As limitações à antecipação do saque aniversário do FGTS, em vigor desde novembro do ano passado, desagradaram a maioria dos trabalhadores que teriam direito à linha de crédito, mostra pesquisa feita pela AtlasIntel a pedido da Associação Brasileira dos Bancos (ABBC), que reúne as instituições de menor porte, e da Zetta, associação que congrega as maiores fintechs de crédito do país. A pesquisa indicou também que não haveria uso desses empréstimos para jogos de azar, e que a maioria dos trabalhadores destina os recursos para pagar dívidas mais caras.As medidas provocaram uma redução imediata de 80% no volume de empréstimos feitos pelos bancos com garantia nessas operações, e que deve se ampliar para 96% até o fim de 2027, levando ao fim da modalidade, afirma Alex Gonçalves, diretor técnico da ABBC ao comentar a pesquisa da AtlasIntel. A projeção foi feita pela ABBC em conjunto com a Zetta, com dados das 11 maiores instituições financeiras e que representam 70% do mercado de crédito garantido pelo FGTS.Pesquisa com trabalhadores A pesquisa AtlasIntel abordou as principais mudanças aprovadas pelo Conselho Curador do FGTS em outubro do ano passado, como a carência de 90 dias entre a opção pelo saque aniversário e a operação de antecipação e a limitação do número de parcelas anuais que podem ser antecipadas a até cinco até outubro de 2026 e a três depois desse mês. As operações foram limitadas a uma por trabalhador e valor da prestação do empréstimo também foi limitado ao mínimo de R$ 100 e ao máximo de R$ 500.O levantamento da AtlasIntel foi feita entre 16 e 23 de novembro, com 4.243 respondentes que já tiveram experiência no mercado formal de trabalho e por meio de mensagens em sites e redes sociais, o que reduziria respostas enviesadas pela presença de um pesquisador, segundo o instituto. A margem de erro da pesquisa é de 2 pontos porcentuais para cima ou para baixo e o nível de confiança é de 95%.Leia também: Tenho direito ao saque do FGTS? 15 perguntas e respostas sobre liberação de valoresDinheiro vai para dívidas carasDo total dos entrevistados que pediram o saque aniversário, 70% disseram já ter recorrido à antecipação do valor via empréstimo. Sobre o destino do dinheiro do saque aniversário do FGTS, a grande maioria dos que pediram o saque aniversário, 59%, disse usar o valor retirado para pagar dívidas urgentes ou mais caras. Outros 19,9% usaram para despesas com saúde e medicamentos e 11% para comprar bens de uso pessoal, como eletrônicos e roupas. Chama a atenção que 9,6% sacaram para aplicar o dinheiro, como forma de obter remuneração maior que a do FGTS.Sem apostas onlineOs pesquisadores destacam que foi zero o porcentual dos que disseram ter usado o dinheiro para apostas online, que era a grande preocupação do governo. “Os brasileiros não usam o dinheiro do saque aniversário para fazer apostas”, diz Ricardo Barbosa, economista-chefe da Zetta.Entre os que já anteciparam o dinheiro do saque com empréstimos, também a maioria, 69,6%, disse que usou para dívidas urgentes, 28,1% para saúde e medicamentos e 7,1% para bens de uso pessoal. Também não houve respostas de uso do dinheiro para apostas online, destaca Barbosa. Sobre as vezes que usou a antecipação dos recursos, mais de 60% disseram terem recorrido à linha até 4 vezes.Leia também: Crédito do Trabalhador supera R$ 101 bilhões em empréstimos consignadosMaioria acha que prejudicaDos trabalhadores que conhecem a modalidade de saque aniversário, 65,7% acham que as regras que limitam a antecipação prejudicam o trabalhador e 34,3% acreditam que beneficiam. Já a imensa maioria dos que já usaram a linha de crédito, 86,96%, se disse contrária ao fim da antecipação do saque aniversário, com apenas 13% a favor. Sobre se a limitação de usar apenas uma vez por ano a antecipação ajudaria a melhorar o planejamento financeiro dos trabalhadores, 44,7% disseram discordar totalmente e 35% parcialmente. “São 79,7% no total discordando”, afirma Barbosa.Sobre o mínimo de R$ 100 na prestação como forma de evitar o uso desnecessário do recurso, 41,9% discordaram totalmente e 35,8% parcialmente, somando 78%. Já