“Não é aleatório”: timing do ataque ao Irã levanta leitura política de Trump, diz estrategista

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O ataque dos Estados Unidos, em coordenação com Israel, contra o Irã no fim de semana reacendeu a tensão no Oriente Médio e já coloca o mercado em alerta para começar a semana. Mas, além da geopolítica e da segurança internacional, há uma leitura política doméstica por trás do movimento.Para Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, o timing da ofensiva não é aleatório. O ataque foi realizado entre sexta e sábado, quando os mercados estão fechados.“Trump faz de novo um ataque de sexta para sábado de madrugada. Ele é bem antenado ao mercado financeiro e espera o fim de semana para não afetar os preços imediatamente”, afirma.Segundo Cruz, a decisão também ocorre em um momento de desgaste interno para o presidente americano. Nos últimos dias, o chefe da  Casa Branca enfrentava pressão relacionada ao caso Epstein, além de ruídos envolvendo a queda na popularidade.Caso Epstein Sobre o caso Jeffrey Epstein, democratas acusaram o governo, na última semana, de promover “o maior encobrimento governamental da história moderna” após reportagens indicarem lacunas na divulgação dos chamados “Arquivos Epstein”.O Departamento de Justiça tornou públicas milhões de páginas ligadas ao financista, com base em uma lei de transparência aprovada no ano passado. No entanto, a National Public Radio, uma rede pública de rádio dos Estados Unidos, identificou a ausência de documentos relacionados a uma denúncia de agressão sexual feita em 2019 por uma mulher que também citou Trump.Segundo os índices oficiais dos arquivos, o FBI teria realizado quatro entrevistas com a denunciante e produzido resumos e anotações. Porém, apenas um desses registros aparece na base de dados pública. Os demais não foram disponibilizados, segundo revisão feita pela emissora e confirmada por outros veículos.Trump nega qualquer irregularidade e afirma que a divulgação dos documentos o isenta. Já parlamentares democratas do Comitê de Supervisão da Câmara acusam o Departamento de Justiça de ocultar material relevante e prometem abrir investigação paralela para exigir a entrega dos arquivos faltantes ao Congresso.Pesquisa mostra preocupação com lucidez de TrumpAlém da questão relacionado ao Caso Epstein, uma pesquisa nessa última semana também mexeu com o presidente norte-americano. O levantamento Reuters-Ipsos apontou que 61% dos americanos concordam que Trump “se tornou errático com a idade”. O dado chama atenção porque inclui 30% dos próprios republicanos. A taxa supera patamares registrados em momentos críticos do primeiro mandato, como após a invasão do Capitólio em 2021, quando os questionamentos não chegaram à maioria da população.A mesma pesquisa mostrou queda na percepção de que Trump é “mentalmente lúcido e capaz de lidar com desafios”: o índice recuou de 54% em setembro de 2023 para 45% atualmente.Dados do Pew Research Center também apontam erosão dentro da própria base: a fatia de republicanos “muito confiantes” na capacidade mental de Trump caiu de 75% para 66% em um ano.Embora os números ainda não atinjam os níveis observados com Joe Biden no fim de seu mandato, os indicadores mostram uma tendência de desgaste que começa a atravessar o eleitorado conservador — justamente em um momento em que o presidente busca reafirmar liderança e controle da narrativa.Ajuste de narrativaNa avaliação de Cruz, a ofensiva contra o Irã ajuda a reorganizar a narrativa política.“De tudo que teve negativo internamente recente, ele realinha os seus defensores. Aqueles que são mais ao centro passam a dizer que o problema não está aqui dentro, o inimigo está lá fora, é o Irã”, diz.O deslocamento do foco do debate doméstico para uma ameaça externa tende a fortalecer a base política e reduzir a pressão sobre temas internos sensíveis.Embora o mercado esteja atento aos impactos sobre o petróleo e à possibilidade de escalada militar na região, parte da explicação para o ataque pode estar no tabuleiro político de Washington.