A inteligência artificial (IA) deixou de ser promessa para se tornar marco de transformação no mercado de advisory (assessoria de investimentos) brasileiro. A ampliação do uso da tecnologia tem exposto um problema antigo: grande parte dos profissionais ainda trabalha sem acesso ao quadro completo do patrimônio do cliente. Para especialistas, isso compromete diretamente a qualidade das recomendações.Descubra o novo modelo de remuneração para assessores XP“Quando o advisor não tem visão consolidada, ele toma decisões com base em fragmentos”, afirma Guilherme Assis, cofundador e CEO da empresa brasileira Gorila. “É como um médico interpretando só metade dos exames.”A consolidação multicustódia — historicamente um obstáculo — tornou-se peça central da personalização avançada. Segundo Assis, a IA inaugura uma mudança de lógica: o profissional deixa de navegar por telas e planilhas e passa a consultar a informação em linguagem natural. Com isso, o tempo dedicado à busca de dados cai, enquanto análises contextualizadas ganham espaço.Normas como o Open Finance e a CVM 209 têm acelerado essa transição ao ampliar o acesso a dados antes dispersos. “Estamos migrando da era do dado para a era do insight”, resume Assis.Veja mais: Como conquistar clientes de alta renda: Erich Shibata, da Cimed, revela caminhosE também: XP abre 150 vagas para assessor de investimentos; veja como concorrerFragmentação cultural e mudança regulatóriaMesmo com avanços tecnológicos, a fragmentação do atendimento permanece evidente. Muitos advisors ainda formulam recomendações olhando apenas para a carteira sob sua gestão direta, o que gera sobreposição de ativos, avaliação incompleta de risco e falta de visão tributária integrada. Especialistas afirmam que o problema é, em grande parte, cultural: a indústria brasileira foi construída ao redor do produto, não da pessoa.“A fragmentação é um vício histórico, e o investidor já não aceita relatórios que contam só metade da história”, diz Assis. A dependência de PDFs, planilhas e informações enviadas por WhatsApp mantém boa parte do mercado presa a práticas manuais e difíceis de escalar.Mudanças regulatórias têm impulsionado a transição para modelos mais transparentes. Normas como a CVM 178 e 179 estimulam a migração para estruturas fee-based, aproximando o Brasil de modelos internacionais. Nos Estados Unidos, consultorias estruturadas de maneira semelhante aos RIAs lideram a adoção de IA.“Quando a remuneração depende da qualidade do serviço, qualquer ferramenta que melhore essa entrega é rapidamente incorporada”, afirma o executivo.Leia tambémLula se reúne com primeiro-ministro da Croácia e discute acordo Mercosul-UEA Secom informou que ambos os líderes também conversaram sobre “temas relacionados à paz e à segurança”Trump retira tropas da Síria e aposta em governo al-Sharaa contra o Estado IslâmicoCom cerca de 1.000 soldados deixando o país, Washington concede alívio de sanções a Damasco em troca de cooperação, mesmo com o EI ainda ativo em território sírioO desafio central e o papel da IA no relacionamentoO maior obstáculo para a evolução do advisory segue sendo a incapacidade de enxergar o cliente como um todo. Sem consolidação real, decisões como rebalanceamento, análise tributária e avaliação de risco ficam comprometidas. Exposições invisíveis — como concentração setorial e duration excessiva — se tornam frequentes no mercado brasileiro.“Quando você consolida, calcula e explica, a conversa com o cliente muda de patamar”, afirma Assis. Ele reforça que a IA não substitui o relacionamento humano — ao contrário, o aprofunda. Ao assumir tarefas operacionais, como consolidação e monitoramento, a tecnologia devolve tempo ao profissional.Experiências internacionais — de casas como BlackRock, Morgan Stanley e a israelense Personetics — reforçam essa percepção: a tecnologia qualifica o contato humano, permitindo conversas mais estratégicas e menos transacionais.“O advisor deixa de ser um minerador de dados e vira um curador de decisões”, resume o CEO.Como uma consultoria de Juiz de Fora atraiu um milhão de alunos e R$1 bi sob custódiaComo a IA redesenhou a gestão de investimentos: “não é mais opção, é obrigação”A maturidade da IA e a chegada do “super-advisor”A adoção plena da IA ainda esbarra em desafios estruturais, como dados despadronizados, baixa maturidade tecnológica e dificuldade de incorporar novas rotinas. Assis cita um dado da pesquisa conduzida pelo Massachusetts Institute of Technology: 95% dos pilotos de IA fracassam não por falhas técnicas, mas por falta de integração com processos existentes.Para o setor, a função do advisor caminha para um novo perfil: menos transacional e mais estratégico. A tendência é o surgimento do “super-advisor”, profissional apoiado por IA capaz de atender mais clientes com maior profundidade, oferecendo contexto, previsibilidade e personalização.“Nada substitui empatia e capacidade de traduzir dados em decisões de vida”, diz Assis. “A IA amplifica essas habilidades — não concorre com elas.”O investidor, por sua vez, tornou-se mais exigente. Ele busca visão consolidada, análises contextualizadas e explicações claras sobre o que acontece com sua carteira. Depois de experimentar interfaces conversacionais, poucos aceitam voltar ao relatório estático mensal.Entre clientes corporativos do Gorila, efeitos já são perceptíveis: conversas mais estratégicas, maior engajamento, redução de erros de alocação e aumento de retenção. “Uma vez que o investidor passa a enxergar o todo, dificilmente volta atrás”, afirma o executivo.The post Consolidação multicustódia: como a IA pode driblar obstáculo histórico de assessores appeared first on InfoMoney.