Enquanto o Rio Ubá transbordava e levava caixões pelo Centro histórico da cidade, a Policlínica Regional, o Centro de Especialidades Odontológicas e a unidade de saúde de atenção primária fechavam as portas com as paredes tomadas pela lama. São os mesmos equipamentos para os quais nove deputados federais destinaram, ao longo de 2025, R$ 10,2 milhões em emendas parlamentares. Um levantamento exclusivo da Jovem Pan com dados do Portal da Transparência do Governo Federal revela que Ubá recebeu, só no ano passado, R$ 14,3 milhões em emendas — e nenhum real foi carimbado para drenagem, contenção de encostas ou infraestrutura hídrica.A tragédia climática que atingiu a Zona da Mata mineira entre a noite de segunda-feira (23) e a madrugada de terça (24) deixou ao menos 30 mortos em Juiz de Fora e Ubá, segundo o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. Em Ubá, a Defesa Civil registrou 170 milímetros de chuva em apenas três horas — a maior inundação dos últimos anos. O Rio Ubá atingiu 7,82 metros, transbordou e alagou extensas áreas urbanas. Carros foram arrastados. Casas desabaram. Vídeos que circularam nas redes sociais mostraram caixões sendo levados pela correnteza.O prefeito José Damato Neto assinou decreto de calamidade pública ainda na terça-feira. O governador Romeu Zema (Novo) visitou as cidades e anunciou antecipação de verbas estaduais. O presidente Lula, em escala em Abu Dhabi, reconheceu o estado de calamidade em Juiz de Fora e enviou a Força Nacional do SUS.R$ 14 MILHÕES, 9 DEPUTADOS, ZERO PARA ENCHENTESO levantamento da Jovem Pan cruzou os dados de todas as ordens bancárias federais com destino ao município de Ubá em 2025, identificando o autor de cada transferência por meio da consulta por documento disponível no Portal da Transparência do Governo Federal (portaldatransparencia.gov.br). O resultado mostra um fluxo robusto de recursos: R$ 14.384.744 em emendas parlamentares, distribuídos entre nove deputados federais e a bancada estadual de Minas Gerais.A maior parte — R$ 10.270.744, ou 71,4% do total — foi destinada ao Fundo Municipal de Saúde de Ubá em transferências fundo a fundo pelo SUS, classificadas como despesas correntes de custeio. Outros R$ 3.564.000 chegaram ao município via chamadas Emendas Pix, as Transferências Especiais, que não exigem finalidade definida. O restante, R$ 1.050.000, veio da bancada estadual mineira.Parlamentar Partido/UF Total (R$) Tipo de repasseUbá afundou com R$ 14 milhões em emendas na conta — e nenhum centavo para infraestruturaNenhuma das emendas identificadas pelo levantamento tem relação com obras de drenagem, contenção de encostas, revitalização de rios ou qualquer tipo de infraestrutura hídrica. André Janones (AVANTE-MG), que sozinho enviou R$ 3,99 milhões a Ubá — o equivalente a 27% de tudo que a cidade recebeu —, concentrou seus recursos em custeio hospitalar e em repasse direto via Emenda Pix.O DINHEIRO DA SAÚDE E OS HOSPITAIS AFUNDADOSAs fortes chuvas causaram a interrupção de uma Farmácia Municipal, de um Centro de Especialidades Odontológicas, da Policlínica Regional e da unidade de saúde de atenção primária em Ubá. São exatamente esses os equipamentos que figuram nos programas orçamentários das emendas de saúde identificadas pelo levantamento no Portal da Transparência do Governo Federal.As ordens bancárias registram duas finalidades principais: “Incremento Temporário ao Custeio dos Serviços de Assistência Hospitalar e Ambulatorial para Cumprimento de Metas” — programa vinculado à Policlínica Regional e ao atendimento especializado — e “Incremento Temporário ao Custeio dos Serviços de Atenção Primária à Saúde”, referente às unidades básicas de saúde.Traduzindo: o dinheiro que foi para o custeio da Policlínica Regional está, em alguma medida, vinculado a um equipamento que as próprias chuvas colocaram fora de operação.Emendas fundo a fundo, como as identificadas neste levantamento, são despesas correntes — custeiam pessoal, medicamentos e serviços, mas não constroem nem reformam estruturas físicas. A questão que se impõe é: se a verba de custeio chegou ao município