Living Colour dá show de groove, política e resistência no Rio

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Alguns momentos são simbólicos — e poucos traduzem com tanta nitidez o que significa um show de rock quanto a imagem de um garoto de 11 anos, filho de pais roqueiros, tentando enxergar além da própria estatura em meio a uma plateia adulta. Ele ouve som “por tabela”, mas já demonstra curiosidade suficiente para acompanhar os genitores a um rolê no qual provavelmente é o ser vivo mais novo do recinto. Ganha um colo providencial, daqueles que funcionam como rito de passagem. Do palco, recebe do vocalista um cumprimento — ou reconhecimento — em forma de chifrinho do diabo. Boas-vindas ao inescapável mundo dos shows.A cena aconteceu no último sábado (28) durante a apresentação do Living Colour, que desde o fim dos anos 1980 tensiona fronteiras entre hard rock, funk, punk, jazz e metal com discurso racial e político incisivo. Formada por Corey Glover (voz), Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria), a banda construiu reputação de excelência instrumental e contundência temática desde “Vivid” (1988), álbum que os alçou ao mainstream sem diluir a identidade.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotosDe volta ao Rio de Janeiro — e ao Sacadura 154 — menos de dois anos desde a última visita (confira como foi), o grupo apresenta o show “The Best of 40 Years”. Embora o título sugira um panorama completo de sua trajetória, o repertório concentrou-se no auge criativo entre 1988 e 1993: foram seis canções de “Vivid”, seis de “Time’s Up” (1990) e quatro de “Stain” (1993), além de um cover atemporal. Na ponta do lápis, a celebração focou em apenas seis anos — mas o público não pareceu se importar.Mas antes disso…Madzilla: Disposição para conquistar territórioCertamente poderia haver mais gente na casa quando o Madzilla iniciou seu set pontualmente às 20h20. O quórum enxuto, no entanto, não foi suficiente para abalar o quarteto equatoriano radicado em Las Vegas — David Cabezas (vocais e guitarra), Daniel Gortaire (baixo e backing vocals), Sarah Dugdale (guitarra) e Courtney Lourenco (bateria) —, que entregou um thrash metal (!!!) intrincado, veloz e exigente. Talvez justamente por essa dissonância em relação aos headliners, a comunicação com o público não tenha sido imediata. Ainda assim, o compromisso em fazer bonito falou mais alto.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotosJá é a terceira vez do Madzilla no Brasil, mas a primeira no Rio de Janeiro. Na bagagem, de novo, seu álbum mais recente, “Angel Genocide”. Antes de mergulhar na segunda sequência de riffs, Cabezas se dirigiu à plateia em português esforçado, gesto que ajudou a estreitar a distância inicial: “Hoje vamos tentar falar sua língua pelo respeito e admiração que temos pelo Brasil. Mas como não falo muito, tentem me ajudar um pouco. Somos todos uma grande família. Estão prontos Rio???? ESTÃO PRONTOS RIO????”. A resposta veio em forma de gritos e punhos erguidos, preparando o terreno para “Vengeance”, música de introdução extensa e construção gradual até um refrão daqueles que se fixam já na primeira audição.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotosNinguém parecia mais satisfeito do que o próprio vocalista, visivelmente empolgado com a estreia carioca. “Depois do show, venham tomar uma cerveja conosco!”, convidou ele. “A Deadly Threat” encerrou o set com contundência. Logo após os últimos acordes, o convite foi reiterado: a cerveja e toda uma sorte de produtos aguardavam no estande de merchandising.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotosRepertório — Madzilla:Ashes of LightVengeanceWarfare WithinAngel GenocideAsphixiating CriesA Deadly ThreatLiving Colour: Aula de groove, política e resistênciaSe a pior notícia sobre Andressa Urach é sempre a próxima, o melhor show do Living Colour é, invariavelmente, o seguinte.A postura no palco é quase antagônica à ideia de interação convencional. O paletó listrado de paetês vermelhos e dourados de Corey Glover cintila sob os refletores, mas o Living Colour não é de conversa fiada nem de troca constante de olhares com a plateia. Solando, é como se Vernon Reid mirasse um ponto fixo na linha do horizonte, alheio ao entorno. Os óculos escuros de Doug Wimbish ocultam qualquer relance visual. De Will Calhoun, dependendo do ângulo, vê-se somente o topo da cabeça e os braços que se erguem para golpear os pratos com elegância quase coreográfica. A comunicação se dá prioritariamente pela música — e ela fala alto. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)“Leave It Alone” e “Middle Man” abrem o repertório. Nesta segunda, os ataques pouco ortodoxos nas cordas de Vernon funcionam como comentário paralelo à letra, que questiona a posição de quem se vê espremido entre forças maiores. Rock politizado, mas livre de maniqueísmos.A releitura de “Memories Can’t Wait”, original do Talking Heads, é exemplo cristalino da capacidade do Living Colour de se apropriar de repertórios alheios. Da mesma forma que Jimi Hendrix reinventou “All Along the Watchtower”, de Bob Dylan, o quarteto toma para si o universo de David Byrne e cia. e o apresenta em interpretação quase freestyle se comparada ao que se ouve nos sulcos de “Vivid”. É como se tateassem os arranjos à medida que os versos avançam, infiltrando algo de reggae, algo de prog, numa combinação que ninguém em sã consciência ousaria copiar. A execução ao vivo transforma a canção em laboratório sonoro.