AC/DC desafia o tempo e se mostra indestrutível no 1º de três shows em SP

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Passavam-se quase duas horas desde que o AC/DC havia começado o primeiro de seus três shows em São Paulo. Angus Young ficou sozinho no palco de onde ainda não tinha saído. O guitarrista emendava já mais de dez minutos de solo durante o hino “Let There Be Rock”, com direito a chuva de papel picado enquanto se jogava no chão de uma plataforma elevada no meio do corredor central da pista.Para a parte cansada do público que esgotou em minutos os ingressos dessa primeira apresentação — antes da imediata confirmação de dois repetecos —, foi um teste de paciência. Outros tantos, porém, respondiam aos gritos a cada vez que o músico deixava de extrair licks blueseiros de sua guitarra e lhes apontava um dedo ou levava as mãos às orelhas.O sorriso estampado na cara do único remanescente da formação original da banda australiana fundada há mais de meio século se uniu à alegria contagiante demonstrada por Brian Johnson pela resposta barulhenta e empolgada no estádio ao longo do show de duas horas e 15 minutos.Contestado por atuações abaixo da média na turnê atual, o vocalista inglês superou as dúvidas na enérgica e divertida festa promovida pelo AC/DC no Morumbis em sua quarta — e última? — visita ao Brasil. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)The Pretty Reckless tem recepção discreta na aberturaA vocalista Taylor Momsen mal tinha deixado as fraldas quando o AC/DC se apresentou pela primeira vez em São Paulo, em 1996, mais de uma década após a estreia nacional no Rock in Rio 1985. Sua banda, The Pretty Reckless, engatinhava no último show dos australianos no Brasil, em 2009. De lá para cá, o grupo da ex-atriz americana enfileirou hits de nicho que encabeçaram a parada de rock nos Estados Unidos ao longo de quatro discos de estúdio.Na posição de aposta num expoente da nova geração para tentar justificar o valor exorbitante dos ingressos da atual turnê dos australianos, The Pretty Reckless teve em sua terceira visita ao país uma exposição inédita transcendendo os seus fãs. A pista do estádio da zona sudoeste paulistana ainda não estava abarrotada, mas já encontrava-se bem cheia para um dia útil que mal terminara no momento em que o grupo subiu ao palco precisamente às 19h30.“Death by Rock’n’Roll”, canção que batiza o disco mais recente, de 2022, abriu a noite sem chamar a atenção do público. Curiosamente, era uma das inúmeras faixas da banda a atingir o primeiro lugar entre as canções de rock da parada da Billboard. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Momsen mostrou alcance vocal, atitude despojada e inegável sex appeal para concentrar em si a atração dos presentes. No entanto, apesar do som com que equilibra um incontestável apelo pop entre hard rock despojado e certa melancolia grunge, o público não se animou tanto assim na apresentação de 55 minutos.Não foi por falta de esforço de Momsen, que fez o possível para colocar a galera para cantar seus refrões pegajosos enquanto corria rodopiando pelo palco em “Since You’re Gone”, do disco de estreia “Light ‘em Up”(2010), ou dançava de forma lasciva em “Follow me Down”, hit do platinado segundo álbum, “Going to Hell” (2014). Ela até se arriscou em português ao chamar pelas garotas da plateia para introduzir “Witches Burn”, outra do álbum mais recente, após promover a estreia ao vivo da nova “For I Am Death”, single lançado em agosto do ano passado. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Rolling Stone Brasil (@rollingstonebrasil)Taylor conseguiu palmas e gritos, mas não teve muito sucesso quando trouxe o público cantar junto em “Make Me Wanna Die”, de seu trabalho de estreia de 2010, e “Going to Hell”, faixa-título do disco de 2014. Pior: ficou no vácuo ao tentar um jogral com os versos de “Heaven Knows”, também do segundo trabalho e primeira a atingir o topo da parada rock dos EUA. A galera dispersou de vez no único momento no qual ela saiu do palco para o guitarrista Ben Phillips estender seu solo ao lado do baixista Mark Damon e do baterista Jamie Perkins.A missão da banda talvez fosse sair consagrada do Morumbis