ao longo de 2025, por que as unidades de saúde foram tão vulneráveis a um evento climático que, segundo a própria Defesa Civil, não é o primeiro de grande escala a atingir a cidade?EMENDA PIX: R$ 3,5 MILHÕES SEM RASTRO DE FINALIDADEQuatro parlamentares — André Janones (R$ 990 mil), Misael Varella (R$ 1,485 milhão), Lafayette de Andrada (R$ 643,5 mil) e Delegada Ione (R$ 445,5 mil) — utilizaram o mecanismo das Transferências Especiais para enviar R$ 3.564.000 diretamente ao caixa do Município de Ubá, sem qualquer vinculação de finalidade. Os dados constam do Portal da Transparência do Governo Federal. A lei permite que a Prefeitura aplique o recurso onde quiser.A questão que o desastre levanta é objetiva: poderiam os R$ 3,5 milhões de livre aplicação ter sido direcionados a obras de prevenção de enchentes? A resposta é sim. O que a Prefeitura fez com o dinheiro é o que ainda precisa ser respondido.JANONES, A MAIOR EMENDA E O VÍNCULO POLÍTICOAndré Janones é o parlamentar federal que mais dinheiro enviou a Ubá em 2025. Suas transferências somam R$ 3,99 milhões, sendo a maior delas uma única ordem bancária de R$ 3 milhões, emitida em 17 de julho de 2025, conforme registrado no Portal da Transparência do Governo Federal. O valor equivale a quase quatro vezes a segunda maior emenda individual destinada ao município no período.Ubá é uma cidade de médio porte da Zona da Mata mineira, com cerca de 120 mil habitantes, sem histórico de vinculação política conhecida com o deputado, que representa o Triângulo Mineiro e a região central do estado. O levantamento não encontrou registro público de justificativa ou plano de trabalho associado à emenda de R$ 3 milhões além da classificação orçamentária padrão.JULHO DE 2025: 15 ORDENS BANCÁRIAS EM UM MÊSO levantamento revela ainda uma concentração temporal incomum: 96,6% de todos os recursos de saúde destinados a Ubá — R$ 9,92 milhões em 15 ordens bancárias — foram transferidos em um único mês: julho de 2025, segundo o Portal da Transparência do Governo Federal. O Ministério da Saúde costuma acelerar a execução orçamentária no segundo semestre para cumprir as metas de gastos do exercício, o que explica parcialmente o padrão. Ainda assim, a concentração chama atenção.A questão que fica sem resposta é simples: o que foi feito com esses recursos entre julho de 2025 e fevereiro de 2026? Os R$ 10 milhões em custeio foram executados? Geraram contratos, serviços prestados, equipamentos adquiridos? Ou ainda transitam no caixa municipal aguardando aplicação — e poderiam, eventualmente, ser redirecionados para a reconstrução?O QUE O DINHEIRO PODE OU NÃO FAZER AGORADo ponto de vista jurídico, as emendas fundo a fundo do SUS têm destinação vinculada: só podem ser usadas em saúde. Mas o decreto de calamidade pública assinado pelo prefeito Damato Neto abre brechas relevantes. Em situação de calamidade, o município pode dispensar licitação para contratações emergenciais, inclusive na área da saúde, e pode solicitar ao governo federal o remanejamento de recursos — o que inclui negociar com os próprios autores das emendas a reorientação de valores ainda não empenhados.Já as Emendas Pix — os R$ 3,5 milhões de livre aplicação — podem ser redirecionados sem necessidade de autorização parlamentar, desde que respeitem a legislação vigente. Se ainda estiverem disponíveis no caixa municipal, representam a margem de manobra mais imediata que Ubá tem para financiar ações emergenciais de reconstrução. “Saber se o dinheiro foi gasto, está disponível ou está bloqueado é a primeira pergunta que a Câmara Municipal de Ubá deveria fazer ao Executivo nesta semana.”CRONOLOGIA: DO DINHEIRO AO DESASTREUbá afundou com R$ 14 milhões em emendas na conta — e nenhum centavo para infraestruturaNOTA DE APURAÇÃO — Todos os dados utilizados nesta reportagem foram extraídos do Portal da Transparência do Governo Federal (portaldatransparencia.gov.br) e são de acesso público. A metodologia completa e as planilhas de base estão disponíveis para consulta. Leia também Mortos, caixões em enxurrada, calamidade: chuva deixa rastro de destruição em MG