Se antes pensávamos que o conceito “energia de dobra” (warp drive) — que permitiria que espaçonaves viajassem a velocidades aparentemente superiores à luz — era exclusivo do campo da ficção científica, agora sabemos que a tecnologia tem um nome já estabelecido na física quântica: trata-se da “energia de vácuo ilimitada”.Embora, no senso comum, o vácuo signifique “nada”, na física quântica, ele não é realmente vazio, mas ferve de flutuações de energia, com partículas virtuais aparecendo e desaparecendo constantemente. Em 2020, quando analisava essas densidades energéticas para a agência Darpa, do Departamento de Defesa dos EUA, o físico Harold ‘Sonny’ White fez uma descoberta curiosa. Leia mais Hidrogel reduz aquecimento e aumenta em 13% a eficiência de painéis solares Seedance 2.0, a nova IA da China que assustou Hollywood Dilemas sobre IA: de ferramenta revolucionária à tecnologia superestimada Enquanto sua equipe realizava análises numéricas em dispositivos experimentais conhecidos como “cavidades de Casimir”, ele identificou uma estrutura que gerava uma distribuição de energia negativa correspondente àquela da bolha de dobra (warp bubble), conceito popular em “Star Trek”, mas que ganhou base científica em 1994 com o físico Miguel Alcubierre.A ideia central é a seguinte: apesar de a teoria da relatividade de Einstein dizer que nada pode viajar mais rápido que a luz, ela não proíbe que o próprio espaço-tempo se expanda ou contraia mais rápido que a luz — e isso é exatamente o que o famoso pesquisador mexicano explorou.Uma bolha de warp seria uma região do espaço-tempo que você criaria ao redor de sua nave, produzida pelos equipamentos de energia exótica que ela carrega. Nesse modelo, a nave não se move por força própria: é o espaço atrás dela que se expande, como se “empurrado” para longe, enquanto, na frente, o espaço se contrai e se aproxima da nave. Dentro da bolha, a física funciona normalmente.De carona na Enterprise: demonstrando matematicamente o motor de dobraNo modelo de Alcubierre, a nave poderia alcançar velocidades superluminais sem violar a teoria da relatividade geral • Star Trek’s USS Discovery/CBS/DivulgaçãoApós se graduar em Física pela Universidade Nacional Autônoma do México, Miguel Alcubierre foi para o País de Gales, onde fez seu doutorado. Ele reconhece que produziu o seu famoso artigo sobre o motor de dobra, enquanto assistia na TV ao Sr. Sulu ativando a warp speed na nave Enterprise.Usando esse conceito fictício, Alcubierre conseguiu demonstrar matematicamente que uma nave poderia alcançar velocidades superluminais (acima da velocidade da luz) sem violar a teoria da relatividade geral de Einstein, desde que o espaço ao seu redor fosse dobrado de maneira controlada.A elegância da proposta está em um detalhe fundamental: dentro da bolha, nada se move mais rápido que a luz. É o próprio espaço-tempo que se desloca, como uma esteira rolante cósmica que carrega a nave sem que ela precise de propulsão convencional. Com isso, o modelo continua respeitando os princípios da relatividade geral.O grande problema do artigo, publicado na revista Classical and Quantum Gravity, é que sustentar essa bolha exigiria quantidades absurdas de energia negativa. Alcubierre estimou que seria preciso converter em energia negativa uma massa equivalente a 100 vezes o planeta Júpiter — algo que torna o projeto, por ora, puramente teórico, ainda que matematicamente consistente.Embora os resultados práticos estejam a séculos de distância, ferramentas teóricas como essa representam uma aceleração importante no ciclo de pesquisa. Nesse sentido, o físico Alexey Bobrick e o empresário Gianni Martire, desenvolveram inclusive um app capaz de simular e validar matematicamente as métricas de warp em segundos, algo que levava meses.Projetos fantásticos e pouco investimento: o dilema da físicaMatemática do motor warp reconhecida por Harold Sonny White, por acaso, nos dados das cavidades de Casimir • Trekky0623/English WikipediaMas Bobrick e Martire não se limitaram a criar o simulador público que permite a qualquer cientista testar suas equações de warp. Eles também publicaram o seu próprio artigo propondo resolver o problema da viagem superluminal aos poucos. Eles propõem propulsores subliminares de dobra, ou seja, que dobram o espaço-tempo, mas viajam abaixo da velocidade da luz.Como não é possível testar fisicamente quanta força gravitacional é necessária para distorcer o espaço-tempo, a dupla voltou à carga em 2023 com outra solução criativa: um buraco negro simulado em laboratório, usando ondas sonoras e glicerina, testado com um feixe de laser.Por mais fantásticas que essas buscas pelo transporte interestelar possam parecer — mesmo matematicamente coerentes — elas esbarram em um desafio terrestre urgente: a dificuldade da ciência em lidar com metas de ultralongo prazo. Grande parte do progresso atual provém de pesquisadores independentes sem financiamento direto ou de descobertas por acaso, como a do Dr. White.A dinâmica reflete o que a física e youtuber Sabine Hossenfelder, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados de Frankfurt, considera uma estagnação de décadas. Mesmo reconhecendo a propulsão de dobra está a milênios de qualquer aplicação prática, ela reconhece que a escassez de recursos para ideias arriscadas é um problema que atravessa toda a física fundamental.Contudo, esse horizonte distante não abala os cientistas envolvidos. Dr. White compara o esforço atual à construção da Catedral de Estrasburgo, cujos pedreiros que ergueram a fundação jamais viram a torre final, 424 anos depois. “Não tenho bola de cristal” — afirmou à Popular Mechanics, “mas sei exatamente o que preciso fazer agora”.Seu artigo, publicado na revista The European Physical Journal C, foi o ponto de partida para um debate que continua agitando a física teórica mundial.Nave tira foto da Terra e da Lua lado a lado vistas do espaço; veja