ao encerrar seu set com “Take Me Down”, única faixa do terceiro disco, “Who You Selling For” (2016), e mais uma a atingir a posição mais alta do ranking roqueiro da Billboard. Os gritos pela atração principal da noite assim que The Pretty Reckless deixou o palco, no entanto, mostraram que esse hipotético plano não deu muito certo.Repertório – The Pretty Reckless:Death by Rock and RollSince You’re GoneFollow Me DownOnly Love Can Save Me NowFor I Am DeathWitches BurnMake Me Wanna DieGoing to HellHeaven KnowsTake Me DownA volta do AC/DCDesconsiderados os ainda longos — embora rareando — cabelos brancos, seria como se o tempo não tivesse passado quando Angus Young, prestes a completar 71 anos, subiu ao palco com seu indefectível visual de estudante endiabrado: paletó verde, gravata e boné nas cores verde e amarelo. Os quase 17 anos desde a última apresentação no Brasil, no mesmo estádio — então ainda sem o atual trocadilho com o detentor dos direitos de uso do nome —, porém, deixaram marcas no AC/DC.Malcolm Young, irmão mais velho de Angus e cofundador do grupo — para muitos fãs, sua verdadeira alma —, morreu em 2017, após afastar-se três anos antes em razão de demência. Em seu lugar, o sobrinho Stevie Young, apenas dois anos mais jovem do que Angus, manteve a guitarra rítmica dentro do clã familiar. Um pouco desajeitado e sem a mesma determinação no palco do falecido fundador, nem de longe repetiu a interação telepática entre os tios guitarristas que foi marca registrada do som único do AC/DC.O peso da ausência de Malcolm foi amplificado pela seção rítmica de músicos contratados. O baixista Cliff Williams se aposentou dos palcos, e Phil Rudd, com problemas pessoais, não pôde tocar bateria nas últimas turnês da banda. Talvez só os fãs mais chatos tenham notado alguma diferença em relação à competente performance dos substitutos americanos Chris Chaney e Matt Laug, respectivamente. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)O desafio de Brian JohnsonJá com Brian Johnson, a história foi outra. Sua simples presença em cena soa como um milagre da medicina. Em 2010, durante a turnê de “Black Ice”, precisou cancelar apresentações por causa de uma doença gástrica que quase evoluiu para câncer. Seis anos depois, abandonou a excursão de “Rock or Bust” devido a complicações decorrentes de um tímpano perfurado, que ameaçaram sua audição.Quando foi substituído por Axl Rose nas datas restantes, a despedida pareceu definitiva. O vocalista, porém, retornou para gravar “Power Up” e participar da turnê iniciada após a pandemia de covid-19. Ainda assim, algumas performances recentes chegaram a viralizar nas redes, com questionamentos sobre sua condição de seguir à frente do microfone.Felizmente, a estreia brasileira da nova excursão dissipou parte dessas dúvidas. É óbvio que ninguém espera do cantor de 78 anos a mesma potência nos gritos da estreia no país durante a edição inaugural do Rock in Rio. Se faltaram fôlego e alcance nos agudos — sobretudo nas faixas de “Back in Black” —, sobraram entrega, carisma e bom humor para sustentar uma apresentação extensa.Aposta nos clássicos sob o comando de AngusApesar de promover o disco “Power Up”, lançado em 2020, o repertório deu relativa prioridade à fase do vocalista antecessor Bon Scott, falecido em 1980, quando o AC/DC parecia destinado a chegar ao auge. “If You Want Blood (You’ve Got It)”, de “Highway to Hell” (1979), último álbum com ele, abriu o show sem repetir aquela coesão instrumental típica do som do grupo, mas empolgando o público com seu refrão cheio de “gang vocals” fáceis de serem cantados em coros.Johnson já se mostrou empolgado com a reação do estádio à primeira música, que só aumentaria com os coros acompanhando desde o icônico riff inicial de “Back in Black”, faixa-título e primeira de cinco canções extraídas do disco de 1980, sua estreia na banda. A animada “Demon Fire”, primeira extraída do trabalho mais recente, não deixou o público esfriar antes de outro clássico do álbum de 1979, “Shot Down in Flames”; diferente de “Shot in the Dark”, a outra nova, que passou despercebida mais à frente do set.Os dois meses de folga fizeram bem aos septuagenários Angus Young e