de Compartilhamento — significa deixar os outros verem o seu verdadeiro eu. Já as Mentalidades de Ouvir para Aprender e de Curiosidade Radical envolvem ouvir com o objetivo de realmente entender o outro, sem emitir opiniões.A curiosidade genuína, por sua vez, depende da Mentalidade de Coração Aberto, que é se importar de verdade com o outro. Por fim, a Mentalidade da Multiplicidade demanda uma abordagem não julgadora. “Todos temos pontos fortes e todos temos momentos embaraçosos e fraquezas”, resume Reis.Empatia e atenção de IA não é amorEmbora IAs expressem empatia e compreensão, elas não são capazes de amar • FreepikAntes que você decida “mergulhar” nas cinco mentalidades para se conectar genuinamente, alerta Reis em um comunicado, é preciso saber que mesmo pequenas distrações podem prejudicar a atenção plena. Ele diz que, em um estudo, o simples fato de ter um celular sobre a mesa — sem tocá-lo — tornou as conversas menos satisfatórias.A verdade é que “estamos sempre atentos para ver que sinais são transmitidos”, explica o especialista em relacionamentos. E conclui: “Quando vejo seus olhos desviando para o celular, sinto que você não está 100% envolvido”. A coisa piora em conversas online, quando pessoas realizam múltiplas tarefas durante videochamadas.Em um cenário onde as próprias conexões humanas já ocorrem predominantemente por tela, recorrer a chatbots parece uma progressão natural. Afinal, essas inteligências artificiais são notavelmente eficientes em expressar empatia e compreensão, conseguindo suprir de forma eficaz até mesmo a necessidade de conexão emocional e social.Contudo, Reis identifica um limite claro: “o problema é que os chatbots não conseguem realmente amar”. Ele compara esses grandes modelos de linguagem a uma barra de chocolate, que sacia a fome por um tempo, mas não fornece nutrição. Isso é bem diferente dos relacionamentos reais, que demandam reciprocidade — e até uma dose de desconforto.Na vida real, parceiros estão sempre reclamando e fazendo exigências. Esses momentos tipicamente humanos são os que fazem os relacionamentos crescerem. Ou seja, o que diferencia o amor humano da sua imitação digital é a escolha, diz Reis. É quando a outra pessoa resolve nos amar que nos tornamos mais felizes, saudáveis, produtivos e bem-sucedidas, conclui.Lançado pela editora Harper nos EUA em fevereiro de 2026, o livro “How to feel loved: the five mindsets that get you more of what matters most”, que ainda não tem data de lançamento prevista para o Brasil.Millennials são os mais satisfeitos com a vida amorosa