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotos“Ignorance is Bliss” traz à tona a benção de ser burro — ou melhor, a falsa paz da ignorância, a inocência de coração castigada constantemente por estruturas que se beneficiam do não questionamento. O contraste entre peso instrumental e lirismo ácido sintetiza a estética do grupo. Em “Go Away”, o som de um cowbell antecede a contagem puxada no grito por Will, preparando o terreno para o questionamento: “What is the point of suffering?” (“De que adianta sofrer?”). A pergunta ecoa em tempos de saturação informacional e crises múltiplas, reafirmando a atualidade de um repertório escrito décadas atrás.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotosFalando em atualidade, muito antes de qualquer discussão superficial sobre “bicurious” em redes sociais primitivas, a banda já cantava que “everybody wants you when you’re bi” (“todo mundo te quer quando você é bi”), abordando bissexualidade e identidade com frontalidade rara no rock mainstream da época. O baixo de Doug Wimbish, carregado no whammy, parece gemer, conferindo verniz ainda mais erótico e inquietante a uma letra que confronta preconceitos sexuais. Já os raciais são objeto de uma “Funny Vibe” de “vibe” deveras “funny”, com script triturado e muito espaço para improvisação. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Na versão de “Hallelujah”, de Leonard Cohen, a catarse é coletiva. O clássico ganha contornos próprios, pontuados por zoeiras com afetados pastores pentecostais. Em seguida, “Open Letter (to a Landlord)” soa particularmente contemporânea. A música que originalmente denunciava a negligência habitacional em bairros marginalizados ressoa diferente em tempos de debate pelo fim da escala 6 x 1. É um lembrete de que é necessário lutar pela vizinhança — ou por direitos trabalhistas em um país de dimensões continentais.O solo de bateria de Will Calhoun, com trecho de “Baianá”, do Barbatuques, recriado ao vivo com uso de loop de efeito, estabelece ponte direta com a musicalidade brasileira e sacramenta a segunda metade do show. A partir daí, desce nova avalanche de hits, iniciada com “This is the Life”, mote antissuicídio ainda mais necessário hoje do que era em 1990.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotosAo entoar “Pride” traz lição sobre a branquitude das narrativas históricas ao entoar “history’s a lie that they teach you in school” (“a história é uma mentira que aprendemos na escola”). Em poucas linhas, a banda questiona currículos oficiais e aponta para a necessidade de recontar os fatos sob outras perspectivas. A aula prossegue com um medley no qual Doug oferece suas credenciais. Outrora músico de estúdio dos mais requisitados, deixou sua marca em clássicos do hip-hop e do funk. O som de seu baixo subtrai todo o restante durante “White Lines (Don’t Do It)”, de Melle Mel; “Apache”, da The Sugarhill Gang; e “The Message”, do Grandmaster Flash and the Furious Five.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotosAo notar certo arrefecimento da plateia, Vernon adverte: “Vocês têm um nome a zelar!” E foi na sátira à masculinidade e à superficialidade “Glamour Boys” que, para usar o jargão técnico de estúdio, as agulhas foram dobradas. E se “Type” versa com eficácia sobre a tal Lei do Retorno — “Everything that comes around goes around” (“Tudo o que vai, volta”) — com liberdade artística similar à exibida em “Memories Can’t Wait” mais cedo, “Time’s Up” lembra que foi-se o tempo em que rodas de pogo eram abertas durante sua execução; a galera está velha do lado de cá, mas a urgência punk de dois minutos e pouco permanece intacta do de lá.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotos“Cult of Personality” fecha o ciclo principal evocando a máxima de que grandes poderes trazem grandes responsabilidades — mas também uma questão de ego raramente discutida que o Tio Ben esqueceu de informar a seu sobrinho Peter Parker. A música, que cita líderes carismáticos e controversos, permanece assustadoramente pertinente em era de personalismos exacerbadosPor fim, “Solace of You” funciona como colo materno em forma de música. Corey canta sentado à beira do palco, e o refrão “Gotta go inside back where it started / Back to the beginning ‘cause that’s where my heart is” (“Tenho que voltar para onde tudo começou / Voltar ao início porque é lá que o meu coração mora”) é repetido à exaustão por uma multidão que se recusa a aceitar que, passadas duas horas, o show está chegando ao fim.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotosE o tal garotinho? Ele pode ainda não saber quem foi Nelson Mandela, talvez só venha a compreender no futuro o peso simbólico de nomes como Rodney King ou George Floyd. Sem saber, porém, foi batizado em território preto, de protesto e afirmação. Quando crescer, poderá olhar para trás e reconhecer naquele colo providencial e naquele chifrinho do diabo mais do que uma lembrança: um exemplo. E exemplos — sobretudo em tempos de ruído e desinformação — seguem sendo o que de melhor pais podem oferecer.Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotosLiving Colour — ao vivo no Rio de JaneiroLocal: Sacadura 154Data: 28 de fevereiro de 2026Turnê: The Best of 40 YearsProdução: Rider2 / Estelita / Top Link MusicRepertório:Leave It AloneMiddle ManMemories Can’t Wait (original do Talking Heads)Ignorance is BlissGo AwayFunny VibeBiHallelujah (original de Leonard Cohen)Open Letter (to a Landlord)This Is the LifePrideMedley: White Lines (Don’t Do It) (Melle Mel) / Apache (The Sugarhill Gang) / The Message (Grandmaster Flash and the Furious Five)Glamour BoysLove Rears Its Ugly HeadTypeTime’s UpCult of PersonalityBis:Solace of YouFoto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotosQuer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? 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