Brian Johnson, que carregam o show do AC/DC nas costas. Se o set dispensou “The Jack” ou “Bad Boy Boogie” para o guitarrista simular seu tradicional e cômico striptease — a idade chega —st, aos poucos Young foi se desfazendo de seu vestuário. O paletó foi embora pouco antes de o guitarrista dar uma mínima engasgada nos tappings iniciais de “Thunderstruck”, hit de “The Razors Edge” (1992). O andamento mais lento, porém, não impediu o público de fazer coro acompanhando sua melodia, nem de berrar pelo trovão. Em “Have a Drink on Me”, o vocalista até arriscou trocar uns gritos agudos com os licks de guitarra ao final da música do disco de 1980. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Na clássica “Highway to Hell”, Young trocou o boné pela tiara de chifrinhos vermelhos que iluminava todo o estádio, enquanto o palco esquentava sua temperatura com pequenas labaredas. A gravata só deixou seu pescoço quando virou apetrecho para solar durante “Sin City”, faixa do subestimado “Powerage” (1978), uma das duas músicas nas quais o guitarrista arriscou um jogral de versos com Johnson. A outra foi “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, faixa-título do disco de 1976 — mas só lançado fora da Austrália em 1981 —, que transformou a pista numa cama elástica em seu refrão.“Riff Raff”, frenética canção de “Powerage”, teve Angus Young percorrendo o palco com seus passos de pato devidamente roubados de Chuck Berry. Logo antes, durante “High Voltage”, Brian Johnson, sem esconder a empolgação com uma dança desengonçada, tomou o corredor frontal para interagir com o público. Elas encerraram uma sequência de músicas da fase de Bon Scott que confirmou o retorno de “Jailbreak” aos sets do AC/DC, ignorada desde o início dos anos 1990 e retomada nos últimos shows do ano passado. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Legado reafirmado com hits, sino e canhõesO andamento mais lento e a falta de fôlego de Brian Johnson não foram impeditivos para o público cantar e pular durante o megahit “You Shook Me All Night Long”, de “Back in Black”. Antes de encerrar a parte inicial do set com os solos intermináveis de Angus Young na agitada “Let There Be Rock”, faixa-título do disco de 1977, a velocidade voltaria a tomar em “Whole Lotta Rosie”, do mesmo álbum, quando até umas pequenas rodas se abriram no meio da chamada “Pista A”. A “musa inspiradora” de sua letra, porém, apareceu só no telão e não mais como uma boneca gigante inflada ao fundo do palco, como era tradição nos shows.Por um lado, a produção foi atualizada para a era dos painéis gigantes, com o grupo se apoiando numa simples interação entre a iluminação do palco e os telões ao seu fundo e nas laterais. Por outro, o AC/DC não abandonou seus dois adereços mais marcantes.O tradicional sino dobrou para introduzir o riff macabro de Young em “Hells Bells” ainda na primeira metade do set. O encerramento, depois de “T.N.T.” trazer a banda de volta para o bis após curto intervalo, teve os canhões se encaminhando para o palco durante a melodia introdutória de “For Those About to Rock”, e dispararam ao comando de Johnson no catártico e esperado gran finale.Poucas bandas fazem jus ao rótulo de “clássicos atemporais” como o AC/DC. O estilo direto, inconfundível e impossível de replicar explica a capacidade de lotar três noites no maior estádio da capital paulista, apesar do peso da idade e da formação desfigurada. Afinal, é difícil crer que o público brasileiro voltará a presenciar as saudações para quem está prestes a ser chacoalhado pelo estrondo dos canhões após a atual temporada no Morumbis.AC/DC – ao vivo em São PauloLocal: Estádio MorumbisData: 24 de fevereiro de 2026Turnê: Power UpProdução: Live NationRepertório:If You Want Blood (You’ve Got It)Back in BlackDemon FireShot Down in FlamesThunderstruckHave a Drink on MeHells BellsShot in the DarkStiff Upper LipHighway to HellShoot to ThrillSin CityJailbreakDirty Deeds Done Dirt CheapHigh VoltageRiff RaffYou Shook Me All Night LongWhole Lotta RosieLet There Be RockBis:T.N.T.For Those About to Rock (We Salute You)Quer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? 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