A proposta defendida pela Enel de substituir árvores de grande porte por espécies menores para criar “corredores de energia” na região metropolitana de São Paulo não é apenas uma medida operacional. Ela revela um dilema estrutural: como proteger uma rede elétrica aérea envelhecida em uma cidade que já opera sob estresse climático crescente. A concessionária argumenta que o contato entre copas e cabos, especialmente durante temporais com ventos fortes, aumenta o risco de interrupções no fornecimento. O raciocínio é direto: reduzir o porte das árvores próximas à fiação diminuiria o impacto dos eventos extremos sobre a rede. O problema é que a variável central desse debate não é apenas técnica. É sistêmica. Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), afirma que a medida ataca a consequência, não a causa. “a Enel está propondo solução ambientalmente danosa para a cidade em vez de propor solução estrutural. A rede elétrica é afetada em função da precariedade construtiva exposta às intempéries. Tirar árvores reduzirá a capacidade de drenagem das regiões urbanas, a capacidade de refrigeração da cidade, a umidificação natural e o sombreamento promovido pelas árvores, além de afetar espécies da avifauna urbana. Isso não resolve o problema. A transmissão de energia via subterrânea é segura e melhora significativamente a paisagem urbana, como se faz em países desenvolvidos. A Enel aparenta tentar transferir seu problema para evitar investimentos estruturais, propondo apenas solução paliativa de menor investimento que trará enorme prejuízo ambiental para São Paulo.”A análise ambiental vai além da paisagem. Árvores maduras funcionam como infraestrutura ecológica. Reduzem temperatura em áreas densamente impermeabilizadas, ampliam infiltração de água no solo e ajudam a desacelerar o escoamento superficial — componente crítico numa cidade que sofre com enchentes recorrentes. A troca por mudas reabre a discussão sobre tempo climático versus tempo biológico. Wendell Andrade, mestre em Gestão de Recursos Naturais, aponta que o debate ignora uma variável decisiva: o intervalo de recomposição dos serviços ambientais: “um dos muitos problemas da declaração é o tempo. Propor trocar árvores agora é jogar fora 15, 20 anos dos serviços ambientais que as árvores prestam às pessoas neste instante. O controle de temperatura e a ‘caixa d’água’ que cada árvore é capaz de armazenar em seu sistema de raízes — e que ajuda a evitar enchentes — são benefícios que não temos o luxo de esperar. Já estamos no futuro, e ele é o da emergência climática. A alternativa vai na direção oposta: precisamos multiplicar árvores e ampliar substancialmente o orçamento para cuidados, com podas técnicas e ordenamento do espaço urbano. As soluções precisam ser baseadas na natureza.”O impasse expõe um conflito clássico entre custo de curto prazo e resiliência de longo prazo. Enterrar redes elétricas é mais caro e exige planejamento regulatório e investimentos robustos. Manter rede aérea exige conviver com risco crescente à medida que os eventos extremos se intensificam. Reduzir arborização madura pode aliviar pontos específicos de conflito, mas implica perda imediata de serviços ambientais justamente quando a cidade mais precisa deles. São Paulo enfrenta hoje três pressões simultâneas: aumento da temperatura média, intensificação de chuvas concentradas e alta impermeabilização do solo. Nesse contexto, árvores não são ornamento. São parte da infraestrutura de adaptação climática.A discussão, portanto, não é “árvore versus energia”. É qual modelo de cidade será priorizado. Uma cidade que opta por ajustar o ambiente natural à fragilidade da rede — ou uma cidade que investe para tornar sua infraestrutura compatível com a nova realidade climática. Se a substituição de árvores vier acompanhada de metas claras de modernização estrutural e ampliação da resiliência, o debate pode ganhar equilíbrio. Se for tratada como solução central, corre o risco de consolidar um precedente: reduzir capital ambiental para compensar limitações técnicas. E, na era da emergência climática, esse é um custo que tende a reaparecer — com juros ambientais e sociais cada vez mais altos. Leia também Diretor-geral da Aneel vota por recomendar caducidade da Enel SP CEO da Enel diz que só 'Jesus Cristo' pode resolver apagões em SP