Canibalismo é um assunto sério quando praticado entre humanos, mas no reino animal é um evento comum e, às vezes, necessário para aumentar a nutrição da dieta. No caso das cobras, o motivo pode mudar de acordo com a espécie, segundo um estudo brasileiro publicado na Biological Reviews e com autoria principal de Bruna B. Falcão.A seguir, confira como e por que as cobras evoluíram para praticar canibalismo, em quais espécies isso mais acontece e com que frequência.Por que algumas cobras praticam canibalismo?Proposta do artigo científicoImagem: Bernard Dupont, Wikimedia Commons/ReproduçãoO artigo “Ocorrência e evolução do comportamento canibal em cobras existentes“, foi publicado por Bruna B. Falcão, Vinícius A. São Pedro, e Omar M. Entiauspe-Neto em novembro do ano passado.No resumo do trabalho, os pesquisadores explicam que, embora os hábitos canibais tenham sido bem documentados em outros bichos, essa análise não ocorreu com a mesma efetividade nas serpentes.Então, os pesquisadores estudaram 503 eventos documentados na literatura, abrangendo 207 espécies de cobras em 15 famílias, e analisaram a incidência do comportamento canibal na natureza e em cativeiro. Também foi estudado por que motivos as cobras praticavam o canibalismo.Leia mais:As 10 cobras mais peçonhentas do mundo (e quais vivem no Brasil)Quais as maiores cobras do mundo?As cobras mais raras do Brasil e onde elas ainda vivem em 2025O que os pesquisadores encontraramCobra de milho é um exemplo de serpente da família Colubridae (Reprodução: Corpo de Bombeiros de Juiz de Fora)Os dados concluem que os eventos de canibalismo ocorreram, principalmente, nas famílias Colubridae (29%), Viperidae (21%) e Elapidae (18,9%). Os registros encontrados foram mais presentes em ambientes de cativeiro (43%) do que na natureza (27%).O estudo também compreende que, diferente do que pesquisadores supunham, o canibalismo nas serpentes não parece ocorrer de forma aleatória. A primeira relação que aponta isso é a prioridade de uma cobra em consumir uma parente que tenha um tamanho menor: isso sugere que, se for um animal das famílias Colubridae, Viperidae ou Elapidae, há chances significativas do bicho maior devorar o de menor comprimento.Ademais, para além do simples oportunismo predatório, também foi registrado:Canibalismo materno (6,4%): a fêmea consome ovos, neonatos, ou filhotes para recuperar energia ou quando as crias apresentam algum problema ou estão mortas;Canibalismo entre filhotes (6%): um irmão consome o outro para diminuir a competição de recursos, para acelerar o crescimento ou até pelo puro oportunismo quando comparados os tamanhos/comprimentos de cada um;Canibalismo sexual (raríssimo): geralmente, um parceiro se alimenta do outro para obter energia e nutrientes extras após ou durante a cópula.Jararaca é um tipo de cobra da família Viperidae (Imagem: reptiles4all / Shutterstock.com)Apesar de diferentes motivos, a razão por trás da prática canibal pode mudar de acordo com a cobra. As jiboias-vermelhas, por exemplo, estão mais tentadas ao canibalismo materno para proteger os filhos saudáveis de doença ou má condições de saúde que a prole doente resguarda.Já as sucuris-verdes podem sentir maior afinidade com o canibalismo sexual, visto que copulam com muitos parceiros simultaneamente. Então, como há muita variedade de machos, que são menores que as fêmeas em sua maioria, eles são devorados para recarregar as energias gastas no sexo. Isso também pode servir para selecionar o macho mais forte, que será o felizardo com o “melhor esperma”.No caso dos colubrídeos, embora raramente incluam outras serpentes na dieta, eles aparecem em 29% dos registros de canibalismo. Nesses casos, o comportamento parece estar associado principalmente a fatores de estresse, como a escassez de presas mais adequadas.Entre as víboras, responsáveis por 21% dos registros, a maior parte dos episódios ocorreu em cativeiro, geralmente em situações de confinamento e falta de alimento.Já os elapídeos, que concentram 19% dos casos, incluem espécies naturalmente ofiófagas — isto é, que se alimentam de serpentes — de modo que o canibalismo pode representar uma extensão de um hábito alimentar já presente na dieta do grupo.Coral verdadeira faz parte da família Elapidae (Imagem: Ryan M. Bolton / Shutterstock.com)O principal fator associado ao canibalismo em serpentes é bastante simples: o tamanho da boca em relação à presa. Ou seja, se a presa cabe na boca, pode ser consumida. Espécies com bocas menos móveis, como as cobras-cegas, apresentaram índices mais baixos de canibalismo. Além disso, serpentes maiores possuem mais energia e, consequentemente, maior probabilidade de consumir outros indivíduos da mesma espécie.O estudo apresenta algumas limitações: 43% dos registros vêm de animais em cativeiro e 29% não fornecem contexto detalhado. Por isso, o comportamento observado na natureza pode seguir padrões ligeiramente diferentes. Ainda assim, a pesquisa abre caminhos para investigações futuras sobre os motivos pelos quais o canibalismo é tão frequente entre serpentes.O post Por que algumas cobras evoluíram para serem canibais? apareceu primeiro em Olhar Digital.