para o limite de R$ 500 por prestação para controlar o uso do saldo, 51,5% discordaram totalmente e 32,3% parcialmente, totalizando 84% de discordância. Sobre o prazo mínimo de 90 dias após o pedido do resgate para antecipar os recursos, 32,4% discordam totalmente e 18,9% parcialmente, somando 51,3%, e 24,2% concordam totalmente.Queda forte nos empréstimosO levantamento da ABBC e da Zetta dos impactos das medidas sobre as instituições mostra que os empréstimos garantidos pelo saque aniversário do FGTS chegaram a R$ 3 bilhões por mês até outubro de 2025. Em novembro, quando entraram em vigor as medidas limitando a antecipação, o volume caiu para R$ 600 milhões. A estimativa da ABBC é que esse número atinja R$ 210 milhões em dezembro deste ano e R$ 12 bilhões em dezembro de 2027, uma queda de 96%, inviabilizando a linha. “Ela tende a deixar de existir”, diz o diretor.Conversa com o governoSegundo Gonçalvez, a ABBC conversou com a Casa Civil para tentar reverter as limitações, mas ainda não obteve resposta. “A estratégia do governo é direcionar o público para o consignado privado, mas mostramos que parte expressiva dos trabalhadores não vai ter acesso a essa linha”, afirma. Segundo ele, existem 134 milhões de trabalhadores com conta ativa do FGTS com saldo, mas somente 49 milhões de celetistas, com carteira assinada, que poderiam usar o consignado privado. “Temos 85 milhões de trabalhadores que não conseguiriam usar o consignado e perderam a opção do crédito via FGTS”, diz.Baixa aprovação de créditoAlém disso, mesmo entre os celetistas, a aprovação do crédito é baixa, pois em geral trabalham em empresas pequenas ou de maior risco. “Em outubro, antes da entrada em vigor das medidas, fizemos uma pesquisa com cinco instituições e de cada 100 trabalhadores que tentaram o consignado privado, apenas 25 conseguiram”, afirma Gonçalves. Há também os que não têm carteira assinada e que não terão acesso ao consignado privado.Leia também: Saque-aniversário do FGTS 2026: veja calendário e quem tem direitoJuros mais baixosGonçalves defende que o custo médio da linha da antecipação do FGTS, de 1,79% ao mês, é mais baixo que a do consignado privado, de 3,79%. Além disso, a linha do FGTS não compromete a renda do trabalhador como o consignado, que é descontado mensalmente no salário. “E as opções para quem não tem acesso ao consignado são ainda mais altas, como o crédito consignado normal, de 6,66% ao mês, o cartão parcelado, de 9,25% e chegando a 19,95% ao mês no caso do crédito para negativados”, destaca Gonçalves, lembrando que 74% do público está com o nome sujo.Melhor que isenção de IRA ABBC defende também que o impacto negativo do fim da linha do saque aniversário na economia, de R$ 35 bilhões, será maior que efeito positivo da redução do imposto de renda, de R$ 32 bilhões, e atingirá mais trabalhadores. Nos cálculos da ABBC e da Zetta, há 40 milhões de trabalhadores cadastrados para usar o saque aniversário, dos quais 70%, ou 28 milhões, já usaram o crédito para antecipação. Já os beneficiados pela redução de imposto são cerca de 16 milhões. “Torna-se importante o governo rever medida para não inviabilizar essa linha que atende público que não tem acesso a outras opções baratas”. A ABBC e a Zetta defendem também que os saques aniversário, que passaram de R$ 9 bilhões em 2020 para R$ 50 bilhões até novembro de 2025, não comprometeram o saldo do FGTS, que avançou de R$ 424 bilhões para R$ 695 bilhões.Segundo Gonçalves, nas conversas, o governo se mostrou surpreso com o impacto do piso da prestação, de R$ 100, para novos empréstimos. Segundo a ABBC, 78 pontos porcentuais da queda de 80% nas operações em outubro foi justamente de empréstimos cuja prestação era inferior a R$ 100. “Por ser uma população de renda mais baixa, que utiliza mais o FGTS, a limitação trouxe um impacto relevante”, disse. Os representantes do governo demostraram preocupação e ficaram de avaliar essa situação, mas não houve um posicionamento sobre rever a medida, afirmou o executivo.The post Bancos veem desaprovação a mudanças e fim das antecipações de saque aniversário appeared first on InfoMoney.